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Literatura | 14/07/2008

Dia-a-dia da periferia

Por Alessandro Buzo

Não é fácil viver na periferia. Primeiro, por causa das “famosas” duas horas de condução (na ida e na volta) do trabalho.

Depois, as empresas e seus chefes, gerentes, patrões, que nunca acreditam em que o trem quebrou ou o busão atrasou.

Mas o que mais me incomoda é a falta de opções de lazer e de cultura para os jovens, faltam teatros, cinemas e bibliotecas – e as bibliotecas que tem são mal divulgadas.

Por experiência própria, pois acabo de realizar a décima sexta edição do meu evento de hip-hop, “Favela Toma Conta”, sei que é quase impossível, hoje, fazer uma festa de rua, de graça, para a comunidade.

Primeiro, a estrutura, que é muito difícil de conseguir de graça no Anhembi (Prefeitura de São Paulo);. para alugar, como fiz nas duas últimas edições, só tendo apoio cultural de peso, como nós tínhamos, da empresa de telefonia Claro; senão, fica no escuro, porque os preços são salgados...

Palco com engenheiro de palco: R$ 2.200,00; som e iluminação: R$ 1.000,00; gerador de energia: R$ 1.000,00. Só aí vão R$ 4.200,00 e nem falamos de transporte e cachê das atrações, camarim e tantas outras despesas. Sozinho cê num güenta.

E aí, se o cara não consegue via prefeitura nem tem a grana para alugar? O que faz? Respondo para você: não faz. Que, na real, é o que eles, elite e governo, querem.

Não tendo eventos culturais, fica todo mundo alienado, que é mais fácil manipular.

Se você consegue a estrutura, tem CET, que cobra para fechar a rua, burocracia, a PM que pede mais um monte de documentos e, com tudo isso, ou por causa disso tudo, é cada vez mais raro festa na rua, de graça. Mesmo sem ganhar nada com isso, ainda assim é difícil organizar uma.

O sistema de racismo é muito eficaz, “pra eles um preto a menos é melhor que um preto a mais”, já cantou MV Bill.

Eles, e isso inclui também a mídia, não querem mudanças, deixa o Latino na tevê, festa no apê, o Corinthians lotando estádio na Série B e os deputados à vontade para o que bem entender.

Quem lê, ouve rap, faz alguma coisa é tachado de doido, porque faz algo que não é moda, o que liga é a moda, hoje pagode, amanhã lambada e, no jantar, funk carioca.

Para que ouvir Racionais MCs, GOG, Rappin Hood, Facção Central, Realidade Cruel? O que eles querem é ver meu povo dançando o créu.

Mas, de vez em quando, a gente dá uma na cabeça do sistema, também. Prova disso é que dia 23 de agosto, às 13h, no estande da Global Editora (www.globaleditora.com.br), teremos tarde de autógrafos com os autores da coleção “Literatura Periférica”, na 20ª Bienal Internacional do Livro.

O
s autores e seus livros são: eu e Guerreira; Sérgio Vaz e Colecionador de Pedras; e Sacolinha e 85 Letras e Um Disparo. Vamos prestigiar e mostrar nossa força.

Lembrando ainda que, em agosto, lanço meu quinto livro, Favela Toma Conta, pela Editora Aeroplano, do Rio de Janeiro, e, em setembro, sai minha segunda coletânea, Pelas Periferias do Brasil – Volume 2, com 16 autores de sete Estados.

Sem falar do programa “Manos e Minas”, apresentado toda quarta-feira, às 19h30, na TV Cultura, com apresentação do Rappin Hood. Eu apresento um dos quadros, “Buzão – Circular Periférico” (assista no YouTube, é só buscar por “buzao dgt”), e o escritor Ferréz apresenta outro, o “Interferência”.

Assista a um dos quadros de “Buzão – Circular Periférico”, do programa “Manos e Minas”:



Tudo isso são vitórias, diante do que a elite e a mídia querem para a gente. Mas precisa muito mais. A cada minuto de periferia na tevê, horas são perdidas com novelas e BBB.
 

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