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Felipe, de 22 anos, que pede para seu sobrenome não ser divulgado, temendo perseguições e represálias, estudou a vida toda em escola pública. E conseguiu o que pouca gente como ele consegue: uma vaga na melhor universidade do país, a USP (Universidade de São Paulo). Ele é aluno do segundo ano do curso de Geografia.

Natural de Itaquera, bairro pobre da periferia de São Paulo, no extremo leste da capital paulista, Felipe trabalhou durante três anos para conseguir reunir o dinheiro suficiente para pagar um cursinho preparatório para o vestibular. Cortava tecidos numa tecelagem do bairro do Tatuapé, também na região leste. O trabalho precoce se explica: seus pais, o motorista de ônibus Pedro e a dona de casa Marlene, são gente de poucos recursos e que ainda precisam cuidar das duas filhas mais novas, uma de 18 e outra de 11 anos.

"O ensino público não te dá nenhuma condição para entrar na USP ou em qualquer universidade pública", analisa. "Mas não é para olhar as dificuldades e aceitá-las. Por um lado, lutar para mudá-las. Por outro, se esforçar para contorná-las", sugere.

A luta de Felipe

Felipe decidiu lutar para mudar e participar pela primeira vez do movimento estudantil: é um dos estudantes que ocupam a reitoria da USP desde o início, dia 3 de maio, como forma de protesto contra os decretos que alteram a estrutura de poder e autonomia das universidades públicas, segundo os estudantes. Nesta quinta-feira, dia 7 de junho, o dia de nossa conversa, completa-se o 35o dia de ocupação.

Seus pais estranharam e se assustaram com a decisão do filho de participar: "A princípio, ficaram chocados. Os pais não estão acostumados, e a mídia faz terrorismo. Eles achavam que estava tudo bem (com a universidade)". Seu Pedro e dona Marlene mudaram de opinião e passaram a "apoiar efetivamente" a manifestação quando viram, com os próprios olhos, numa visita à reitoria, que o movimento estudantil era "sério". "Eles viram que estava tudo inteiro aqui, que não era um bando de jovenzinhos que está com birra com o governo. É um movimento organizado."

Felipe afirma que é preciso "reconhecer que a universidade pública é elitista, porque a escola pública é ruim e não oferece chances para os mais desfavorecidos". Segundo ele, a luta dos estudantes é também "para que o acesso (a uma universidade pública) seja possível a todos, para que a escola pública seja capaz de levar qualquer um até a ela".

Recuo insuficiente

Sobre manter a ocupação da reitoria, Felipe explica que a decisão dos estudantes se deveu ao "recuo insuficiente" do governo paulista sobre os decretos e a falta de garantias para as conquistas acenadas por José Serra (PSDB-SP).

Para os estudantes, é controverso o Decreto Declaratório publicado, com nova redação do governo para alguns dos pontos polêmicos sobre as universidades, porque coloca a interpretação jurídica nas mãos do Executivo, quando essa tarefa é do Judiciário.

Já que o novo decreto tirou poder da Secretaria de Ensino Superior, não há motivo para manter a decisão de criá-la, segundo os estudantes. Para o movimento, a nova secretaria é inconstitucional também.

O que reivindicam agora os estudantes da USP, aliás, não só da USP, mas também das outras universidades públicas paulistas, Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Fatecs (Faculdades de Tecnologia de São Paulo), que decidiram uma pauta de lutas conjunta? Os principais pontos:

1) Revogação total dos decretos do governo estadual.

2) Mais verbas para as universidades, já que o número de vagas aumentou, mas sem a contrapartida dos investimentos públicos.

3) Diretas-já para reitor e diretores de unidades, sem necessidade de titulação. Hoje, só os professores titulares podem se candidatar, o que restringe o acesso aos demais docentes.

4) Não-punição aos estudantes, professores e funcionários grevistas.

Os estudantes consideram o movimento vitorioso, mas que a vitória precisa acontecer de fato, com conquistas, e não ficar só no nível do "abstrato". "A vitória se deu mais pela mobilização, que acabou se expandindo nacionalmente, e do debate que se deu sobre a educação. Mas queremos mais: a conquista concreta de nossas pautas", explica Felipe. "A universidade precisa urgentemente de repasse de verbas e o novo decreto não garante nada."

Os estudantes rejeitam uma possível intransigência em suas posições, como a ocupação da reitoria. "A gente sabe que uma hora vai ter que sair daqui. Eles  (integrantes do governo) tentam nos chamar de intransigentes, mas não verdade são eles que não negociam. Eles vêm para uma reunião para não negociar", reclama.

Nova conjuntura

O estudante de Geografia diz que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República teve o efeito de "esfriamento dos movimentos sociais". Eram grandes as expectativas de mudança com a chegada do PT ao poder, na figura de um operário, fato inédito na história do Brasil.

Esse esfriamento, segundo Felipe, está acabando, porque "a gente viu que isso (a mudança) não se deu". Segundo ele, uma conjuntura inteiramente nova surgiu na América Latina, apontando para a organização do movimento social. "O Brasil ainda está atrás na América Latina, mas já está em ascensão. Exatamente por perceber que o projeto do governo Lula em nada difere do projeto do governo Fernando Henrique Cardoso."

O movimento estudantil da USP também tem uma visão crítica da UNE (União Nacional dos Estudantes) e rejeita vínculos com a entidade máxima estudantil. "Encaramos a UNE como um aparelho de Estado, que está trabalhando vinculado ao governo", diz Felipe.

Para eles, o protesto realizado na quarta-feira, dia 6, pela UNE contra o governo Lula foi "surfar na crista da onda" e uma "manobra do governo federal". "Eles (os integrantes da UNE) marcaram ocupações nas federais no mesmo dia em que tinham encontro com o MEC (Ministério da Educação) para conseguir migalhas", critica o estudante. 

Impasse

As negociações entre estudantes, a reitora da USP, Suely Vilela, e governo estadual vivem um impasse. Governo e reitora afirmaram que só voltam a negociar com o fim da ocupação da reitoria.

Na quarta-feira, ocorreu na USP a primeira manifestação pública organizada por professores e alunos que não concordam com a ocupação da reitoria da USP. Um grupo com cerca de 100 pessoas marchou até as proximidades do prédio. Não houve confronto entre os dois grupos. Para esse grupo contrário, a ocupação é algo agressivo, que prejudica o desenvolvimento das atividades normais da universidade e afeta sua credibilidade.

Felipe sabe que, "apesar de todos os problemas, a USP tem muita qualidade". Sabe de sua importância. "É um símbolo para todo o país. Mas a visão de que não é para qualquer um, só para os ricos, precisa ser mudada", sonha o rapaz.

Acompanhe as decisões e posições dos estudantes que ocupam a reitoria no blog que eles mesmos escrevem: http://ocupacaousp.noblogs.org/.

Comentários
O ensino público....
Dora | 08/06/2007

Muito bom o trabalho que você está fazendo. Divulgar o movimento estudantil
do ponto de vista dos estudantes é importante, uma vez que a imprensa em geral
tem se mostrado governista. Parabéns!
Dora
USP
Andréa | 11/06/2007
Mais uma vez você fez uma grande reportagem, entrevistando alguém que batalhou
para poder estudar e que sabe o real valor de um ensino de
qualidade.

Parabéns.
Como nos velhos tempos
Alexandre Azevedo | 12/06/2007
É incrível como a mídia em geral massacrou as manifestações organizadas por
alguns estudantes, professores e funcionários da USP. Sempre ouvi críticas em
relação a "nova geração", que é considerada por muitos
desinteressada e indiferente às questões políticas. A última vez que me
lembro de um movimento similar de destaque, foi no impeachment do ex-presidente
Collor. Além disso, não estamos vendo manifestações de rebeldes sem causa,
mas sim jovens defendendo os direitos da faculdade. A maior prova disso, é a
participação de professores e funcionários da instituição. Temos que dar o
valor sim para eles, pois o que mais tenho visto são pessoas que abaixam a
cabeça e aceitam tudo que nos é imposto. Parabéns pela reportagem imparcial,
que ao contrário de outros veículos de comunicação, dá a oportunidade aos
manifestantes de expor os seus argumentos.
Esperar não é saber...
Wagner | 12/06/2007
Parabéns pela reportagem realizada com o corajoso rapaz, este é inspiração
para todos aqueles que acreditam num amanhã mais justo.Valeu, amigo!!!
pe.paulob@terra.com.br
paulo sérgio bezerra | 13/06/2007
Parabéns, Felipe. Aos estudantes todos que sonham com um país democrático
enquanto dê oportunidade para todos, especialmente para os mais pobres. Sua
luta é bandeira entre poucas num tempo de mediocridade e falta de referências.
Vão em frente, abraço.
Coragem é resistência ao medo, domínio d
Lívia | 20/06/2007
Parabéns Felipe! Você carrega com honra o título de estudante e prova que é
de grande valia sim o investmento na juventude.
Obrigada pelo seu exemplo e
coragem, o Brasil precisa de mais jovens como você!
Hasta la victoria..
Vá a luta caro amigo Felipe!
Não esqueça jamais do seu esforço antes de
entrar na Faculdade, é também o esforço de tantos. Siga incansavelmente o seu
caminho, não negocie os seus principios, tire ou arranque as vendas dos olhos
de alguns parasitas que existe por ai...Parabens.
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