Literatura | 18/07/2008
Os dias que não doem
Por Sérgio Vaz
Cooperifa
O rapper Mano Brown participa do Sarau da Cooperifa. A periferia descobre a própria voz.
Não há mais como nomear as quartas-feiras no Sarau da Cooperifa, Cooperativa Cultural da Periferia, nem contá-las em verso ou em prosa. Por exemplo: a noite da última quarta-feira, 16 de julho, foi simplesmente inenarrável. Mágica. Sem truques. Uma daquelas noites em que a gente se lembra o porquê de estarmos vivos, que é para celebrar a vida com tudo a que temos direito: riso e dor. Só que, desta vez, mais riso do que dor.
A Lua sabe do que estou dizendo, ela estava lá, cheia, em silêncio, por respeito aos poetas, para que fluísse a poesia. Ela viu tudo e, desta vez, fomos nós, a comunidade, que fomos a sua fonte de inspiração, e tenho a certeza de que foi por nós que ela brilhava, para que a gente não se perdesse do caminho.
Parece que todos haviam recebido um comunicado, o mesmo recado, e vinham de todos os lugares, dos becos, das favelas, do centro, do lado de dentro, do lado de fora, foi impossível contá-los sem abraçá-los.
Traziam na garganta um grito entalado que vinha das galés do Império Romano e dos porões dos navios negreiros singrados da velha mãe África, e todos vinham carregados de feridas ainda expostas no peito nu, mas não havia lágrimas, apenas o clamor por liberdade.
Liberdade! Liberdade! Liberdade! (Ô, povo lindo, ô, povo inteligente!)
O Sarau da Cooperifa ficou pequeno para tantas vozes, que se juntavam a outras vozes, era como se ouvíssemos o poeta João Cabral de Melo Neto recitando, depois da dona Edite, “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”.
E cada um que recitava sua poesia era como se lançasse um grito, para que se juntasse a outros gritos, na intenção de que todos esses gritos acordassem a humanidade. Você ouviu?
Eram muitos os que gritavam, homens simples, mulheres dignas, uma gente a quem o capital insiste em escravizar, mas um povo que não admite ser escravizado. Por isso o conflito, e não tem nada a ver com poesia de prateleira de biblioteca. Tem a ver com a palavra da rua, é boca sem dente e descamisada. Órfã de pai e mãe. Sem certidão de nascimento, muito menos carteira profissional. É letra que corre, sim, pelas calçadas de chinelo de dedos, mas que não tem varizes nem frieiras, e não deixa pegadas.
A palavra livre nos torna livres. Livres, entendeu?
Por aqui, agora, só apanha na cara quem quer. Lá, no Sarau, escolhemos não dar a outra face, aliás, face nenhuma: bateu, levou!
Um dia, um intelectual disse que éramos exóticos só porque pegávamos ônibus lotado e gostávamos de poesia: “Como esses ornitorrincos podem gostar de literatura?”, ironizou o homem da academia, levantando os halteres das letras, para que outros dos seus também exercitassem a arrogância. Nesse caso, os sábios cantam como sabiás, mas dançam como caranguejos – nada contra os caranguejos.
Mas quem foi que disse que a gente gosta de literatura?
A gente gosta de Mané Garrincha, o bailarino das pernas tortas. De Cartola, Adoniran, Dolores, Sabotage. A gente gosta de roda de samba em cima da laje. De beijo na boca. De futebol de várzea. De boa educação. De casa pra morar. De trabalhar. De empinar pipa. De boteco. De cerveja gelada. De festa na quebrada. E de uma “pá” que não dá para escrever aqui.
A gente gosta de rir, chora, mas a gente gosta mesmo é de sorrir. Aí vem alguém e diz que “não pode”, então a gente escreve sobre essas coisas, dos dias que doem e os dias que não.
A gente é casca de ferida que gosta de rir e chorar no papel, só isso.
Não é literatura, é a vida. É a vida o que realmente nos interessa.
*No Sarau da Cooperifa da última quarta, 16 de julho, tinha mais de quatrocentas pessoas (recorde do ano), mais ou menos cinqüenta poetas, Mano Brown só foi mais um, um dos nossos.
Comente você também
Leia Também
-
Salão Internacional de Humor de Piracicaba tem exposição recorde
Começa neste sábado, dia 30 de agosto, a 35ª edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, no interior... -
Adeus Quarto Poder, agora você é indústria, por Alberto Dines
O jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa (veja o site aqui), não se conforma com mais uma decisão dos grandes jorn... -
Veja quem ganhou a Promoção Jornalirismo: “Qual é o político do seu sonho?”
Muito obrigado a você, que participou da promoção mais divertida que horário eleitoral gratuito: Promoçã... -
Literatura periférica rompe o gueto, mas não esquece a viela
Foto de Marilda BorgesDa esquerda para a direita: Allan da Rosa, Sacolinha, Chico Pinheiro, Sérgio Vaz e Alessandro Buzo.Escritores da maioria,... -
Obrigado por tudo, por nada obrigado
Quando vi a estrada pela primeira vez, nem sequer sabia quanto ia ter que caminhar pra chegar até aqui, e mal sabia que esse tipo de estrada n&... -
A magia de um tapete qualquer
Confesso que, em época de horário político, pensei até em mudar de assunto, mas o desgaste do tema educação ... -
Ele precisa de uma saída. Nem que seja com o punho
Esperança, esperança, esperança. É o que move músculos e mentes de participantes do Campeonato Paulista de Boxe, re... -
Uma boa nova na comunicação
A Agência da Boa Notícia, com sede em Fortaleza, Ceará, nasceu com um objetivo fundamental: estimular a cultura da paz com base na... -
Pixel-Show traz tendências do design, arte e moda
Acontece, nos dias 13 e 14 de setembro, o Pixel-Show 2008. O encontro vai reunir, no Memorial da América Latina, em São Paulo, alguns do... -
Congresso discute exercício do jornalismo
Jornalistas do país vão se reunir nesta semana em São Paulo para a realização da 33ª edição do C...
