Jornalismo | 13/07/2008
O hippie do sertão em ritmo de aventura e liberdade
Por Giovanni Alves Duarte
Foto de Giovanni Alves Duarte

Carlos Cajazeiras foi em busca de um sonho que mal compreendia. Ele não podia ficar e esperar.
Ele não leu La Boétie e seu clássico o Discurso da Servidão Voluntária, muito menos Rousseau e as idéias sobre a liberdade natural dos homens.
Para José Carlos bater o pé no chão e gritar “chega!”, bastaram alguns meses de trabalho burocrático no 1º Cartório de Ofício de Cajazeiras, município de 70 mil habitantes no sertão da Paraíba, a 480 km de João Pessoa, e o constante atrito com a família.
Tinha 17 anos, o ano era 1978. Havia ditadura no Brasil, não havia liberdade. Na Presidência estava o general Ernesto Geisel, que prometia uma duvidosa abertura política “lenta, gradual e segura”.
José Carlos não podia esperar. Numa manhã, viu-se sozinho na margem da BR-230, a Transamazônica, à espera de uma carona para qualquer lugar. Tinha largado o emprego, tinha saído de casa. Levava consigo apenas um lençol, uma rede e um tablete de cocadas. “Eu não queria me prender pra trabalhar pra ninguém. Queria ser livre”, recorda José Carlos Ferreira, hoje com 46 anos e mais conhecido como Carlos Cajazeiras.
Ao bel-prazer do destino que o trouxe à capital João Pessoa, sentiu de cara o peso da sua escolha. Sem dinheiro, sem amigos, Cajazeiras nem sequer sabia para onde ir, quando aportou na cidade.
Dormiu sete dias nas ruas. Para comer, narrava sua sina e sensibilizava as pessoas. Até que conheceu Tetéu, um senhor que sobrevivia vendendo discos de vinil nas calçadas do Centro de João Pessoa. “Lembro que estava olhando de longe o vinil do ´rei´ Roberto Carlos, quando presenciei o furto de um dos discos do Tetéu. Aí a gente se conheceu e ele viu minha situação e me indicou um emprego”, lembra Cajazeiras.
Mas não um trabalho igual aos outros. Tetéu o apresentou a um casal de artistas. Foi então que o ofício do artesanato libertou a sua vida, e o sertanejo “arretado” virou hippie de vez.
A arte de ser solidário
Pulseiras, miçangas, adereços para o cabelo, broches e piercings. Da lasca do coco nascem brincos e anéis. Com o casal de artistas, Carlos Cajazeiras aprendeu a construir seu próprio caminho. Entendeu o valor da amizade e da perseverança, e também conheceu a maior lição de todas: a importância da solidariedade.
Depois de oito anos vivendo de favor na casa dos artesãos Seu Bonifácio e Dona Creuza, pôde seguir em frente e, com as mãos, depender da arte para defender seu ideal de liberdade. “O começo não foi fácil. O lençol que me cobria à noite, estendia no chão durante o dia para expor os artesanatos”, explica.
Assim que Cajazeiras juntou dinheiro para alugar uma quitinete, seu amigo Pedro Cabeleireiro, hoje com 48 anos, lhe telefonou de Cajazeiras com o desejo de conhecer “a segunda cidade mais verde do mundo”, como João Pessoa é conhecida. “Eu disse: ´Olha, Pedro, eu não tenho nada que te conforte aqui, mas pode vir, que te receberei de braços abertos´”.
Como forma de agradecimento, Pedro lhe ofereceu 15 cruzeiros, que, naquela época, foram suficientes para montar uma loja de artesanato. Há dez anos, o aventureiro trabalha em um espaço de dois metros de comprimento por dois metros de largura, localizado na Praça Aristides Lobo, Centro de João Pessoa.
O preço da liberdade
Com 46 anos, cabelo curto, barriga saliente e um grande relógio de prata no pulso esquerdo, Carlos Cajazeiras em nada se parece com um hippie. Foi-se o tempo em que usava as longas madeixas como artifício para conquistar as garotas. Hoje se diz fiel à namorada faz sete anos, e é banal no estilo de vestir. “Sou um artesão hippie pela liberdade. Essa cultura não se limita a roupas. Eu a tenho na alma”, explica o sertanejo.
E, de corpo e alma, perambulou pelo Distrito Federal, Ceará e Bahia expondo sua arte. Diz que seu papel é dar continuidade ao movimento, que eclodiu nos Estados Unidos, na década de sessenta, levando milhares de pessoas a pregarem a paz, o amor e a liberdade, contra a guerra e a opressão, tudo regado a muito sexo, drogas e rock and roll. “Mas o máximo que faço é tomar uma cervejinha”, sorri.
A liberdade às vezes tem um preço, e uma dor. Aos 19 anos, no auge do seu vislumbre pelo mundo, o jovem José Carlos sentiu a mão da responsabilidade segurá-lo pelo ombro, dizendo: “Fica, você agora é pai”.
Foi, escolheu esse caminho, no instante em que a vida lhe indicava outro. “Optei por isso, e sou feliz assim”, justifica-se, mas sem esconder uma angústia.
Ele olha então para o chão, depois olha para o teto, segura três dedos da mão esquerda e faz os cálculos: “Meu filho deve estar com 27 anos agora, não é?”.
Carlos gostaria de conhecê-lo. Confessa que, às vezes, em certas noites insones, se sente sozinho. Deita-se com as mãos amparando a cabeça e se imagina brincando com os netos.
Ele faz silêncio, compenetrado, mas uma frase se livra, com convicção e paixão, do cerco dos lábios: “Adoro a liberdade porque tudo que amo, eu deixo livre. Se aquilo se for e não voltar, é porque nunca tive”.
1. Cabeça nas nuvens e pés no chão
Abraços.
13-07-2008 21:36 - Por Isolda Herculano
2. verdadeira realidade brasileira
15-07-2008 07:34 - Por Lourdes
3. hippie do sertão
15-07-2008 10:19 - Por Chico Silva
4. hippie do sertão
esse cara tem um futuro grande
tenho orgulho de ter vc como amigo bixo
pq suas materias sao as melhores que ja vi
é um talento!!
abraço amego!
22-07-2008 12:16 - Por Joao paulo
5. hippie do sertão
28-07-2008 20:26 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
6. Tô com Isolda e não abro
Tô com Isolda Herculano,
Que sempre sabe o que diz.
Você foi muito feliz.
Parabéns por sua pena!
É muito certo o ditado:
"Filho de gato é gatinho"...
Meu aplauso e meu carinho.
Você tá roubando a cena!
03-08-2008 19:31 - Por Dedé Monteiro
7. O Nanas do Sertão no ritmo do sucesso!
Talentoso com a escrita, desde dessa época, sua maneira de pensar e escrever era diferenciada, meu amigo! E o seu trabalho tem mostrado sua marca: a criatividade, a ousadia e o interesse por temas relevantes e, por vezes, diluídos em nosso cotidiano.
Histórias como essa do Sr. José Carlos, não impressionariam tanto nem evidenciariam este capítulo da realidade, se apenas fossem verbalizadas por aí, excetuando-se a narração de quem a viveu. E é neste desafio de transformar o não-verbal numa bela matéria como esta, que o seu trabalho engrandece e me enche de alegria, caro Nanas, pois você procura dar aos seus textos a importância devida e o enfoque necessário ao que precisa despertar nossa atenção.
Meus parabéns por esta matéria, por mais esta conquista que, aliás meu caro Nanas, é a primeira de muitas outras!
Um abraço.
09-08-2008 15:40 - Por Ágabo Daniel
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