– Aquele país é um horror! Você sabia que um cubano que trabalha 40 horas por semana ganha apenas cinco dólares por mês? Sabia que, se você der uma calça jeans Lee para uma universitária cubana, você pode “ficar com ela” por no mínimo um mês? [uso aqui um eufemismo, ele usou palavras piores].
Acredite ou não, ele continuou:
– Você sabia que os cubanos vivem numa miséria terrível? Em Cuba, as crianças veem um turista, e a primeira coisa que pedem é um chiclete!
No fim da aula, perguntei a ele se já havia estado na ilha. Obviamente, respondeu que não. Se tivesse visitado, não falaria o que falou. Cuba é um dos lugares mais lindos que vi.
O que o professor se esqueceu de dizer é que, desses cinco dólares ganhos por mês, quase nada precisa ser gasto. O governo do “ditador” (como dizia o professor – professor?!) assegura quase tudo aos cubanos.
Ele não disse que, das oito da manhã às quatro da tarde, não se vê uma só criança na rua. Todas estão na escola. Ele também se esqueceu de dizer que elas têm todos os dentes na boca, além de casa, educação e saúde pública – da melhor qualidade – garantidas. Não disse, tampouco, que, em uma noite, 200 milhões de crianças dormem nas ruas do mundo, e que nenhuma delas é cubana.
Também não lembrou de dizer – onde será que ele estava com a cabeça?! – que l egal, mesmo, são as “democracias” do mundo, superdemocráticas e igualitárias, em que pouquíssimos podem ter uma calça Lee, alguns podem comprar um chiclete e outros milhões podem morrer de fome.
Nesta minha segunda visita à ilha, vi um lugar ainda melhor. E falo como quem conheceu Cuba, e não como quem visitou Havana (a capital) e Varadero (praia tipicamente turística) e diz ter conhecido Cuba.
Cruzei o país ao som de Guantanamera, em carro alugado, de ônibus e de trem. Atravessei a ilha em um dia, mil quilômetros de carro de Havana a Santiago de Cuba, para chegar lá no dia 1o de janeiro, dia do cinquentenário da Revolução Cubana, quando Raúl Castro falaria.
Santiago foi porto de piratas e tem fortes fincados em pontos estratégicos, que permitem uma visão única do mar do Caribe. Ainda é famosa pelo Quartel Moncada.
Visitei outras cidades cheias de história: Santa Clara, onde aconteceu a batalha final da Revolução Cubana e onde fica o mausoléu de Che Guevara; Bayamo; Camagüey; Trinidad, a Paraty cubana, para os brasileiros; e Cienfuegos.
A Revolução Cubana, de 1959, chegou ao cinquentenário e, com ela, um país digno e diferente de todo o resto do mundo. Sobrevive firme e forte, apesar de todas as forças naturais e antinaturais que agem contra ela todos os dias.
Cuba é castigada, de um lado, pelo bloqueio norte-americano e, de outro, pelas forças da natureza: os furacões que fazem questão de visitar aquele belo pedaço do Caribe todos os anos. Mas continua de pé.
Ainda bem que as crianças pedem chiclete aos turistas, ou adoram uma calça Lee, bobagens supérfluas e dispensáveis. Imagine só se pedissem dinheiro, como no metrô de Nova York, ou se implorassem por comida, como nas ruas de São Paulo.
Crianças na rua pedindo chiclete? Mas eu não vi nenhuma. Estavam todas ocupadas, estudando. E será que elas pedem, mesmo? O mais provável é que, educadas como são, saibam que faz mal aos dentes.
Sobre as fotos que tirei, nada preciso dizer. Os lugares e personagens coloridos pintam por si sós o quadro da feliz resistência desse país.
Esther Gonçalves
| 09/02/2009
** Ainda bem que as crianças pedem chiclete aos turistas, ou adoram uma calçaLee, bobagens supérfluas e dispensáveis. Imagine só se pedissem dinheiro,
como no metrô de Nova York, ou se implorassem por comida, como nas ruas de São
Paulo.
Precisamos duvidar mais de nossos professores, governantes e outras
verdades absolutas que já são embutidas desde muito cedo.
É preciso ver com
os próprios olhos e ativar o sentimento de verdade perdido em alguma esquina do
sistema crônico de nossos corações.
Obrigada por compartilhar Paula.
Muito bom!
Entre o dólar e o peso
Fernanda de Aragão
| 09/02/2009
|
Oi Paula, como eu fui para Cuba em 1999, acho que eu posso falar, né? Fuiestudar lá porque o sistema de ensino coisa e tal é a tal coisa que o mundo
aprova. Cheguei e levei um choque. Cultural. Muito faladeira em meu portunhol, a
moça de la habitación me disse que era formada arquiteta, mas que trabalhava
de camareira porque, veja bem, não tem emprego sobrando para arquitetos em
Cuba. Não tinha naquela época, hoje eu não sei. Havia um povo que amava
Fidel, enquanto alguns poucos desesperados tentava cruzar de bote até os EUA. O
professor da universidade garantiu que isso era caso isolado, porque haviam
outras coisas envolvidas e coisa e tal. O meu maior susto foi ver um país
dividido em dólar, para turistas, e outro país que funcionava com o peso
cubano, para os nativos. E nestes dois mundos, tanto faz o lugar da ilha que
você se encontrava, haviam coisas em peso e outras dólar. Ônibus de linha pra
turista ...
ops
Fernanda de Aragão
| 09/02/2009
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Ops! acho que minha postagem ficou grande demais (saiu cortada)... que pena, odebate fica para outra ocasião então. abraços
Sergio Maia
| 09/02/2009
Nunca estive em Cuba, não posso dizer nada a respeito, mas o que acho estranhoé que, mesmo em um país tão bom como descrito, muitas pessoas, principalemtne
jovens querem sair dele a qualquer custo. Tentam fugir de botes, atletas vão
para as olimpíadas e desapaparecem, pedem asilo políticos etc, etc, etc...
Parabéns, Paula!
Juvenal Azevedo
| 09/02/2009
|
Amiga minha que esteve em Cuba me contou que, em geral, o sentimento do povocubano é o de que há igualdade entre as pessoas. Como comentou um chofer de
táxi que pilotava um dos carrões americanos dos anos 50: "Antigamente eu
comia carne de boi duas a três vezes por semana; hoje, só uma vez. Mas todos
só comem uma vez e, o que é mais importante, ninguém deixa de
comer".
Quanto ao comentário do Sérgio Maia, é só lembrar que um
campeão olímpico sofre muita pressão do exterior pra deixar o país de
origem, de olho na perspectiva de uma carreira milionária. E os aloprados que
tentam ir de barco pra Miami, fazem isto não por causa do governo cubano, mas
pelas dificuldades pra obter o green card americano. É só lembrar o que sucede
com os fronteiriços mexicanos.
Finalmente, Paula, você tem algum parentesco
com o mitológico Ermírio Sacchetta do Shopping News dos bons tempos?
Só falta liberdade
Luciano Almeida
| 09/02/2009
|
Liberdade, será que tem em Cuba, e a internet, tem censura? E as mães levamsuas belas filhas aos hotéis para se prostituir. Quem adianta ter educação,
comida, saúde e não poder deliberar sobre a própria vida. Cubano pode viajar
ao exterior? Porque tem tanta balsa partindo para Miami. Tem luz elétrica 24
horas por dia? Sei não, as fotos são o que tem de melhor lá? Casas caindo aos
pedaços, carros dos anos 50.
Giovanni Alves
| 10/02/2009
No capitalismo temos "liberdade" enquanto temos dinheiro. Se a granaacaba, dá pra viajar pra o exterior? Dá pra pagar a conta de luz, que triplica
não por culpa nossa, mas pela ganância do interesse privado? Dá pra comer?
Pagar escola de qualidade pros filhos, faculdade? Moradia?
VAMO ACORDAR,
PESSOAL!
Mário Latino
| 10/02/2009
Fico revoltado quando alguém fala de liberdade sem saber o que é isso. Seráque os mendigos na Paulista tem algum tipo de liberdade? Será que analfabetas
sabem o que é "livre escolha"?
Balsas partindo para Miami? Aqui
também temos gente indo para o México e depois entrando como ilegal através
da fronteira? Por qué?
Como um colega aqui falou, atletas cubanos são
cobiçados ao ponto de receber ofertas do esporte profissional, na maiorai das
vezes gansteres que vivem disso. Bem, isso só fala bem da política esportiva
cubana. Quantos brasileiros receberiam algum tipo de oferta desse tipo?
Demagogia capitalista
Fábio Mendes
| 11/02/2009
Olá Paula!Belíssimio trabalho, soube explorar muito bem as cores de
Cuba.
Quanto ao professor e demais críticos de Cuba. É triste ver vocês
pensarem que a felicidade é só o que o dinheiro pode comprar. A vida vai
além......
José Vitor Marchi
| 11/02/2009
|
Paula, Parabéns, muito interessante a sua abordagem crítica! Estou ainda mais
com vontade de conhecer-vivenciar Cuba.
Gostei também dos registros
fotográficos, lindas fotos!!!
Sobre o título da matéria acho que chiclete é
para mascar a "idéia" fixa de uma mesma tecla que deflagra que a falta
de atualização do ensino brasileiro, em que muitas vezes temos no professor
todo o "saber", ou como se diz no documentário "a voz de Deus"
pode deturpar todo um conjunto complexo - social, político, econômico,
educacional de um lugar que - como você nos mostra - é bem mais ascendente do
que decadente.
Nada como o olhar jovem e desbravador!
VIVA!
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