Jornalismo | 13/07/2008
Quando “A Banda” passa, até judeus e árabes se entendem
Por João Daniel Donadeli
“Uma banda perdida em uma cidade perdida, ninguém se lembra disso”Com a simplicidade de um tema que há muito não se via no cinema, A Banda, do israelense Eran Kolirin, conta a história de uma pequena banda da polícia egípcia, a Banda Cerimonial da Polícia de Alexandria, que é esquecida no aeroporto de Tel Aviv, em Israel.
Cansados de esperar por alguém que venha buscá-los, os oito músicos do grupo resolvem se dirigir, por conta própria, ao local onde iriam tocar, na inauguração de um centro de cultura árabe.
Sem falar nenhuma palavra em hebraico e com um inglês muito precário, acabam pegando um ônibus errado, para um local distante, no meio do nada. É onde a trama se desenrolará.
Naquele espaço desconhecido, habitado por pessoas que poderiam ser hostis, pois se trata de estrangeiros de origem árabe em território hebreu, haverá oportunidade para o encantamento entre os que chegam e os que lá estão.
O destino errado levará os músicos da banda ao encontro de Dina (Ronit Elkabetz, de Alila), dona de um pequeno bar. Ela é uma mulher independente e encantadora, que espera por um acontecimento que venha preencher o vazio da vida que vive.
Coronel Tewfiq (Sasson Gabai, de A Irmandade) é um homem antiquado, que parece viver nos tempos em que sua banda era reconhecida e consagrada. Gosta de dizer com muito orgulho: “Sou o coronel Tewfiq Zacharya, regente da grande orquestra clássica da Alexandria”. Tentado por Dina, o coronel se mostrará desconfortável pela companhia de uma mulher mais jovem, bela e de uma etnia diferente da sua.
Divulgação

O coronel Tewfiq descreve para a bela Dina a sensação de reger a “orquestra”.
O mais jovem integrante da “orquestra”, o “rebelde” Haled (Saleh Bakri), ignora as diferenças e quer mesmo curtir a vida e conhecer novas pessoas. Aos olhos do coronel, tal atitude talvez não corresponda ao ideal da banda, mas o boa-pinta causará boa impressão, ao compartilhar dos gostos musicais do coronel.
O sensível Simon (Khalifa Natour), ajudante do regente que há vinte anos tenta terminar um concerto que está compondo, se desilude com as perspectivas da banda e vê a possibilidade de um dia regê-la cada dia mais distante.
De maneira tragicômica, sem carregar o filme com conflitos tendenciosos, a disparidade entre muçulmanos e judeus é mostrada sutilmente. Uma das cenas que mostram o desconforto é a de quando, no bar, um dos músicos cobre, com seu quepe, foto na parede retratando os conflitos. Outro momento que explicita a diferença é o de quando os músicos estão à mesa na casa de Avrum (Uri Gavriel, de O Reino), amigo de Dina, em que o silêncio revela a tensão.
A beleza dos cenários, a fotografia, a música e as boas atuações harmonizam A Banda e o tornam uma sensível expressão da realidade humana. Revela as brechas para possíveis quebras das diferenças que, assim colocadas, parecem, antes e apenas, atender às necessidades de extremistas religiosos.
Em A Banda, também fortalece o encantamento da história o uso freqüente de longos planos com câmera fixa, em que o diretor preenche o espaço cênico com acontecimentos cômicos e dinâmicos.
A Banda foi aclamado e premiado nos festivais em que foi exibido. Com razão. É uma grande produção diferente, um filme humano em que o espectador, mesmo longe de entender as divergências étnicas e religiosas, se aproxima das personagens, por se reconhecer em suas fragilidades. Antes de serem árabes ou judeus, são homens, e parecidos no amor e na dor.
A Banda (Israel, França, EUA, 2007, 87 min.)
Direção e roteiro: Eran Kolirin
Elenco: Sasson Gabai; Ronit Elkabetz; Saleh Bakri; Khalifa Natour; Shlomi Avraham; Uri Gavriel
1. Mais que um filme
Obrigado por esta reflexão e por nos brindar com algo mais que um filme.
Um forte abraço.
15-07-2008 20:55 - Por Claudinei
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