Envie para um amigo

Literatura | 29/07/2008

O delicioso protetor de tela de “Pantanal”

Por Guilherme Azevedo

Nesses dias de grana pouca e agitação muita, nada tem sido melhor do que me estirar no sofá, enrolado no edredon azul, com pijama xadrez, mulher ao lado, cachorro abaixo, e me refugiar no pantanal.

Pantanal, a novela que fez muito sucesso no começo dos anos noventa, na extinta Rede Manchete, renovando a teledramaturgia brasileira, continua com o mesmo viço e força, quase vinte anos depois, agora no SBT.

Ainda não tinha vinte anos quando ela foi pela primeira vez ao ar e não me recordo exatamente do desenrolar da trama, embora reconheça muitas das personagens – mas como poderia esquecê-las? É, portanto, como se a visse pela primeira vez. E com que prazer.

Não estou sozinho: amigos próximos também têm acompanhado atentamente as peripécias simples do fazendeiro José Leôncio, a personagem principal, de sua família e agregados, pelas paisagens úmidas e idílicas do pantanal mato-grossense. Pantanal colocou o SBT novamente na briga, no ibope do horário nobre, com uma audiência girando em torno dos 15 por cento.

Mas o que tem Pantanal de tão poderoso, que a gente pega a chalana por uma hora, ou quase, sem perceber que vai descendo o rio?

Pantanal, como bem notou a solerte Celina, que cuida das tarefas da minha choupana, não tem intervalo comercial. É uma hora de torrente mágica contínua. Nossa atenção, assim, não é interrompida em nenhum momento pela oferta de carros que nos guiam ao Paraíso, sabões em pó que lavam sempre muito branco, cervejas guerreiras, serviços bancários perfeitos e tanta coisa de que a gente precisa esquecer que existe, nem que seja por uma hora pantaneira, ao menos. Minha hora de sanidade, meu exílio árcade, fugere urbem.

A novela, de autoria de Benedito Ruy Barbosa e direção geral de Jayme Monjardim, tem o formato clássico, que as novelas mais recentes tristemente abandonaram.

No começo de cada capítulo, a gente assiste a uma pequena sinopse do capítulo anterior. É o que se pode chamar de um bom serviço, pois nos poupa a tarefa de cavoucar a memória como tatu, relaxando-nos na toca. E também serve como boas-vindas ao telespectador que perdeu o episódio do dia anterior.

Ao término do episódio propriamente dito, seguem-se as “cenas do próximo capítulo”. São cenas curtas do que mais importante vai acontecer no dia seguinte, atiçando a curiosidade da gente qual fogo soprado, boi marruá domado voluntariamente para o dia seguinte..

Com essa estrutura, cada capítulo de Pantanal fica livre para apresentar histórias de sentido completo, sem cortes abruptos e grosseiros bem no clímax das melhores cenas, a fim de assegurar que voltemos no próximo capítulo. É uma narrativa sem golpes baixos no telespectador, sem truques, a de Pantanal.

A novela também tem um tempo muito próprio. As cenas que apresentam uma nova personagem, por exemplo, são longas, duram muitos minutos, às vezes sem nenhuma palavra, apenas trilha e som ambiente.

Podemos, assim, conhecer essa personagem em profundidade, descobrir seus hábitos, seu modo de ser. As personagens de Pantanal ganham, por isso, uma humanidade singular, aproximam-se da gente, pernoitam em nossos corações.

Mas nada supera o encantamento das cenas, muitas delas aéreas, compridas, lentas, que exibem as belezas da flora, fauna e geografia pantaneiras. Vemos do alto, como pássaros tuiuiús, os rios, as lagoas, as matas do pantanal.

Ou, numa alegria mascada lenta e bovinamente, acompanhamos a comitiva de peões tocarem os bois em frente, sem pressa. É o melhor protetor de tela do meu dia, descansa meus olhos, desanuvia meu pensamento, remanso do coração.

É, de certo modo, um tempo mitológico, contínuo, circular, o de Pantanal. O tempo perfeito para o movimento de personagens que vivem histórias originais, com temas fundamentais do homem, arquetípicos.

Lá está o Velho do Rio, uma figura que não se sabe viva ou morta, meio bicho, meio gente. É o protetor daquele mundo, um princípio básico de justiça, o pai de todos. Mais ali está a bela Juma Marruá, que dizem virar onça, de forma que a gente possa enxergar o lado mais selvagem de nossos desejos mais instintivos e brutos, como a raiva e o ciúme.

Esse pantanal é lugar mágico, quase virginal, onde macho e fêmea se descobrem como tais, diferentes e complementares. Em Juventino, filho de José Leôncio criado na cidade distante, a trajetória mítica básica de todo homem se dá, outra vez, a conhecer: é a busca do pai, que é a busca do próprio destino, da auto-realização.

Pantanal é cheia de histórias assim, próximas de todos nós. Tem a capacidade, como toda boa obra de arte, de organizar as emoções de quem dela participa, quem dela bebe, tem muita sabedoria no boi.

Na noite do dia difícil é bom demais conviver com suas personagens e suas histórias extraordinárias, de tão comum que são. A boiada da manhã precisa do sonho de verdes pastos à noite.


P.S.: E agora me chega a notícia de que querem tirar Pantanal do ar. Coisa de direitos autorais. Briga de gente graúda. Querem tirar da gente o momento de desafogo do peito, a hora que salva da brutalidade do dia. Se julgar ilegal a exibição de Pantanal pelo SBT, que o juiz, ao menos, determine a exibição dela em outro canal, pois sim. E do mesmo ponto em que parar. Toda minha “boiada” por Pantanal.


Assista a uma das cenas de Pantanal, a de quando Juventino e Juma, par romântico, se conhecem:



Comentários (11)

1.

 
E não é que o seu texto também me fez pegar a chalana e atravessar este rio de palavras, linha por linha, sem perceber? Muito bom. Espero mesmo que ninguém tire o nosso protetor de tela de todas as noites.

30-07-2008 12:30 - Por Andréa

2.

 
Guilherme 
 
Você é fantástico. Assim como delicio-me com Pantanal, deliciei-me com o seu texto. Também partilho deste mesmo prazer todas as noites. Nada te tirar esta novela do ar.  
Rosana

31-07-2008 09:48 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

3. O Brasil é maior que Copacabana

 
Também gosto da novela Pantanal.O Brasil é maior que Copacabana e já é hora de alguém (além de Benedito Ruy Barbosa)escrever sobre o interior de Minas, o interios de São Paulo, a regiãos dos lagos em São Sebastião do Rio de Janeiro. É hora de alguém mostrar que a maior beleza do brasileiro é sua essência. A maior beleza está nas pessoas e a paisagem do Pantanal é apenas um complemento. E que complemento!

31-07-2008 09:52 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

4. Quem é o par romantico principal?

 
eu adoro pantanal estou acompanhando desde o primeiro capitulo e gostaria de saber se o par é a juma com o jove ou a juma com zé lucas

03-08-2008 18:40 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

5. Sua choupana, Minha choupana. A choupana

 
Bom ler seu texto e perceber que não estou só nessa chalana. Parece que nessa excursão ao pantanal muito mais gente tem embarcado. A descrição da sua choupana remete a minha...e olha que era difícil confessar aos amigos que eu estava encantada pela sucuri pantaneira..,todas as noites, enquanto aninhada sob edredom com "meu omi", como diria Juma. O descanso de tela, inocente, rústico, familiar...nos embebeda pelo seu simplismo exarcebado, pela nossa identidade com a trama intrigante, conhecida e sensual, como a alma brasileira, além do som conhecido dos sotaques enfiados na nossa memória. Concluí que adoramos por ser tipicamente interiorano, típico de muitas raízes que hoje se fincam nas taperas do sudeste e que sustentam as capitais desse país. Depois das mazelas e terror alardeado pelos telejornais...é bom encontrar o passado nas águas mansas do Pantanal! Parabéns pelo Texto. Sim as sucuris pantaneiras e não as anacondas de colarinho branco!!! Deixo meu manifesto!

05-08-2008 14:23 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

6. Vamos descendo o rio

 
Oi, gente. Obrigado pelos comentários. Fico muito feliz e sei, assim, que não estou realmente só. 
 
Gisele, infelizmente não sei se Juventino e Juma vão ficar juntos, ou se ela vai para os braços de José Lucas, como tudo parece indicar. 
 
Rosa, obrigado pelos elogios, você é muito gentil. 
 
Gabriela, uma sugestão: vamos pedir para o Velho do Rio engolir uns políticos, colarinhos-brancos por aí? Tem gente que nos atrapalha demais. 
 
Mas vamos com entusiasmo, porque o rio desce rumo ao mar. 
 
Obrigado, também, Sílvio, você é um grande sujeito.

05-08-2008 14:32 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

7. E ainda por cima tem a trilha sonora

 
E esta viagem não é ligeira, ninguem tem pressa de chegar. A trilha sonora, comandada por Marcus viana, é simplemente fantástica, prá permear tudo aquilo. E alí nossa viola sertaneja refloresceu com o mestre Almir Sater. Parabéns pelo texto que reflete toda alma desta obra prima.

06-08-2008 08:34 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

8. Juma e Jeve

 
Eu asiste a novela em 1990 .E tá na cara que a Juma ama o Joventin os dois termirminaram juntos e o Zé Lucas nao tocará nela pois a Juma não deixará.

07-08-2008 09:17 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

9. novelas

 
gostaria de saber se a madeleine morreu mesmo na novela ou se ainda ira aparecer novamente.

17-08-2008 15:25 - Por eliana margarida da silva

10. Só elogio o que é bom mesmo!!

 
Nunca gostei de prender a novelas, mas essa vale a pena. É o melhor programa do horario, fala sério, os outros canais não tem nada melhor, sou fanzaço desta beleza. SBT de parabens!!!!! 
18-09-2008 por Junior Azevedo.

18-08-2008 09:52 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

11. Só elogio o que é bom mesmo!!

 
A madeleine morreu mesmo .Não vai mais voltar na novela.

22-08-2008 17:15 - Por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Comente você também

Nome (obrigatório):
Seu E-mail (opcional):
Seu Site (opcional):
Título (opcional):
BBCode:Web AddressEmail AddressBold TextItalic TextUnderlined TextQuoteCodeOpen ListList ItemClose List
Comentário (obrigatório):

Código: Code
Enviar

 

Leia Também