Estava em Recife fazendo um trabalho sobre o navegador Vicente Pinzón e o Descobrimento do Brasil, quando um primo que trabalhava no completo industrial e portuário de Suape me convidou para retratar os nativos da Ilha de Tatuoca, um povo com mais de 200 anos, hoje localizado numa área que Suape diz ser sua, no município de Ipojuca, litoral sul de Pernambuco.
Fiquei muito curioso, queria logo conhecer essas pessoas: gente que ainda vivia do extrativismo e da pesca.
Estava dentro de uma grande refinaria de petróleo, e não fazia a mínima ideia do que acontecia ali, bem perto.
Quando meu primo me levou para Tatuoca, me surpreendi com tudo aquilo: vi pessoas alegres, com um brilho nos olhos e uma expressão de liberdade raramente percebida.
Meu primo me apresentou ao Edson Antônio da Silva, o “presidente” da Ilha de Tatuoca, líder da associação de moradores, e ele me levou para conhecer sua família, primeiro.
Que lugar maravilhoso, onde vivia.
Retratei algumas pessoas, comi frutas que nunca imaginei que existissem, e perguntei se podia retornar, para, aí, ficar por alguns dias e fotografar toda a população da ilha; Edson concordou.
Retornei em maio de 2008. Hospedei-me na casa de sua mãe, Dona Ilda, uma pessoa de alegria mágica.
No primeiro dia, Edson me apresentou ao Zuê, morador da ilha, também um sujeito incrível, e me conduziu para conhecer e retratar as famílias.
No caminho, contou muitas histórias. Em uma delas, a da tentativa não muito feliz de morar na capital: acabou como carroceiro em Recife, por três anos.
Conheceu a diferença de costume, a discriminação e, assim que surgiu a oportunidade, voltou para sua terra, a Ilha de Tatuoca, onde diz ter reencontrado sua paz.
Brincadeira de criança
No final da tarde, três crianças me acompanharam e me guiaram por mais um pedaço da ilha: o lugar onde brincavam. E, no meio daquela brincadeira, no sobe e desce de árvore, mostraram alimentos naturais, remédios naturais.
No dia seguinte, Edson passou na casa de sua mãe e então começou de fato a grande jornada para o retrato dos moradores, um a um.
Conheci cinquenta e duas famílias, cento e setenta e oito moradores, cada um com seu fazer próprio, singular.
Esqueci-me, durante aqueles três dias inesquecíveis, do mundo que nos espreitava ao largo e do que lá acontecia impunemente.
Encontrava-me no interior da área que o complexo de Suape tomou para si, onde já está sendo construído o estaleiro Atlântico Sul, megaprojeto da civilização: segundo seus responsáveis, capaz de produzir, quando concluído, no quarto trimestre de 2009, 160 mil toneladas de aço por ano, ocupando área total de 1,62 milhão de quilômetros quadrados.
A comunidade da Ilha de Tatuoca é hoje arrecife no mar dos que falam do “círculo virtuoso de desenvolvimento pelo qual Suape vem passando nos últimos anos”. Suape recém completou 30 anos, e o povo nativo está ali, de geração em geração, há mais de dois séculos. A posse da terra, de quem?
Sei que o estaleiro será uma grande riqueza para o Brasil e para Pernambuco. E hoje parece mesmo não haver mais futuro para a ilha, pois tudo à volta mudou substancialmente: já não dá mais alimento para os moradores, não há mais peixes em quantidades suficientes, rio se arruinou, poluído. Só tubarão se multiplicou ali.
Desde que botei meus olhos pela primeira vez em Tatuoca, em maio, quando ainda não havia obras, voltei lá outras duas vezes: em setembro de 2008, o estaleiro Atlântico Sul dava início às atividades de construção naval e, em dezembro, havia escritórios, inclusive.
É triste ver um povoado ser arrancado de seu habitat natural e obrigado a mudar para um condomínio de casas de gesso, na região urbana de Ipojuca, como prevê o projeto de remoção das famílias.
O povo de Tatuoca perderá a liberdade e a proximidade com a natureza. Seus moradores não poderão ser mais nativos, vão ter de trabalhar e virar escravos de outros homens, se quiserem comer.
Uma pessoa de cada família assistia a aulas de soldagem, para que pudesse servir de mão-de-obra no estaleiro: uma jornada de oito horas diárias para o sustento da família. Mas é difícil mudar radicalmente o costume de pessoas maduras nativas.
Perderam a vida mágica, perderam a liberdade, perderam a identidade, os moradores de Tatuoca.
Há hoje uma dor em meu coração. Tenho medo de pensar sobre o que vai acontecer com alguns no futuro.
Espero que você também perceba, pelas minhas imagens, o brilho nos olhos que cada um tem.
Essas pessoas são frutos do chão.































































































Veja também os vídeos de Biga Pessoa com a comunidade de Tatuoca clicando aqui.
Tatuoca. Vi uma entrega tão real e singela.
Mais um megaprojeto corroendo a
humanidade e a Terra.
E eu fico aqui... com saudade do gosto daquelas frutas
que não provei.
natural em nome do progresso.
E da ambição desmedida e aexploração do povo
carente de recursos,qualidade de vida,mas FELIZES,com a mãe natureza.
ola pessoal me chamo Déborah,
por 4 meses tambem esteve bem pertinho dessa gente de amor e solidariedade
impar. por esses tempos fui professora do eja, onde os nativos da ilha
frequentava todos os dias as minhas aulas.
o que posso deixa para vcs e que
nunca nem uma escola ira me mostrar o valor do amor pela vida e pela leitura do
que aqueles saudosos moradores.
-Edson
-Zuê
-Patricia
-Ednalva
-V
era
-Edvaldo
-Hildo
-Ribamar
-SEU Cicero.............
e entre outros, todos
vcs estao nas minhas experiencias de vida,
saudades de todos!!!
