
"Jornalirismo Debate" expôs dilemas da criação de filmes publicitários.
O diretor de filmes publicitários Julio Xavier, um dos mais premiados da história da propaganda brasileira, acredita que a principal mudança na criação e produção de filmes publicitários seja reflexo imediato do avanço da tecnologia: “A filmagem se democratizou”.
Ao lado do diretor de filmes João Daniel Tikhomiroff e dos publicitários Cássio Moron, Fabio Seidl e Tetê Pacheco, o diretor do festejado comercial O primeiro sutiã a gente nunca esquece participou, dia 29 de setembro, no Senac Lapa Scipião, em São Paulo, do “6º Jornalirismo Debate: Filmes Publicitários”.
Segundo Julio Xavier, sócio da produtora BossaNovaFilms, as bases de criação de filmes atuais são as mesmas do passado, mas, com a internet e todo o novo aparato tecnológico, qualquer um hoje produz conteúdo e acaba sendo diretor, ator ou produtor.
Julio Xavier e João Daniel: Defesa da participação ativa do diretor.
Tetê Pacheco, diretora de criação da agência Centoeseis, chamou a atenção para a dificuldade e a demora em se aprovar uma campanha. A criativa reclamou da impossibilidade de fugir dos muitos níveis de hierarquia no cliente, que acabam atrasando e cerceando o trabalho das agências e produtoras.
Cássio Moron, responsável pela qualidade da arte produzida pela agência Loducca, explicitou o contrassenso dessa realidade, dizendo que, com a tecnologia, hoje é tudo muito rápido, e a morosidade causada pelas tais hierarquias não combina com a nova era.
Na sequência, João Daniel Tikhomiroff, o diretor de filmes publicitários mais premiado da propaganda brasileira e presidente do Grupo Etc... Participações, que reúne quatro produtoras, instigou convidados e plateia a refletirem sobre um ponto que considera crucial no processo comercial/criativo: a devolução criativa.
Em sua opinião, um diretor deve opinar e participar ativamente dos projetos a ele oferecidos, questionando os caminhos a serem tomados e deixando claro seu ponto de vista sobre a criação. Lembrou que esse método de trabalho é utilizado amplamente no exterior, e com sucesso.
Roteiro
Depois, o debate seguiu por assuntos mais técnicos. Moron abordou questões relacionadas aos roteiros, dizendo que a decupagem deles – tão requisitada hoje pelas empresas anunciantes que contratam agências – pode ser uma cilada.
O moderador do debate, o jornalista Guilherme Azevedo, editor do Jornalirismo, lembrou que o publicitário Washington Olivetto, reconhecido como o maior criador da propaganda do Brasil, nunca fez storyboard (processo de “desenhar” a sinopse de um filme para visualização das cenas com maior quantidade de detalhes) e, mesmo assim, ou talvez exatamente por isso, sempre criou comerciais fabulosos.
Segundo Tetê Pacheco, para uma sinopse de filme ser boa, há a necessidade de se percorrer um pensamento lógico, mas que, por trás de qualquer grande trabalho, há sempre uma base: a grande ideia. Opinião apoiada de forma unânime.
Tetê Pacheco reclamou das hierarquias para aprovação.
Com certeza, todos os processos criativos, principalmente os publicitários, exigem esforço e tempo, para gerar ideias capazes de encantar o consumidor. E, com relação à geração de ideias, as agências e produtoras brasileiras vão bem?
Argentina
Na opinião dos debatedores, sim. Temos grandes talentos, sem dúvida, reconheceram; porém, temos problemas graves que acabam afetando a produção intelectual-artística. Uma delas seria justamente o que faz a produção da Argentina estar tão em evidência: a unidade.
João Daniel lembrou que os argentinos são unidos e encontraram uma linguagem própria, que os faz conhecidos mundo afora, além de saberem explorar seu potencial e se venderem bem.
O Brasil, que nos últimos dez anos venceu seis vezes como agência do ano no Festival Internacional de Publicidade de Cannes, o mais importante do mundo, ainda não descobriu como ressaltar e vender seus pontos fortes. “O Brasil ainda é colono”, provocou Julio.
E, ainda na base da provocação, o veterano diretor completou: “A grana faz com que o talento seja relegado ao segundo plano”. Sim, como a missão da publicidade é vender, é dar lucro, o que manda é o dinheiro. Portanto, para os clientes, filme eficiente é o que vende e não o que apenas ganha prêmios. Nisso, ao menos, têm razão.
Fabio Seidl, criativo da agência McCann Erickson, uma das maiores e mais tradicionais do mundo, foi categórico e disse que o problema que a publicidade enfrenta hoje, principalmente no Brasil, é o que chama de departamentalização das agências, que acaba por sufocar e “bitolar” as pessoas.
Completou seu raciocínio dizendo que, somado a esse problema, há outro maior ainda, que é a indiferença de muitos publicitários. “Carinho e amor pela profissão fazem a diferença.”
O varejo e sua forma agressiva de comunicação também foram discutidos pelos debatedores e pelo público. Para Julio Xavier, a necessidade de mudar esse tipo de comunicação “gritada” é uma das grandes oportunidades para a nossa comunicação. “Está quicando, alguém precisa pegar.” Julio compartilhou com o público um sonho: o de dirigir um filme de varejo em que os atores só sussurrassem.
João Daniel, que lança ainda em outubro o seu primeiro longa-metragem de ficção, chamado Besouro, valorizou a escola do cinema publicitário como formação para o futuro cineasta. “A propaganda ensina a síntese. Você precisa contar toda uma história em 30 segundos.”

Cerca de 80 pessoas participaram do “Jornalirismo Debate”.

Marina, da Zeppelin: Comparação com o cinema.

O pipoqueiro Jonas distribuiu pipoca grátis para quem foi lá assistir.
A propaganda brasileira sempre será importante e destacável. O Brasil é reconhecidamente um dos países de ponta da produção de filmes publicitários, e já foi, muitas vezes, o melhor.
Debater seu papel, seu rumo, as mudanças que estão acontecendo é algo vital. O “6º Jornalirismo Debate: Filmes Publicitários”, realizado pelo Jornalirismo e pelo Senac São Paulo, com o apoio da Eventar, da JAC Comunicação, do Maxpress e da Permission, foi importante por isso.
