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Ricardo Kotscho tem a grata – e rara – qualidade de acolher quem o solicita. Foi assim comigo, alguns pares de anos atrás, quando, desencantado com a profissão de jornalista dentro de um grande jornal, fui buscar orientação com o Mestre, palavras de estímulo e de sabedoria.
Depois de longa audição, analisou: "É realmente um problema, porque o que você está querendo é fazer reportagem". E recomendou em seguida: "Se não está bom, demita a empresa. Eu, quando comecei, fazia isso. E continuo fazendo". Não demiti a empresa, a vida depois decidiu por mim.
E foi outra vez como da primeira, em nosso novo encontro. Mas dessa vez havia fila: o Mestre dava entrevista para uma dupla de estudantes de jornalismo da Uninove (Centro Universitário Nove de Julho), de São Paulo. Brinquei com os estudantes, à minha chegada: "Fazendo uma consultoria espiritual?". A moça, a Cibele, estudante do último ano do curso, concordou: "Precisa, não é?".
Sim, precisa. O "atendimento espiritual" era conduzido numa mesa do elegante Café Santo Grão, na rua Oscar Freire, Jardim Paulistano, bairro rico da capital paulista. A figura de Ricardo Kotscho inspira essa certa sacralidade. Calva meio franciscana, ventre levemente avantajado, como um frei. Ou como um pai-de-santo, estivéssemos no Gantoá, em Salvador. Mas um frei ou pai-de-santo meio diferente, cigarro numa mão, copo de uísque na outra e uma carnalidade de quem aprecia as boas coisas da matéria, não só do espírito.
Nesta entrevista para o Jornalirismo, Ricardo Kotscho, símbolo da melhor reportagem feita no Brasil e ex-secretário de Imprensa e Divulgação do governo Lula, faz uma análise da situação da imprensa no Brasil e afirma com segurança: "Nós (os jornalistas) perdemos o contato com a realidade". Kotscho acredita que o único caminho para o jornalismo é voltar para a rua e contar as histórias que estão aí e não estão sendo contadas.
O jornalista, vencedor, entre outros, de quatro Prêmios Esso, o principal do jornalismo brasileiro, é otimista com as possibilidades abertas com a revolução digital, mas só vê espaço para um novo tipo de jornalista: aquele com capacidade de analisar e contextualizar os fatos. De explicar o que está acontecendo.
Leia agora a entrevista completa:
Jornalirismo – Gostaria de começar esta entrevista pelo futuro. Do presente para o futuro. Como você vê o processo de transição do jornalismo, das grandes empresas de mídia na era digital? Tem até gente que diz que o jornalismo acabou, porque temos o jornalismo cidadão, podemos escrever nossas próprias notícias, não precisamos mais de jornalistas nem de imprensa. Gostaria de saber o que você pensa a respeito disso.
Ricardo Kotscho – Eu vejo uma coisa muito contraditória. Nós estamos vivendo a maior revolução nas comunicações humanas desde Gutenberg (Johann Gutenberg, o inventor da imprensa moderna, por volta de 1450, que permitiu a reprodução de obras em larga escala). Desde que ele inventou a imprensa, nunca houve uma mudança tão radical nas comunicações. Então, hoje, todo mundo virou emissor e receptor de informações, Internet, aquele negócio todo. Ao mesmo tempo, e acho que essa é a grande contradição,
o jornalista nunca foi tão importante. Porque são tantas informações, que vêm de todos os lados, um vendaval de informações, que alguém precisa organizar isso, editar isso, ordenar isso, explicar isso.
Acho que a palavra certa é explicar, e esse é o papel do jornalista. A pergunta que eu faço daqui para a frente é se nós, jornalistas, estamos preparados para isso. Eu acho que a maioria não está.
Jornalirismo – O que está faltando?
Ricardo Kotscho – Precisamos ter condições de explicar as coisas e não só ficar em cima do factual. No caso da mídia, como disse na palestra que fiz na ANJ (Associação Nacional de Jornais, entidade que reúne os donos da mídia), os veículos estão todos muito parecidos. Não só os jornais uns com os outros, mas também o noticiário dos jornais, das rádios, das televisões e da Internet. No fundo, é tudo uma coisa só, girando em círculo. Uma notícia que saiu no jornal hoje de manhã entrou na Internet em seguida, a notícia que entrou na Internet à tarde estará no jornal amanhã, no telejornal à noite. Então eu acho que o jornalismo não vai acabar, pelo contrário. Cada vez mais se precisa de jornalistas no mundo. Agora, o papel da gente que varia conforme o veículo. Tem que ter uma diferenciação de mídia para mídia e isso não está havendo. É um momento de encruzilhada das mídias. Quando surgiu o cinema, diziam que ia acabar com o teatro. Quando surgiu a televisão, que ia acabar com o cinema e o teatro. Quando surgiu a Internet, que ia acabar com tudo. Não vai acabar, desde que cada um respeite a sua natureza. Então o jornal não pode ser igual ao noticiário da Internet ou da televisão, que é o que está acontecendo.
Jornalirismo – O jornalismo para a Internet se transformou numa forma de dar a notícia o mais rápido possível e altamente fracionado.
Ricardo Kotscho – Isso não é novo. Tem muitos anos. Era o que as antigas agências telegráficas faziam. Como é que era nas redações? Primeiro, eram telegramas que chegavam. Eu ainda peguei telegrama. Era imediato: "O Papa morreu"; "Kennedy foi assassinado". Era um noticiário telegráfico, como o que tem na Internet hoje. No começo vinha por telegrama, depois vinha por telex, por fax e tal. Hoje você tem informações no teu celular. Daqui a pouco você vai ter televisão no teu celular.
Então, sem querer ser redundante, o papel da imprensa de papel, jornal e revista, é tentar dar uma arrumada nisso, tentar antecipar tendências.
Jornalirismo – A imprensa perdeu o faro.
Ricardo Kotscho – Tentar explicar o que aconteceu e o que pode acontecer. E investir, principalmente, em reportagem. Acho que esse é o diferencial. Cada um precisa ter a sua história para contar. Você pega os jornais: eles todos têm a mesma história para contar, o mesmo noticiário. Raramente os jornais te surpreendem de manhã com alguma informação, alguma história. Então é um momento de transição, um grande momento de transição. É como eu disse, é a maior revolução na comunicação humana desde Gutenberg. E ninguém sabe aonde isso vai parar.
Jornalirismo – Você é otimista com todas essas mudanças?
Ricardo Kotscho – Sim, sou muito otimista. Escrevi na revista do Sindicato (dos Jornalistas), que fez 70 anos agora (nasceu no dia 15 de abril de 1937), pediram um texto para o José Hamilton Ribeiro (famoso repórter, ganhador de sete Prêmios Esso), para ele fazer um resumo do que foi a imprensa nos últimos 70 anos, e pediram para eu tentar adivinhar o que vai acontecer para a frente, mais difícil. Basicamente eu falei o seguinte: não sei quais vão ser as plataformas do futuro, agora é plataforma, não é? (risos) As formas de comunicação. Mas o conteúdo é mais importante. E quem faz conteúdo, quem tem condições de fazer um conteúdo com qualidade? O jornalista. Todo o mundo pode escrever o que quiser, blog, site e tal, e o jornalista precisa estar preparado para fazer o diferencial, para explicar o que aconteceu ontem e tentar entender o que vai acontecer amanhã. Esse é o papel para nós. Agora, nós precisamos nos preparar para isso e isso não está acontecendo.
Jornalirismo – Você diz se preparar em termos de formação?
Ricardo Kotscho – É. Tem que ser um outro tipo de jornalista. O problema é que os jornalistas que têm condições de fazer isso estão todos, com raras exceções, fora das redações. Hoje, no velório do José Roberto Alencar (repórter que morreu em São Paulo no dia 12 de junho, aos 62 anos), que é um jornalista da minha geração, da minha época, estava reparando que todo o mundo que foi lá, ele era muito querido, nenhum de nós trabalha mais em redação. Nenhum.
Jornalirismo – Os melhores jornalistas estão fora da redação?
Ricardo Kotscho – Não digo os melhores, mas os mais preparados, os que têm mais experiência para fazer esse tipo de trabalho.
Jornalirismo – Por que esses jornalistas saíram da redação?
Ricardo Kotscho – Tem uma porrada de motivos. A imprensa mudou muito nos últimos dez anos. Hoje tem menos jornalistas na redação. Em números gerais, as redações diminuíram muito. Pagam menos, então pegam muita gente jovem. E, hoje, o nosso mercado de trabalho se ampliou muito, cresceu muito. Qualquer empresa hoje, a grande empresa multinacional ou a pequena empresa nacional, precisa de jornalistas. Para explicar o que está acontecendo dentro da empresa. Não é só para fazer press release e tal. O jornalista, hoje, participa do board das empresas. Nos governos em geral isso está acontecendo. O jornalista participa da reunião da manhã do prefeito, do governador, do presidente.
Jornalirismo – Quem fala que o jornalismo acabou fala bobagem.
Ricardo Kotscho – Bobagem. Acabou um tipo de jornalista. Ou uma série de tipos, econômicos, financeiros, sei lá. Uma coisa que eu falei hoje para os estudantes (da Uninove): antigamente, a gente tinha três dias, uma semana, três semanas para fazer uma matéria. Hoje os repórteres têm que fazer três matérias por dia. E tem o negócio da pauta.
Jornalirismo – E fazer por telefone.
Ricardo Kotscho – Por telefone, pela Internet. Não sei explicar, não sei ver as causas disso, mas esse é o fato, é constatar isso e ver como vai ser daqui para a frente.
Jornalirismo – Você é um cara da ação, da intuição, começou duas faculdades e não terminou (de jornalismo e de ciências sociais na USP, Universidade de São Paulo), um cara do conhecimento prático. Você acha que teria espaço hoje para uma pessoa como você, repórter de Geral, o Ricardo Kotscho hoje com 20 anos chegando para trabalhar na Folha de S.Paulo, por exemplo?
Ricardo Kotscho – Por coincidência, meu último trabalho em redação foi na Folha. Na minha segunda passagem pela Folha, saí em 2002 para a campanha do Lula (a campanha que levaria Lula à Presidência da República, após três campanhas derrotadas). Comparando com a redação de 1980, tinha mudado tudo.
Jornalirismo – O que tinha mudado?
Ricardo Kotscho – A relação humana, não tinha mais conversa. Porque a pauta (no jornalismo, os assuntos/temas/acontecimentos que vão ser escolhidos e virar motivo de reportagens, artigos, análises dos jornalistas) era feita de muita conversa. De repórteres com editores, com chefes, com um monte de gente. Hoje está tudo industrializado, tudo pasteurizado, padronizado. Uma pauta para cada um, duas pautas, três pautas.
De manhã já se decide qual vai ser o jornal do dia seguinte. Ficou tudo industrial.
E tem as teses das redações, os editores, os caras da redação têm uma tese de manhã e, no dia seguinte, é a manchete do jornal. E o repórter tem que justificar aquela tese, ele vai caçar aspas (no jargão jornalístico, coletar depoimentos, falas de autoridades e de entrevistados de maneira geral). A função do repórter hoje, quando vai para a rua, é esta: caçar aspas. Ou por telefone. Antes, era o contrário: a informação chegava da rua para a redação, e o repórter circulava por vários ambientes, lugares, então levava informações para a redação. Hoje, não. O repórter chega na redação, os caras já decidiram o que é importante, o que está acontecendo. Que é baseado no que já tinha saído na Internet, no jornal do dia, no telejornal etc. Então vira um círculo vicioso.
Jornalirismo – Que distancia a imprensa da realidade, que cria até uma pararrealidade.
Ricardo Kotscho – Exatamente.
Você tem uma realidade hoje formada por jornalistas e políticos de Brasília que dominam todo o noticiário do país.
É um mundo à parte, um mundo oficial, que pega Executivo, Judiciário, Congresso e os jornalistas principalmente em Brasília. E a vida real no Brasil é outra, que não está na mídia. Essa revista nova de que estou participando com o Hélio Campos Mello e o Nirlando Beirão...
Jornalirismo – Qual é a revista?
Ricardo Kotscho – Chama-se Brasileiros, uma revista de reportagem. Basicamente a gente quer contar histórias de brasileiros que não estão na mídia. A vida real do povo brasileiro, que é riquíssima. Independente de governo, da situação ou oposição, as coisas continuam acontecendo no Brasil, este é um puta país. Senão, já tinha acabado, um povo do caralho. Esses caras todos que escrevem aí nas revistas, colunas, falando que o povo é uma merda, que tudo é uma merda, eu não concordo com isso. O Brasil não é o que consome esse mundinho, o mundinho da fonte (fonte é o jargão jornalístico para pessoas, políticos, especialistas, governantes etc. que servem como fonte de informação para o jornalista) de jornalistas.
Jornalirismo – Esse mundinho reproduz sempre as mesmas coisas, um cara falou alguma coisa, acompanha um ministro...
Ricardo Kotscho – É a suíte da suíte da suíte (em jornalismo, suíte é fazer com que um assunto se prolongue, se desdobre, ganhe durabilidade e longevidade. Por exemplo, pedindo a alguém que comente a fala de outro alguém).
Jornalirismo – Acho também que esse tipo de jornalismo, feito sempre das mesmas fontes, feito sempre das mesmas pessoas, tem o impacto de desmobilizar as pessoas em geral.
Ricardo Kotscho – Aí entra outro negócio, novo, que é o seguinte: quando se fala em opinião pública, deixou de ser opinião da imprensa. Essa meia dúzia de grandes colunistas, que fazia a opinião pública, acabou. A eleição do ano passado deixou isso muito claro. A população forma opinião com outras fontes, milhares de outras fontes. A Internet é uma delas. Mas não só. Você hoje tem publicações de igrejas, sindicatos, associações, tem milhares de publicações circulando na Internet ou no papel que acabam formando a opinião da população. Você tem uma nova classe C subindo no Brasil e tem outras preocupações. Vou te dar um exemplo: ano passado, estava fazendo uma reportagem para O GLOBO no interior do Ceará, cidade de Redenção, que aboliu a escravatura cinco anos antes do resto do Brasil. Uma bela história. Aí, oito horas da noite, vou para um bar, restaurante e tal para ver o "Jornal Nacional". Porque nós somos viciados nisso. Cheguei lá, estavam assistindo a um DVD do Reginaldo Rossi, que é o grande ídolo lá do Nordeste, o Roberto Carlos do Nordeste. Falei para o dono: "Não dá para colocar no ‘Jornal Nacional’? Queria ver as notícias...". Ele falou: "Não dá para fazer isso, não. Senão, vão achar ruim". Ninguém queria saber do noticiário. A circulação dos jornais está caindo, está caindo a audiência dos telejornais.
Aquilo que nós oferecemos para o público, para o freguês, não interessa para ele. Eles estão falando de outra coisa. Nós perdemos o contato com a realidade.
(Paro a transcrição da fita, a frase incomoda, mexe dentro. "O jornalismo perdeu o contato com a realidade", diz Ricardo Kotscho, escrevo, CTRL+Home, no alto da entrevista. Achei o título, é o principal, doloroso, mas é. Pensara em abrir com aquela de que o mundo nunca precisou tanto de jornalista. Mas soaria meio cabotina, corporativista, meio soberba até. Não pega bem jornalista defender jornalista e a própria profissão. "O jornalismo perdeu o contato com a realidade."
Abandono o computador, pego algo para comer na geladeira semivazia e sento-me no alto da escada que dá para o quintal, nos fundos. Faz tempo que não faço isso. Gostava de me sentar ali. O tempo está esfriando de novo, o dia é cinza, silencioso. Atiro pequenos nacos do que como para o Branco, o cachorro que herdei de minha mãe. "Nós perdemos o contato com a realidade." As plantas estão mal cuidadas nos vasos, secas, meio queimadas. Se não fosse a Celina, que vem às quartas em casa, estariam mortas. A colcha do cachorro está displicentemente atirada ao chão. "Se chover, vai molhar", penso, apenas, mas não me movo. A louça acumulada do jantar, do almoço e do café da manhã, imunda sobre a pia, numerosa, me entristece quando passo. Preguiça. Uma hora, contudo, não haverá outro jeito que encarar. Volto. Escrevo. Ponho novamente o fone nos ouvidos.)
Jornalirismo – E esse caminho de volta à realidade, como é que se vai fazer?
Ricardo Kotscho – Isso já está acontecendo. Se você pegar os três grandes jornais brasileiros, voltaram a fazer reportagem de um tempo para cá. Pouco ainda, mas estão fazendo. Você pega O GLOBO, está fazendo mais noticiário nacional, está saindo de Brasília.
É aquele negócio de ter Brasília demais e Brasil de menos na nossa imprensa.
Um exemplo que vi agora, recente, foi o do bagre do Lula. Que o Lula falou que não pode fazer hidrelétrica no rio Madeira por causa do bagre, aquilo do Ibama de que se fizer hidrelétrica vai matar o bagre. Essas coisas do Lula. Quer dizer, só por causa do bagre nós não vamos fazer hidrelétrica? Aí O GLOBO mandou um repórter lá na região para contar a história do bagre e ouvir a população do lugar. A questão da transposição do rio São Francisco, que é uma coisa da vida real, não é uma coisa do governo, de esquerda ou direita, tem que falar com o povo de lá para saber o que acha. Não o que o senador, o deputado, o ACM (senador Antônio Carlos Magalhães, DEM-BA) acham, é o que o povo lá acha.
Jornalirismo – É esse o caminho do jornalismo, então, ouvir a população?
Ricardo Kotscho – Quer ver um exemplo? 1970: regime militar, censura e tal. Governo Médici (Emílio Garrastazu Médici, presidente da República de 1969 a 1974). Resolveram fazer a Transamazônica (rodovia Transamazônica, BR-230, construída em meio à Floresta Amazônica). Aí ficou uma puta discussão política se vai fazer, se não vai fazer. O Estadão era contra. O Jornal da Tarde pegou um repórter de plantão e mandou para lá, mostrar o que tem lá, Fernando Morais, grande jornalista e escritor, ganhou Prêmio Esso. É isso que o jornalismo tem que fazer: ir aos lugares e mostrar a vida real. Aos poucos, está voltando a fazer. E todos os diretores de redação que eu conheço têm a mesma preocupação, que é fazer um jornal diferente do concorrente.
Jornalirismo – Um dos traços mais marcantes de sua carreira foi a escolha bem clara de um lado. Não tinha essa coisa de suposta neutralidade jornalística, suposta objetividade.
Ricardo Kotscho – Isso não existe. Eu sempre tive o meu lado.
Jornalirismo – Tinha um lado, mas sem fazer proselitismo.
Ricardo Kotscho – É essa que é a diferença. Você vai fazer tua reportagem e tua reportagem é contar o que está acontecendo.
Você tem que ser honesto com aquilo que está escrevendo. Aquilo que você pensa, as tuas preferências e tal, todo mundo tem o direito de saber.
Para você ter uma idéia, a Folha (Folha de S.Paulo), no começo dos de 1980, acho que 1982, teve eleição para governador. Eles pediram para vários caras da Folha escreverem em quem eles iam votar e por quê. Imagina isso hoje?
A imprensa já foi melhor do que é hoje. Já foi mais livre.
Na época da censura, dos militares, a liberdade de pauta nossa era total. Quem tinha de cortar era o censor à noite. A gente fazia o que queria, tinha contato com a realidade. Hoje tem menos, porque a censura é feita na pauta. As teses da redação, do editor. Meia dúzia de gênios, de manhã, em cada redação, determina o que vai acontecer e o que vai sair no dia seguinte. E aí tem uma culpa, eu sempre falo isso, dos repórteres.
Jornalirismo – Não é um certo comodismo deles?
Ricardo Kotscho – É isso. Já começa na escola. Porque eles reproduzem, nas faculdades, exatamente a estrutura das redações. Não ousam. E a escola é que é o lugar disso. Fazem tudo igual à grande imprensa, estão reproduzindo um modelo.
Jornalirismo – Então é assim: jornalismo tem um lado, não existe neutralidade em nada que se faça e tem que ser honesto com aquilo que se escreve?
Ricardo Kotscho – É isso. É aquilo que o Mino Carta (jornalista que criou publicações como a revista Quatro Rodas e o periódico Jornal da Tarde; dirige atualmente a revista CartaCapital) define como verdade factual.
A partir da verdade factual, cada um conta a história da maneira que quiser, mas você não pode brigar com os fatos. Eu nunca briguei com os fatos.
Eu me lembro de uma vez, tinha trabalhado na campanha de 1989 (campanha presidencial de Lula, derrotado no segundo turno por Fernando Collor) e retornado para o Jornal do Brasil. E fiz uma matéria muito crítica sobre o PT, sobre o Lula, não me lembro de como era. E várias pessoas me perguntaram: "Pô, você brigou com o PT, brigou com o Lula?". Falei: "Não, sou jornalista, continuo amigo de todo o mundo, mas tenho que escrever o que está acontecendo". E hoje está acontecendo o contrário.
Você pega a Veja, a Veja é um panfleto, aquilo não é jornalismo.
Sem entrar no mérito se é direita, se é esquerda, não é jornalismo, é editorial (no jornalismo, editorial é o espaço criado para que a direção (os donos) de uma publicação, jornal, revista, site, manifeste claramente sua opinião sobre determinado assunto ou mostre seu posicionamento), é outra coisa. Da capa à última página, é editorial.
Jornalirismo – Eu não vou falar mal do jornalista que trabalha na Veja, não, que depende do salário e tal. Mas como é que pode assinar matérias como essas?!
Ricardo Kotscho – É mais grave. Quando trabalhei nas campanhas do Lula, saíam matérias assinadas que eu chamava o repórter, colega, meu amigo e dizia: "Isso aqui não é verdade, isso aqui não aconteceu, isso aqui é mentira".
Jornalirismo – Quando isso?
Ricardo Kotscho – Nas campanhas e depois no governo. Aí o cara dizia: "Mas não fui eu que escrevi isso, isso aí botaram lá na redação". E eu: "Porra, mas é teu nome!". Aí, aquele negócio da neutralidade, frase do Carlito Maia (publicitário que criou alguns dos principais motes do PT, como o oPTei e o Lula-lá; morreu em 22 de junho, aos 78 anos):
"Pode não publicar tudo aquilo que eu escrevo, mas não pode me obrigar a escrever aquilo que eu não quero".
Imagina se alguém ia ter a coragem de encaixar alguma coisa numa matéria minha assinada! Isso não existia. Isso é a degradação do jornalismo. Me lembro de uma vez que o Otavinho (Otávio Frias Filho, publisher da Folha de S.Paulo) me ligou dez horas da noite: "Kotscho, sua matéria está muito grande, preciso cortar 30 linhas. Eu vou dizer onde eu vou cortar, vê se você concorda...". Era para cortar, não era para acrescentar nada, "estourou" a matéria (estourar, em jornalismo, significa que o texto excedeu, foi além do limite de tamanho definido para ele). Era um respeito ao profissional, hoje não tem mais isso.
Jornalirismo – Esse é um problema seriíssimo. O que a gente pode fazer para voltar o respeito do patrão, do chefe por seu funcionário?
Ricardo Kotscho – Eu, quase toda semana, faço palestra em jornais, em empresas que me convidam, em faculdades e tal, vendendo o peixe. Eu acho que tem mais gente fazendo isso. Você não pode entregar os pontos. Você parte desse princípio de que o jornalismo que nós fazemos já foi melhor. Não foi sempre assim. Eu acho que os diretores de redação hoje têm consciência disso. E muitos me convidam para falar com as equipes exatamente por isso, para mostrar que é possível fazer de outro jeito. Voltar a ter iniciativa.
Você tem que chegar na redação propondo uma matéria.
O chefe pode virar e dizer: "Isso aí é uma bobagem, não interessa". Mas você tem que levar e não ficar esperando a porra da pauta.
Jornalirismo – Num dos livros do jornalista Lúcio Flávio Pinto sobre a Amazônia (Guerra Amazônica) tem um artigo em que ele fala sobre a democracia. E ele diz que a gente vive hoje um momento em que a democracia nunca foi tão grande, a liberdade de expressão nunca foi tão grande e a gente não aproveita, ninguém fala nada. Então acho que existe um autopoliciamento, uma espécie de lavagem cerebral.
Ricardo Kotscho – Nunca tivemos tanta liberdade no Brasil como temos hoje, liberdade para tudo. De organização, de imprensa, do que você quiser. E não sabemos usar. É uma coisa que foge e nós, jornalistas, precisamos explicar as coisas e eu não consigo explicar. Eu noto isso nas faculdades, é muita comodidade. O pessoal já desiste antes de tentar. Vem com um papo de poder econômico, do poder político, que não tem liberdade. Sabe o que é? O cara não está pensando em fazer reportagem, fazer matéria, está pensando em escrever o que ele quer, o que ele pensa e realmente para isso nunca teve espaço. Imagina se eu ia trabalhar no Estadão, na Folha para escrever o que eu penso?! Você pode, mais tarde, na tua coluna, mas não como repórter. Aquilo em que a gente pensa não interessa nem para a mulher da gente, esse é um exemplo que eu cito sempre. Quando eu chegava em casa e começava pelo que eu achava do negócio, ninguém se interessava. As pessoas queriam saber o que tinha acontecido. Depois que você contar o que aconteceu, tem um monte de gente para fazer análise. Você pega uma revista como a Veja e só tem opinião, da primeira à última página, tudo virou opinião. Cadê a informação?
Jornalirismo – Eu sou um cara otimista.
Ricardo Kotscho – Eu sou também, eu estou constatando um momento. Acho que isso vai mudar e já está mudando.
Jornalirismo – Esse meu otimismo, graças a Deus, me mobiliza, me faz ir para a frente. Quando eu olho, por exemplo, o movimento dos estudantes da USP (que decidiram ocupar a reitoria da universidade como protesto por ensino público de melhor qualidade), que tem levado cacete para caramba da imprensa, tem problemas, claro, mas de alguma forma isso é um avanço.
Ricardo Kotscho – Mas é melhor fazer merda do que não fazer nada. Por coincidência, um mês antes desse negócio aí, na ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP), onde estudei – fui da primeira turma da ECA, não terminei, mas fui da primeira turma –, vi um pessoal desanimado, "que não tem equipamento para a gente fazer as coisas, que os professores são uma merda..." Falei: "Porra, mas vocês não fazem nada?!". Quando eu estudava lá, a gente tirava professor, ocupava a faculdade, era tão bom isso... A gente brigava. Então eu acho que
esse movimento estudantil que vem ressurgindo agora está fazendo cagada para caramba, mas é melhor do que não fazer nada.
Jornalirismo – O que não pode é ficar em casa parado, com conformismo. Cabe a todo mundo esse não ao conformismo, mas os jovens têm esse compromisso com o idealismo, a novidade tem que vir deles, mesmo.
Ricardo Kotscho – E você vê que quem está fazendo isso é minoria.
Jornalirismo – Outra coisa que acho legal em você é essa sua bonomia, sua simpatia, capacidade de se dar bem com todo o mundo. Quando você faz uma reportagem, parece conquistar o entrevistado, ele sai gostando de você. Esse é um instrumento que você descobriu, essa qualidade, e começou a utilizar pela vida?
Ricardo Kotscho – Essas coisas vão acontecendo pela vida. Quando comecei, no Estadão, tinha um pessoal que só trabalhava meio período. Eram advogados, delegados. Jornalismo era um bico na década de 1960. Eu já gostava de fazer matéria desde a escola. Quando aparecia uma viagem, os mais velhos não queriam ir porque tinham outro emprego. E acabava sobrando para mim. Eu estava sempre disponível, por isso não passava de ano na faculdade, sempre viajando. Aí os caras queriam fazer só o oficial, visita do presidente, essas coisas. Eu, não, eu queria ir aonde tinha confusão. Nos garimpos, conflito de terra. Me acostumei a fazer isso. E é uma coisa que acho que muitos jovens gostariam de fazer, se identificam com isso, mas não fazem.
Jornalirismo – Quando leio suas histórias, penso comigo: "Que maravilha!". Dá vontade de ir para a rua na hora, mobiliza.
Ricardo Kotscho – Descobriram um outro garimpo tipo Serra Pelada, no fim do ano passado. A imprensa estrangeira fez matéria e nós só fomos fazer, acho que a Folha ou O GLOBO, três meses depois. Depois de ter saído no The Guardian, The New York Times. É um negócio maluco.
Eles mandam repórter para um monte de lugar no mundo inteiro, à Copa do Mundo vão 30 caras cobrir, e não cobrem as coisas que acontecem no Brasil.
Várias vezes eu fui para a Amazônia, fazer palestra, fazer matéria e você encontra lá mais jornalista estrangeiro do que brasileiro. Aí entra outra coisa importante, você falou do Lúcio Flávio Pinto. Lúcio Flávio era o chefe da sucursal de Belém do Estadão, com três repórteres. No Recife, sei lá, tinha oito.
Jornalirismo – Cobria-se o Brasil bem melhor.
Ricardo Kotscho – Em Porto Alegre, tinha uma sucursal com dez pessoas. Acabaram com todas as sucursais. Todos acabaram. O GLOBO, hoje, não tem correspondente em Belo Horizonte. É o cara da CBN (rádio CBN) que manda matéria para ele. Então deixam de ser alimentados por notícias do Brasil. Essa rede que o Estadão tinha ficava sabendo as coisas como? O cara de Belém, de Manaus, de São Luís informava a redação e, se era um negócio bom, eu ia lá fazer matéria. Como é que você fica sabendo as coisas se o cara não sai da redação?
Jornalirismo – Os jornais alegaram corte de despesas para esse desmonte.
Ricardo Kotscho – Ao mesmo tempo, você pega meu amigo Clóvis Rossi (repórter especial e integrante do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo), que vive na Europa, fazendo a cobertura de tudo quanto é reunião, congresso, vai para Bruxelas, vai para Paris. Mas não mandam repórter aqui fazer matéria. Já briguei muito com o Rossi por causa disso aí, já até escrevi isso no jornal (em artigo publicado na Folha de S.Paulo). Em vez de ficar na redação escrevendo sobre Brasília, levanta a bunda da cadeira e vai ver o que está acontecendo. Que é outra coisa também: tudo é governo, para o bem e para o mal. No NoMínimo, escrevi uma coluna...
Jornalirismo – Você lançou uma campanha um dia sem Lula na imprensa (em texto publicado no dia 23 de março, intitulado "Por um dia sem Lula").
Ricardo Kotscho – Uma semana, um dia, sei lá. Aí também acharam que eu tinha brigado com o Lula. Porra nenhuma! É que eu não agüento mais ouvir falar dele. Você pega o jornal e todo dia a manchete é Lula.
Jornalirismo – É como eu falei mais atrás, se esse tipo de prática não desmobilizaria. Porque a gente coloca tudo na cobertura do governo, como se tudo dependesse do governo. O governo tem uma parte grande, mas e a nossa aqui? A imprensa coloca a cobertura 100% em Brasília e a gente, o cidadão, começa a achar que não precisa fazer nada.
Ricardo Kotscho – A escolha do novo presidente da Câmara (Câmara dos Deputados) não interessa para ninguém. Pergunta aqui para as pessoas se elas sabem quem é, ninguém sabe quem é. Reforma política, que, desde que eu me conheço por gente, é a mesma porra. E o país é fantástico, continua crescendo, fazendo coisas. Tem gente do caralho, que não tem nada a ver com política, não é questão ideológica. O Larry Rohter (repórter do The New York Times que provocou polêmica ao escrever reportagem dizendo que Lula bebia), ele faz mais reportagens sobre o Brasil do que os melhores jornalistas do Brasil fazem hoje. Um dia está em Rondônia, outro dia está em Mato Grosso, ele faz reportagem. Agora os nossos estão todos dentro de uma igrejinha. Fiquei dois anos em Brasília e colunista eu não via em lugar nenhum. Não via no palácio do Planalto, não via nunca. Ficavam todos nas casas deles. O Carlos Castello Branco (1920-1993, assinava a página 2 do Jornal do Brasil), que foi o grande colunista político, ele, no final da vida, estava doente. Então ele não ia mais ao Congresso, aos lugares, porque estava doente. Então os políticos iam à casa dele de manhã, até o meio-dia, que aí ele tomava umas. Ele mandava a coluna dele até o meio-dia. Então tem uns bostas, porque são uns bostas, que não têm história jornalística, e acham que são Carlos Castello Branco, que a informação vem para eles, que político vai até a eles, e vai mesmo. O que é outra promiscuidade.
Não é o repórter que vai atrás do político para saber das coisas, é o político que leva as coisas para o jornalista. Uma promiscuidade que tem em Brasília, a relação da fonte com o jornalista.
Jornalirismo – Você é um cara absolutamente antiformalista, não usa gravata, não usa paletó, não tem protocolo e você acabou assumindo um cargo cheio de protocolos (o cargo de secretário de Imprensa e Divulgação do primeiro governo Lula).
Ricardo Kotscho – Foi um choque cultural para mim. Como acho que foi para o Lula também (risos). Aliás, foi para todos nós. Aquele povo que foi no primeiro governo do Lula (2003-2006), ninguém nunca tinha mandado em porra nenhuma. Ninguém tinha experiência em porra nenhuma. Então foi um choque cultural, todo o ritual do poder, aquele negócio todo. Mas eu levei isso aí numa boa. Meu problema, ninguém acredita, era porque eu não conseguia ficar longe da família. Fiquei sozinho, morava em hotel, minha família não foi. Então achavam que eu tinha brigado, que sabia das coisas, porra nenhuma. Mas é um outro mundo, e esse mundo eu não gosto. Você vai à noite num restaurante, vem todo mundo falar de política. Aí fica aquele conchavo, lançam idéias, teses e tal que no dia seguinte estão no jornal. É jornalista conversando com jornalista, político conversando com político no mesmo lugar. Aquilo ali não é o meu mundo.
Jornalirismo – Eu sei que você promoveu uma mudança bastante grande na estrutura da Secretaria de Imprensa e Divulgação. Como foi essa mudança? O que você encontrou e o que você mudou?
Ricardo Kotscho – Para você ter uma idéia, a Secretaria de Imprensa e Divulgação não era nem informatizada. Não tinha um site. E tinha várias salinhas. Levei um bom tempo para descobrir o que cada um fazia. E eu sempre fui de redação. A primeira providência foi uma reforma física. Derrubar todas as divisórias, as paredes e fazer uma redação para todo o mundo trabalhar. Informatizar a Secretaria, criar um site e criar editorias (que é a forma com a qual se dividem os jornais, editoria de política, editoria de economia, de cidades etc.), como tem em qualquer lugar. Então tem um pessoal que atende a imprensa internacional, outro atende a imprensa regional, outro atende rádio. Isso deu um rolo do caramba.
Jornalirismo – Essa estrutura perdurou após a sua saída?
Ricardo Kotscho – Continua lá igualzinha. O que reclamavam de mim era que o Lula não dava entrevista coletiva, formal, no palácio do Planalto. Eu não sei até hoje por que ele não queria dar. Mas, enfim, ele não queria dar, deu duas, três até agora. E um cara que ia muito lá fazer matéria era o Franklin Martins, que era comentarista da TV Globo, um puta profissional. Ele tem toda a postura, todo o jeito de um homem do poder. Aí eu falava para ele: "Por que você não fica aqui no meu lugar?". Ele me dava umas sugestões: "Ô, Kotscho, faz isso, faz aquilo". E eu falava: "Fica aqui no meu lugar, eu não agüento essa porra, você é muito melhor para fazer isso do que eu". Você vê como é a vida, não é? Agora, na Páscoa, encontrei com ele na Granja do Torto (residência oficial da Presidência da República), no almoço do Lula, aí lembrei desse negócio: "Franklin, lembra de quando você ia lá e eu dizia ´fica no meu lugar´..." E você: "Você está louco, você acha que eu vou largar a Globo?" Aí o Lula, que estava ouvindo a nossa conversa, falou: "É que o convite agora foi feito por mim, pelo presidente da República" (risos). Nesse meio tempo ele (Franklin) tinha saído da Globo, mas a estrutura que montaram lá (na Secretaria de Imprensa) agora é igualzinha. A única coisa que mudou é que agora o Lula está atendendo mais a imprensa. O Franklin tem mais ascendência, pelo nome dele, pela postura dele, do que eu. A questão de ser amigo tem vantagens e desvantagens. Ele (o Lula) achava que eu só queria defender os jornalistas: "Você não defende o governo, você só defende jornalistas". Não era isso. Eu achava que atender bem os jornalistas era a forma de ajudar o governo.
Jornalirismo – O Lula tem mesmo uma resistência grande à imprensa.
Ricardo Kotscho – Eu não consigo entender. Eu trabalho com ele desde a primeira campanha, de 1989. Eu não me lembro de nenhuma entrevista coletiva ou exclusiva, individual de que ele não tivesse se saído bem. Outra coisa é o que ele acha da imprensa, as críticas que ele faz. Estou falando de entrevista. Aliás, teve uma só em que ele não se saiu bem, mas por culpa dele, não do jornalista. Inventei um negócio novo lá, que foi a melhor coisa que eu consegui fazer lá: dar entrevista para pessoal de rádio de diferentes Estados. Para sair de Brasília, do noticiário de Brasília. Eu convidava gente do Nordeste, do Norte e tal, entrevista ao vivo na sala dele. Aí acontecia o seguinte: a Radiobrás oferecia o sinal para todo o mundo, e todas as rádios entravam em cadeia, de graça, não obrigatória, que era o presidente da República falando. O sinal era cedido pela Radiobrás também para GloboNews, Band News, para as televisões. O som ia para a imprensa que estava no comitê de imprensa. E tinha uma repercussão do caralho, porque toda a mídia brasileira estava acompanhando. Mas quem fazia as perguntas eram os radialistas, que não são os caras de Brasília, da reforma política, do conchavo. E perguntavam coisas da vida real. E o Lula adorava isso. Perguntavam de tudo, da transposição do São Francisco, problema da polícia de Porto Alegre, coisas da vida real. Aí, na segunda entrevista que a gente fez, ele se empolgou muito: "Pô, eu vou pedir para o Kotscho fazer mais dessas aqui, porque vocês pegaram leve comigo, eu pensei que ia ser mais pauleira". Uma puta besteira que ele fez. Os caras ficaram ofendidos. E o pessoal da imprensa escrita meteu o pau nos radialistas, como se fosse uma coisa combinada. E não tinha porra nenhuma combinada. É claro que o cara do interior de não sei onde que vai lá entrevistar o presidente, ele respeita o presidente. Mas o que me interessava eram os assuntos que os caras levavam. Isso foi uma coisa legal e que eles mantêm.
Jornalirismo – Qual foi a maior lição que você tirou desse seu período em Brasília, como secretário?
Ricardo Kotscho – Uma foi essa promiscuidade do poder geral, do Executivo, Legislativo, imprensa e tal. A outra foi não dar muita importância para os grandes jornais, imprensa escrita. No Brasil, eu não tenho dados científicos para te provar isso, mas a eleição do ano passado mostra isso, a opinião pública hoje se forma a partir de outras coisas, de outras fontes de informação. Por isso que eu dei muito espaço para rádios. Todo mundo me criticou porque o Lula deu poucas entrevistas. Enquanto estive lá, tem tudo lá, no site (da Secretaria de Imprensa e Divulgação), foram mais de setenta entrevistas. Para todo tipo de gente, para o pessoal de economia, de política, mas por grupos e tal.
Jornalirismo – Você colocou a média e pequena mídia como relevante.
Ricardo Kotscho – É isso.
O que eu achava, e continuo achando que estava certo, não tinha que atender só o pessoal que está todo dia no Planalto. É um negócio viciado, que funciona como sindicato.
Por exemplo, tinha um evento qualquer no Planalto e o Lula ia fazer um discurso, que ele fala para caralho. Ele achava que, fazendo três discursos por dia, não precisava dar entrevista. Não é assim, é um erro. Mas aí terminava a fala dele, eu ia na rodinha de jornalistas e eles estavam combinando o lide (no jornalismo, o lide é a abertura que se dá para uma reportagem. Segundo a teoria do jornalismo mais disseminada, o lide, geralmente especificado no primeiro parágrafo da reportagem, traz o aspecto mais importante de um determinado acontecimento; nesse caso, o que de mais relevante o Lula tinha anunciado): "Aquela hora que ele disse tal coisa, ele quis dizer tal coisa".
Jornalirismo – Estavam com medo de tomar um furo (outro jargão jornalístico, que significa não dar uma notícia importante que o seu concorrente, por exemplo a Folha de S.Paulo, se você é jornalista do Estadão, apresentou).
Ricardo Kotscho – E aí virava manchete de todos os jornais. Então eu ia contar para ele: "Lula, amanhã vai sair tal coisa que você falou". E ele: "Mas eu não falei isso". "Mas é isso que vai sair", eu dizia.
Jornalirismo – O Lula, com o passar dos anos, depois de tanto levar pancada, acabou criando uma certa resistência à imprensa. Mas você acha que ele acabou conseguindo mudar um pouco esse pensamento?
Ricardo Kotscho – Eu acho que aí é o grande mérito do Franklin Martins. Desde que ele assumiu, eu tinha certeza de que ele ia fazer isso, o Lula está dando muito mais entrevistas, está muito mais acessível. Por exemplo, nessa crise toda do Vavá (Genival Inácio da Silva, irmão de Lula, acusado de envolvimento com a máfia dos caça-níqueis), ele deu uma entrevista coletiva só falando disso. Uma coisa que eu sempre tentei mostrar para ele é que a imprensa é intermediária entre o poder e a sociedade, é um meio de você prestar contas. Não pode ser só em forma de discurso, tem que ser em forma de entrevista também. E acho que ele está fazendo isso agora.
Jornalirismo – Ele aprendeu a lidar um pouco com a imprensa?
Ricardo Kotscho – Ele é teimoso para caramba. Esses dias que eu passei com ele na Páscoa, falei um monte de coisas que eu achava do governo, que tinha que mudar e tal. Falei, falei, falei e depois ele falou assim: "Ricardo, agradeço muito suas sugestões, só que tem um problema". Falei: "Qual é?". E ele: "É que eu penso exatamente o contrário". Mas é o jeito dele de ser teimoso. Na hora ele fala que não concorda com nada que a gente está falando, mas, uma semana depois, quinze dias depois, um mês depois, você vê que ele aceitou.
Jornalirismo – Qual foi a sua maior realização, a coisa de que você mais se orgulha de ter feito no governo?
Ricardo Kotscho – As duas entrevistas coletivas para as rádios. Por quebrar esse negócio da chamada grande imprensa. Foi um risco que funcionou bem para caramba. E a grande imprensa teve que ir a reboque. À noite, os telejornais das grandes redes tiveram de dar trechos da entrevista. Os jornais do dia seguinte deram páginas da entrevista. Foi a melhor coisa.
Jornalirismo – Como é que o Lula se informa a respeito do país?
Ricardo Kotscho – Ele conhece gente do Brasil inteiro e ninguém conhece o país melhor do que ele. Ele já foi cinqüenta vezes a cada Estado do Brasil e, aonde ele vai, conhece gente. Então ele tem uma rede de informações, fica sabendo que a estrada tal está ruim.
Jornalirismo – Mas como é que é? Ele liga para alguém? Ligam para ele?
Ricardo Kotscho – Os caras ligam para ele. É claro que ele não atende todo o mundo, mas ele fica sabendo. Ou liga para algum assessor dele. Ele recebe de manhã um resumo da Radiobrás com as principais notícias. Ele vê televisão, ele fala que não, mas vê televisão para caramba. E tem uma reunião às nove horas da manhã, de que eu participava, depois o André Singer (que assumiu a Secretaria de Imprensa em março de 2005) e agora o Franklin, que chega já dando o que está acontecendo de mais importante no dia, onde a coisa está pegando...
Jornalirismo – O secretário tem essa função de fazer um resumo, de dar uma geral do que está rolando no país?
Ricardo Kotscho – Antes disso, no palácio do Alvorada ou na Granja do Torto, onde o Lula está morando, ele recebe um resumo das principais notícias. Então ele faz aquele negócio de bicicleta, esteira...
Jornalirismo – Ele faz ginástica?
Ricardo Kotscho – Faz, está se cuidando. Enquanto ele está fazendo isso, ele está se informando. Ele faz questão de dizer que não, mas eu sei que ele está. Ele se informa para caramba.
Jornalirismo – Em Brasília, a probabilidade de se ter uma visão distorcida, e de se distanciar da rua, é enorme.
Ricardo Kotscho – Aí é função de quem trabalha com ele. Eu ficava me informando o dia inteiro e, quando era uma coisa importante, entrava na sala dele – essa é a vantagem de ser amigo também, entrava na hora em que queria e falava para ele. Vários casos que eu não vou contar, porque eram coisas do governo, eu avisava: "Vai dar merda tal coisa". Era esse negócio do Chico Buarque, que tem que ter o Ministério do Vai Dar Merda. Lembra? O Chico Buarque falou: "Falta um ministério. Tem 35, mas falta um, o Ministério do Vai Dar Merda". É o cara que avisa: "Isso aí vai dar merda". Era um pouco o que eu fazia.
Jornalirismo – Quando você deixou o governo e voltou para São Paulo, você até escreveu um texto, "De volta à realidade" (publicado no NoMímino em 11 de março de 2005). Acho que você experimentou esse distanciamento de Brasília. Foi realmente um alívio ter voltado, essa coisa de poder ver às ruas de novo?
Ricardo Kotscho – Foi, mas até hoje eu continuo em contato com os meus amigos do governo. Continuam todos meus amigos. Continuo a falar com o Lula toda semana. Continuo sabendo o que está acontecendo lá, continuo dando meus palpites, eu mando por e-mail e tal. Eu não me desliguei. Mas eu queria cuidar da minha vida mesmo e ninguém acredita nisso. Um dia eu estava em Rondônia, num programa de rádio ao vivo, e um comunicador popular de lá me perguntou: "Você saiu do governo? Você brigou com o Lula? Você sabia das coisas?". Não só eu não sabia nada dessa merda desse negócio de mensalão (a crise do mensalão, em 2005, série de denúncias de que o governo Lula pagava mensalmente para deputados como forma de garantir a aprovação de assuntos de interesse do governo), como também nenhum repórter jamais me perguntou sobre isso. O jornalista sempre sabe de tudo, ouve as coisas, mas nunca ninguém tocou nesse assunto. Eu nunca ouvi ninguém falar, palácio do Planalto, o presidente sobre isso. Chegou o intervalo comercial, o cara bateu na minha perna: "Kotscho, nós estamos fora do ar, me fala agora: você brigou com o Lula?". Ninguém acredita que você possa largar o poder por razões pessoais e familiares. Não interessa a ninguém: minha mãe estava doente, minha filha estava grávida, essas coisas.
Jornalirismo – Dois anos sozinho lá também não é fácil.
Ricardo Kotscho – Sabe aquela frase do Lula sobre o Brizola, que deu aquela puta briga, campanha de 1989 (para presidente)? O Lula falou num lugar qualquer que o Brizola seria capaz de pisar no pescoço da mãe para chegar ao poder, para chegar à Presidência.
No Brasil, é um pouco isso: as pessoas acham que se faz qualquer coisa para chegar ao poder. Não admitem que alguém saia por livre e espontânea vontade.
O cara sai ou porque brigou ou porque fez merda e foi demitido. Não foi o meu caso. Eu me orgulho muito de continuar amigo de todo o mundo. Se alguém fez alguma coisa errada, a Justiça vai julgar, não eu. Hoje de manhã fiz questão de ligar para o Frei Chico (irmão do Lula, que teria alertado Vavá sobre envolvimento com a máfia dos caça-níqueis). Ele é meu amigo há trinta anos. Saber como ele estava e tal. Nunca vou deixar de fazer isso.
Jornalirismo – Voltando um pouquinho para a reportagem. Algumas de suas melhores reportagens nasceram de fatos que a imprensa já tinha publicado. Tinha saído uma notinha no fim de semana, outra notícia não sei de que jeito...
Ricardo Kotscho – É verdade. Isso acontecia muito.
Jornalirismo – A imprensa pára antes de começar a notícia, é isso?
Ricardo Kotscho – A imprensa acha que registrando o fato está resolvido, sem tentar explicar. Voltando ao início da nossa conversa, para dar um fecho. Então existiam as redes, sucursais e correspondentes, toda grande mídia tinha no Brasil inteiro. Então informava a redação, que ficava sabendo e ia atrás para contar o caso. Correspondente em Maringá (do Estadão), 1974, 1975, Francisco de Oliveira, o Chico Maringá. Ele veio para a redação e avisou: "Está prevista a maior geada da história aqui, vai acabar o café no Paraná". Aí o chefe das sucursais, da produção, Raul Bastos, me chamou 9 horas, 10 horas da noite: "Um maluco lá em Maringá está falando que vai cair uma puta geada e que vai acabar o café no Paraná. Eu não sei se ele é maluco ou não, se isso é verdade ou não, mas, se for, precisamos de uma puta cobertura. Você pega um carro aí e vai para lá". Aí fomos eu e o fotógrafo. No caminho já estava uma puta cerração, uma neblina e tal. Chegamos de manhã a Maringá, não se enxergava nada, tudo branco, parecia campo de neve. Foi geada mesmo. Quando saiu o sol, queimou tudo, a gente viu queimando. Em uma hora, duas horas, sei lá, todos os cafezais do Paraná estavam pretos, de queimados. Você imagina a tragédia. Era um dos maiores cafezais do Brasil. Aí fizemos, eu, o correspondente e outro repórter que foi para lá, uma puta cobertura e ganhamos o Prêmio Esso. Porque a gente ficou sabendo, é esse o papel do jornalista. Uma outra mais recente, na minha última passagem pela Folha, estava na praia no domingo. Sabe a nota de dez, vinte linhas? Um menino de 12 anos tinha roubado um ônibus, andou por São Paulo e foi preso. Estava na Febem (Fundação Estadual para o Bem-estar do Menor, hoje se chama Fundação Casa), como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Cheguei segunda-feira na redação, falei: "Essa história aqui, estamos indo atrás?" Falaram: "Não, porque Febem está muito complicado. Que o juiz, não sei o quê, pedir autorização para poder chamar o menino...". Falei: "Pô, mas se é difícil, é um tanto melhor para a gente fazer, não é?". Ninguém foi atrás, ninguém. Para resumir a história, eu fui atrás. A diretora daquela unidade da Febem não sabia da história, nem sabia do menino. Ele foi preso e ficou lá jogado no canto. Aí chamaram o menino na sala dela, autorização do juiz e tal. Ele começou a contar a história da vida dele, brilhante, inteligente para caramba. A diretora ficou impressionada com aquele menino e percebeu que ele não podia continuar preso. A história era bonita: o menino era filho de um cobrador de ônibus e o pai tinha sumido de casa, largou da mãe e foi embora. E o menino começou a ir nas garagens para procurar o pai e ficou amigo dos mecânicos, dos motoristas e tal. Um dia ele viu um ônibus parado no ponto, sem motorista nenhum, mas ligado. Entrou e saiu, porque os motoristas tinham ensinado o menino como era. Andou 120 quilômetros procurando o pai. Aí a Folha abriu espaço, mais de uma página. Então é isso, é história que está aí para ser contada e as pessoas não contam.
Jornalirismo – Você vai completar 60 anos no dia 16 de março do ano que vem. Como que é envelhecer na profissão de repórter? Como você se mantém jovem?
Ricardo Kotscho – Sempre tem como fazer alguma coisa nova. Por exemplo, nesse momento, estou num projeto novo, de uma revista de reportagem (a revista Brasileiros), tipo Realidade (publicada pela editora Abril, foi, até hoje, a melhor revista de reportagem que o Brasil já teve; seu melhor período vai de sua fundação, em abril de 1966, a dezembro de 1968). Sem os recursos que a Abril tinha, mas para mostrar tudo isso que nós falamos até agora na conversa, a vida real do povo brasileiro. Vai sair dia 28 de junho, o editor é o Hélio Campos Mello e os adjuntos somos eu e o Nirlando Beirão.
Jornalirismo – Tem equipe de repórteres?
Ricardo Kotscho – Os fixos somos nós mesmos, o resto é tudo freelancer. A idéia é pegar gente do Brasil inteiro. O jeito de continuar vivo na profissão é não parar, continuar fazendo as coisas. No ano passado, o Hélio e eu propusemos uma série de reportagens para O GLOBO – e fizemos. Só paramos porque pagavam muito mal. Para mostrar que eu não sou um dinossauro romântico da profissão. São meus amigos, mas pagavam mal. Para fazer uma boa reportagem, você leva quinze dias. Tem que ser remunerado por quinze dias de trabalho. Aí nós combinamos: "Já que é para a gente trabalhar para ganhar tão pouco, vamos fazer uma revista nossa".
Você tem que se reinventar.
(Lavei toda a louça, um trabalho de quase uma hora, e retirei a colcha do cachorro do relento. Deu até uma felicidade. Mas não agüei as plantas. Que bom que a Celina veio hoje.)
Conheça os livros de Ricardo Kotscho
Serra Pelada, uma ferida aberta na selva, Editora Brasiliense (1984). Coletânea de reportagens publicadas na Folha de S.Paulo sobre o garimpo no Pará.
Explode um Novo Brasil - Diário da Campanha das Diretas, Editora Brasiliense (1984). O livro traz os principais acontecimentos da campanha das Diretas-já.
A Aventura da Reportagem (em parceria com Gilberto Dimenstein), Summus Editorial (1990). Análises e depoimentos sobre o exercício do jornalismo no Brasil, por dois grandes jornalistas.
Caravana da Cidadania: Diário de Viagem ao Brasil Esquecido, Editora Scritta (1993). Sobre as viagens pelo Brasil ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva.
Coitadinhos e Malandrões, Editora Casa Amarela (1999). Livro com crônicas publicadas na imprensa entre 1997 e 1999.
A prática da reportagem, Editora Ática (2000). Um passo a passo da profissão de repórter.

Do golpe ao planalto: uma vida de repórter, Editora Companhia das Letras (2006). O livro faz o resumo de toda uma vida profissional, desde o começo no Estadão, em 1964, até a participação no governo Lula, em 2003 e 2004, como secretário de Imprensa e Divulgação.
Crédito das fotos:1. Foto de Kotscho na abertura da entrevista: Divulgação.
2. Foto de Lula e Kotscho, na despedida de Kotscho da Secretaria de Imprensa e Divulgação, 26 de novembro de 2004: Ricardo Stuckert.
orientar os futuros jornalistas e despertar o interesse pela procura de grandes
histórias e reportagens.
retirou a colcha do cachorro do relento.
Kotscho é um exemplo para todo profissional que quer ser sério, em qualquer
atividade. E você, Guilherme, conseguiu fazer que ele revelasse isso em cada
frase, nesse gostoso bate papo. Parabéns, Guilherme. Obrigado, Ricardo. Agora
só precisa aguar mais as plantas... Abraços. Tadeu.
confesso que fico em dúvida se ele (também) não sabia nada de nada sobre o
mensalão e outras, como direi?, maracutaias. Mas, enfim, é o preço da
lealdade e quem sou eu pra julgar as atitudes de um cara com as qualidades do
Ricardo Kotscho.
Finalmente, mais um dos trabalhos de Hércules que o
Guilherme executa. Daí os parabéns pra ele... e um osso com muito tutano pro
querido au-au Branco.
Dois grandes jornalistas, um belo trabalho. Parabéns Guilherme. Mais uma vez
você se superou!
E continue lavando a louça, sem preguiça de molhar as
plantas. A Andréa agradece...
Dora
Sou acadêmica de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, em Santa
Catarina e apaixonada pelas declarações do Kotscho. Sempre acompanho as
entrevistas! Genial e estimulante! E pra você, Guilherme, meus sinceros
parabéns. Admiro sua descontração, me identifico com a linguagem e a maneira
de fazer jornalismo.
enrriquecedora sobre Ricardo, adorei, Parabéns... cada dia é
bom saber um pouco mais sobre esse grande Jornalista, que tive a
oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, quando veio à Aracaju/SE. Te
admiro Ricardo. Estou na área e pretendo fazer alguma coisa de bom.null
