Jornalirismo

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Peço à atendente uma fita cassete. Ela estica o braço e pergunta se quero aquela.

— Não, uma fita cassete.
— Esta aqui, então?
— Não, não, uma fita cassete.
— Esta aqui?
— Me dá uma fita de áudio, então.
— Ah, sim, de áudio.

Meu vocabulário deve estar meio antigo. Ela não sabe que uma fita cassete se chama assim. Haverá mais gente? Certamente, e cada vez mais. Mas será ela, a fita cassete, a fita magnética, lançada comercialmente em 1963, que registrará, daqui a pouco, a entrevista com o diretor de comerciais Jarbas Agnelli, que você lerá. Preciso, dependo dela.

Estaciono o carro próximo de uma esquina. Estou no começo da avenida Faria Lima, região oeste de São Paulo, no bairro de Pinheiros. Procuro o número 201. Desço do veículo, caminho olhando as construções, procurando um prédio com no mínimo nove andares, pois vou ao nono andar. Esse aqui é bege, parece residencial, não abrigará uma produtora, abrigará? O número não é o 201, apesar de estar nas proximidades dele. Ignoro essa informação, como ignoro também o seguinte fato: o prédio tem oito andares. Contei duas vezes, debaixo para cima, calmamente. Não me dou por vencido, contudo. Vou até a portaria do prédio, avisto o porteiro ao fundo, sentado, de camisa azul-clara, toco o interfone:

— Oi, aqui é o 201 da Faria Lima?
— Não, o 201 deve estar no outro lado da rua.

Só diviso, do outro lado, o portentoso conjunto empresarial do Instituto Tomie Ohtake, o famoso prédio em riste, arquitetonicamente arrojado, com círculos cor-de-rosa, preto e branco, que se destaca no dia cinza e frio, no lusco-fusco das 18h30 deste sábado. E é de fato ele, o 201, sempre diante dos meus olhos, sem que eu cresse na informação.

Descobrirei que chegar ao nono andar é uma aventura do indivíduo pelos meandros de uma outra civilização.

Porque a portaria principal não abre nos fins de semana, desço a pé, pela rampa da garagem. O segurança recomenda que siga as marcas listradas, pintadas de branco no chão. Dobro à direita, contorno a garagem ladeando as paredes laterais, abro a porta de incêndio, de ferro, pesada. Subo. Dois lances de escada. Saio por outra porta de incêndio. Contorno pelas listras marcadas no chão. Desponta uma recepção, com um homem de prontidão. "Vou ao AD Studio, no nono andar." O homem pede que me aproxime da parede encardida, embora branca, para melhor iluminar a fotografia que vai tirar de mim. É para sorrir? Em seguida, anuncia-me ao telefone e entrega-me um crachá. Atravesso a catraca. Digito o número nove no visor que dizem inteligente. "Posso subir?", pergunto ainda ao homem, ao telefone. Ele faz um sinal indistinto, fico na dúvida, não subo, o elevador se fecha. "Posso subir?", insisto. Ele faz novo sinal, interpreto agora que sim. Aperto novamente o número nove, um elevador se abre atrás de mim, sem que me dê conta. Noto a tempo de me esquivar e me infiltrar antes de a porta fechar furiosamente.

O nono andar me espera, na escuridão. A porta de ferro está trancafiada, toco a campainha. Um homem de bermudas me recebe e pede para acompanhá-lo. O ambiente é de penumbra. Vou dar numa sala que me espanta: à meia-luz, cerca de uma dezena de computadores dispostos em círculo, como uma nave espacial. Cheguei ao futuro, pressinto. Lá está, de costas, sentado a um dos computadores, o diretor de comerciais Jarbas Agnelli, um dos donos do AD Studio [veja o site aqui], produtora que vem se destacando pela criatividade; ele se levanta para me saudar.

Apresento-me. Dou a ele, furtiva, envergonhadamente, um livro sem luxo e um folheto de cordel de presente. Coisas humílimas. Contraste ou complementaridade? Futuro e tradição co-habitando um só tempo? Possibilidade, necessidade de convivência, de diálogo?

Jarbas me leva para uma viagem pela produtora, com 350 metros quadrados de área –170 deles dedicados a um corredor longo, com piso cinza emborrachado, preparado especialmente para se seguir por ele de skate. E de fato há um skate atirado ali, de ponta-cabeça. Jarbas costuma utilizá-lo para se mover pelo corredor, e é sobre rodas que entra na sala de reuniões para atender os clientes, algumas das principais agências do país, como W/Brasil, F/Nazca, McCann-Erickson.

Puxo uma larga cadeira de couro preto, com estrutura metálica prateada, sento-me. Retiro da mala meu aparelho mais moderno, um gravador portátil com cinco anos de uso. E também duas fitas cassete. Abro o pacotinho de pilhas novas, retiro duas de lá, troco as antigas, fecho o gravador, com nervosismo e dificuldade, a tampa trava no encaixe. Rasgo, com esforço, o invólucro plástico da fita, abro a caixinha dela, pego-a, retiro-a e insiro-a no aparelho. Faço piada sobre a "modernidade" do meu equipamento. Estou ainda no século XX. Jarbas conta a história: "Outro dia minha mulher ia fazer uma gravação. Preparei para ela um iPod, com microfone. Ela já tinha um gravador, como o seu. Sabe qual aparelho ela acabou utilizando?". E descubro, pelas palavras desse diretor de filmes publicitários e videoclipes famosos, que eu e a mulher dele somos "seres analógicos".

Pressiono a tecla vermelha REC, vejo a fita girar lentamente, a correia dentada interna puxar o magnético. Felicidade analógica, mecânica, tecnologia que se vê de fora, à vista, palpável. Confio. Estamos prontos:

Jornalirismo – Gostaria que você contasse um pouco da sua trajetória. Onde nasceu? Onde estudou?

Jarbas Agnelli – Nasci em São Paulo. Fiz publicidade na ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP (Universidade de São Paulo), mas não me formei.

Jornalirismo – Em que ano você parou?

Jarbas Agnelli – No terceiro. Meu problema é ter pai publicitário. Meu pai é o Laerte Agnelli, não sei se você conhece [Laerte Agnelli é um dos grandes diretores de arte do Brasil; foi um dos participantes ativos da virada criativa na propaganda brasileira, a partir dos anos sessenta; é também ilustrador e pintor]. Meu pai sempre deu aula de publicidade para mim. Eu cresci com aula de publicidade, dentro das agências. Então, a gente já tinha meio tudo aquilo na cabeça, e a USP foi meio decepcionante para mim. Acadêmica demais. Meu pai também sempre estimulou: "Sai dessa faculdade, vamos lá fazer estágio". Aí, na primeira chance que tive, saí, fui fazer estágio e, a partir daí, não parei mais.

Jornalirismo – Estágio na área de propaganda, mesmo?

Jarbas Agnelli – Fiz estágio na MPM, que ele [o pai, Laerte] estava lá, na época. Mas eu já tinha sido meio que treinado para ser um diretor de arte à anos setenta, oitenta. Que é um cara que desenha. Minha carreira começou como ilustrador, ecoline, bico de pena... Nos anos oitenta, 1984, quando comecei...

Jornalirismo – Já era a virada da informática, não é?

Jarbas Agnelli – Mas ainda tinha isso [técnicas mais manuais de ilustração e direção de arte]. Comecei na MPM com ecoline e tal. Depois passei para a DPZ como assistente de arte e passei a ser diretor de arte lá. Daí começou aquela transição: ninguém mais mexia em tinta. Começou com xérox, xérox para cá, xérox para lá. E, lá para noventa e poucos, entrou o computador. E eu fui sempre um cara com paixão pela tecnologia. De todos os tipos. Quando eu tinha 12 anos, ficava gravando em cassete, rolo, fazendo mixagem para festa, pensando no que eu ia projetar com slide. Então, quando surgiu o computador, foi muito natural, foi o caminho.

Jornalirismo – E como era trabalhar no mesmo lugar que seu pai, ter a mesma profissão dele?

Jarbas Agnelli – Era tranqüilo. Meu pai era super-respeitado na MPM. É respeitado até hoje. Era um cara que já tinha trabalhado em todas as agências. Meu trabalhou na Thompson [JW Thompson], Almap, quando ela era Alcântara Machado, na Salles, diversas vezes. Então ele conhecia todo o mundo no mercado. Mas foi bom que eu tenha começado como ilustrador, mesmo. Se tivesse começado como assistente de arte ou como assistente de diretor de arte, alguma coisa mais próxima da criação, talvez fosse mais chato, mais complicado. Então, eu não estava muito perto dele.

Jornalirismo – Você trabalhava dentro do estúdio?

Jarbas Agnelli – Dentro do estúdio, com a moçada lá dentro. Aí acabei indo para uma dupla que era de merchandising. Comecei meio que a brincar de criar lá dentro, mas só ilustrando. Foi um começo meio técnico. E foi bom, porque andei com as próprias pernas, fiz a minha pasta e acabei chegando à DPZ sem nenhum tipo de ajuda dele.

Jornalirismo – Você foi para a DPZ em que ano?

Jarbas Agnelli – Em 1985. O começo, eu devo todo ao meu pai porque ele me ensinou tudo: "Não, tira isso aqui da pasta, põe aquilo...". Eu não me senti assim: "Ah, tenho um pistolão". Foi legal, ele deu uma ajuda: "Entra aqui; mas, a partir daí, é com você". Foi bacana.

Jornalirismo – E de infância? Seu pai ensinava você a desenhar? Como deu o estalo de seguir a carreira?

Jarbas Agnelli – Minha adolescência foi uma aula de publicidade, como disse. Era o tempo inteiro. Meu pai deixava bilhetes na geladeira: "Desenhe mãos". Tinha exercícios, blocos de exercícios: "Pegue este anúncio, deixe o título e mude a imagem". O tempo inteiro era isso. Uma programação mesmo para a gente ir para a publicidade. Não tinha nenhuma chance de tentar ser outra coisa. Mas eu sempre gostei, foi tranqüilo. Só quando comecei a ensaiar, a querer ser músico, que eu deixei o "velho" preocupado. Estava na DPZ e deixei-o de cabelo em pé.

Jornalirismo – Que banda?

Jarbas Agnelli – Chamava-se Avenida Paulista. De rock. Que era, inclusive, com o Waldo [Waldo Denuzzo, sócio de Jarbas no AD Studio]. Eu o conheço desde 1980. Era um rockinho assim... Chegou até a tocar na rádio.

Jornalirismo – Você compunha?

Jarbas Agnelli – A gente compunha. Eu era tecladista. Era uma banda pop, bateria, baixo, guitarra. Existia um hit: Londres não é tão longe. Tocou no rádio. Era 1989. Eu não tinha muita esperança de virar músico ou de abandonar a publicidade. Ao mesmo tempo, nunca pensei em desistir da música. Só vinte anos depois, iria achar um jeito, que é o AD do jeito que ele é, de juntar as duas coisas. A música sempre esteve meio na paralela na minha vida. Sempre dei muita importância à música e ao papel da música na publicidade. A gente tem a banda [a banda AD, de música eletrônica, com Waldo Denuzzo]. Em 2000, a gente lançou disco. A música como música é superimportante para a gente. Mas a música, na minha vida, está mais na publicidade, mesmo.

Jornalirismo – Você falou que, em 1985, tinha ido para a DPZ. Você ficou quanto tempo lá?

Jarbas Agnelli – Dois anos e meio. Comecei como ilustrador e depois virei diretor de arte. Aí saí e fui para a agência de um amigo do meu pai, o Ênio...

Jornalirismo – Ênio Mainardi?

Jarbas Agnelli – Não, esse não era muito amigo do meu pai, não. Meu pai brigou com ele [risos]. Era o Ênio Basílio. A agência se chamava GTMC. Era legal. Ganhei um prêmio lá, como diretor de arte.

Jornalirismo – Foi o primeiro prêmio que você ganhou?

Jarbas Agnelli – Foi. Foi para o Clube de Criação [CCSP, Clube de Criação de São Paulo]. Um convite, para uma marca de roupa, de um desfile. A festa ia ser comida japonesa. Fiz um título: "Venha ver com quantos pauzinhos se faz um desfile". E dava um par de pauzinhos japoneses, hashi. Foi o único prêmio dessa agência no Anuário [Anuário do Clube de Criação de São Paulo, publicação que reúne os trabalhos premiados em cada ano]. Eles ficaram superfelizes, eu também estava superfeliz lá. Só que eu tinha levado seis meses antes a pasta na W/ [W/Brasil]. Falei com o Gabriel [o diretor de arte Gabriel Zellmeister, um dos sócios da agência], mas ficou por isso mesmo. Então, estava lá na GTMC, o Gábi me ligou e falou: "Vem aqui conversar comigo". "Quer que leve a pasta de novo?", perguntei. "Não, não precisa, lembro de você", respondeu. Fui lá e o cara: "E aí, quando você começa?". Entrei na W/. Saí da GTMC, os caras ficaram mal.

Jornalirismo – Em que ano você foi para a W/?

Jarbas Agnelli – Em 1988.

Jornalirismo – Aí viriam 13 anos de W/Brasil. Como foi essa temporada lá, você chegou num momento em que a agência...

Jarbas Agnelli – ... estava bombando. A agência estava no auge dos prêmios, Cannes, O Primeiro Sutiã [comercial para a Valisère], Hitler [comercial criado para a Folha de S.Paulo]. Caí num outro mundo. Eu estava, até então, na DPZ, que era uma agência cool, depois saí para a GTMC, que era pequena, e entrei no auge da propaganda. E com os profissionais mais incríveis. Digo que meu aprendizado foi dividido em dois: de quando nasci até começar a trabalhar com meu pai; depois vieram o Washington [Washington Olivetto] e o Gabriel. Esses 13 anos foram outra aula de propaganda.

Jornalirismo – Qual foi o principal aprendizado desse período?

Jarbas Agnelli – Meu pai sempre me ensinou a ver as coisas criativamente. Se você está olhando muito para esse negócio e não tem nenhuma idéia, vire tudo de ponta-cabeça, inverta tudo, que você vai ver de um outro jeito. Isso é uma coisa de que me lembro sempre dele. Ele foi sempre um cara que quebrava as regras para conseguir fazer coisas legais, coisas interessantes. Da W/, aprendi um monte de coisas de publicidade, mas acho que o maior legado da W/ é meio o espírito que o Washington montou: de confiança nas pessoas, de trabalhar sempre com um grupo de pessoas que você conhece e confia, o jeito de tratar as pessoas, a ética na propaganda.

Jornalirismo – Qual era esse jeito, essa ética? Especifique.

Jarbas Agnelli – Agora, que sou um cara que trabalha com todas as agências, antes eu estava dentro daquele universo, agora tenho um distanciamento, posso dizer: é algo raro, é um profissionalismo, realmente; não deixar as coisas se misturarem, tratar bem as pessoas, tratar bem as pessoas numa reunião. Tem toda essa função da propaganda, do publicitário. O Washington tem essa filosofia de trabalho que sempre admirei. Não só dele, a do Gabriel também. Principalmente porque eu trabalhei com o Washington agora, ele veio no AD Studio recentemente, pela primeira vez desde que eu comecei aqui. A gente começou em 2001, oficialmente foi 2002, tem cinco anos de abertura. Fiz alguns filmes para a W/Brasil, mas tinha perdido o contato com o Washington. Tinha meio que esquecido como é o Washington numa reunião. Como é tratar com ele. Foi muito legal. Sentia saudades desse processo que é trabalhar com ele. Que o cara é muito profissional, mesmo, além de ser muito talentoso, além de saber o que dizer na hora certa. De saber resolver uma coisa numa reunião, numa hora crítica, quando está todo o mundo embolado, como desemaranhar, quando começa um monte de gente a falar, e um monte de gente de várias áreas, quando todo o mundo fica meio perdido, o cara tem aquele papel centralizador, esclarecedor, que faz com que a campanha deslanche: "Vamos deixar o pessoal da produtora trabalhar, eles sabem o que estão fazendo". Ele deixa as coisas claras. Como eu acho que eram antes, nos anos oitenta, nos anos setenta. Cada um com seu papel: o marketing tinha seu papel, o atendimento tinha seu papel, cada um fazia seu papel, e grandes campanhas saíam. Agora as coisas estão um pouco mais embaçadas. As coisas são mais enroladas, eu diria. Não só o Washington e o Gabriel, claro. Quando eu entrei lá, sentei para fazer dupla com o Nizan [Nizan Guanaes, hoje dono da agência Africa], para você ter uma idéia. Eu mal começando na publicidade. Estava lá a Camila Franco, Tomás Lorente, Marcelo Pires, o Ruy Lindenbergh chegou logo depois, um monte de gente da pesada. Foi uma tremenda aula para mim, fazia dupla aqui, dupla ali, a Camila me chamava, fazia um trabalho ali. Acho que dei sorte também. Claro que eu trabalhei direito. O primeiro anúncio que fiz ganhou ouro no Clube de Criação, que foi o anúncio do "Jô Soares Onze e Meia" [nome antigo do programa de entrevistas do Jô Soares]. Ele estava com o capacete do Dart Wader [personagem maligno da série do cinema Star Wars]. Foi 1988. A gente tinha a conta do SBT e saía anúncio toda semana, saía anúncio a rodo. O programa do Jô era só sexta-feira, e a Globo colocou no mesmo dia o filme Star Wars para bater nele, e o Jô bateu no Star Wars. Na semana seguinte, resolveram colocar o programa todos os dias da semana, passou a ser diário. Daí a gente fez um anúncio assim: "O Império vai ter que contra-atacar todos os dias da semana". E o Jô Soares, com camiseta de Dart Wader, todo de preto, um Dart Wader gordo. O redator foi o Nizan. Comecei com o pé direito: meti um ouro no Anuário e todo mundo lá na W/ começou a me olhar com outros olhos. Era ainda W/GGK [o embrião do que viria a ser a W/Brasil, quando Washington rompeu o acordo com os suíços da GGK]. Conquistei um espaço interessante lá dentro por ser um cara meio nerd. Nunca fui nerd, na verdade, sempre fui muito interessado por tecnologia. Quando começou essa história [de informatização], acho que foi 1990, 1991, eu já grudei no Burti [Luciano Burti, dono da principal gráfica do Brasil, a Burti]: "Quero aprender esse negócio". Então o primeiro computador que chegou na W/ chegou para mim. Foi um dos primeiros computadores na publicidade, quando a Burti começou a colocar Macintoshs nas agências. Daí, todo upgrade vinha para a minha mesa. Comecei a ir testar lá na Burti, ia todos os dias, testar os prints [as impressões].

Jornalirismo – Isso por conta de quê? Por que você gostava mesmo? Era a nova geração da agência?

Jarbas Agnelli – Eu achava interessantíssimo. Eu já tinha computador, na verdade, desde 1983. Um Comodoro 64. Depois um Amiga 1040, que era um computador bem legal. Quando começou o Mac, eu pirei. Era uma coisa de doido poder misturar tudo. Logo comprei um para mim também, um Mac CI. E já ficava fazendo coisa em casa. Passei a música para o computador, comecei a comprar placa de vídeo. Estas coisas todas que eu estava fazendo em casa levava para a agência: "Olha o que eu consegui fazer!". Levava para o Gábi, ele sempre foi superinteressado. Então fiquei visto como aquele cara que está na vanguarda, que vai experimentar. Desde aquela época, os filmes que tinham alguma chance de ser feitos de uma maneira alternativa acabavam parando na minha mão.

Jornalirismo – Era só Photoshop essa época?

Jarbas Agnelli – Era Photoshop tudo. Mas já nessa época eu estava fazendo filme. Meu primeiro comercial, fiz para camisinhas Ola!. Um filme que tinha uns espermatozóides andando, um animação, com uma musiquinha [Jarbas cantarola uma música típica de cavalaria]. Aí eles brecam e vem um assim, na direção contrária, fala: "É Ola!, pessoal!". Aí todos olham, viram e voltam. Esse filme saiu na Archive [a revista Lurzer´s Archive, a publicação de propaganda mais prestigiada do mundo], ganhou Anuário [do Clube de Criação de São Paulo].

Jornalirismo – Já era W/Brasil ou ainda W/GGK?

Jarbas Agnelli – Era já W/Brasil. Foi 1990 e pouquinhos. Com esse filme, eu vi que dava para fazer coisa no computador. Foi um filme que fiz no Photoshop, desenhando todos os frames [quadro a quadro], e usei um programa, acho que foi o Director, um programa supersimples. Depois, fiz outro filme para O Boticário, Dreams, que eram uns homens voando e uma mulher cantando em francês. Entrou no Anuário também.

Jornalirismo – Você começou a fazer comercial no seu computador. E não tinha uma finalizadora? Mandar para uma finalizadora depois?

Jarbas Agnelli – Quando eu comecei a brincar disso, uns amigos começaram a brincar também, o pessoal da Trattoria de Frame, produtora. Eles começaram na paralela. E, infelizmente, já fechou. Então eu fui meio que finalizando com eles, fazia em casa, levava lá para finalizar, tinha que sair uma beta [fita beta, para poder ser televisionada depois]. O produto final continuava a ser uma fita. O bacana disse é que eu comecei a fazer as trilhas também. Fiz um monte para a Folha de S.Paulo. Comecei a fazer remixes para o Washington usar. A gente fez uma campanha da Triton, "De quem é esse jegue?", eu que fiz os remixes para a Conspiração [a produtora Conspiração Filmes]. Tinha outro que era da cobra, "Sobe, cobra...". Foi uma época em que o Washington começou a pegar coisas populares, pegou Rider e começou a trocar as pessoas, o Lulu Santos para cantar música do Tim Maia. Comecei a ver se conseguia me infiltrar nessa história da música. Acho que dei sorte por estar também numa agência muito musical. O Washington tem uma visão musical. Ele é superamigo do André Midani, que era presidente da Warner. Todo dia o Washington trazia alguma coisa e chamava todo o mundo para ouvir: "Criação toda, vem ouvir isso aqui, olha o que eu consegui...". E botava uma música para todo o mundo ouvir. Essa coisa incentivou também meu lado musical publicitário.

Jornalirismo – Essa transição que viria depois em sua vida, para o AD Studio, começou praticamente ali.

Jarbas Agnelli – As sementes estavam todas lá. Eu olho bastante para trás para ver onde começou essa coisa de querer fazer filme e música ao mesmo tempo. Tenho um tio, o Carlos Vecchio, que tinha uma empresa de audiovisual nos anos setenta. E eu "morava" lá dentro. Adorava. E o que ele fazia é basicamente o que eu faço hoje, até comentei com ele outro dia. Pegava slides, ficava com dois projetores, projetando com um disolve no meio, para fazer uma fusão entre um e outro e com trilha. Ele produzia essas trilhas com disco e eu o ajudava a fazer isso. Hoje, muitos filmes não são nada mais do que eram os slides antes. Um motion design [técnica de dar movimento a imagens estáticas], só que tudo animado. Elementos gráficos animados, 3D , mas basicamente é uma animação com música. O videoclipe também é basicamente isso.

Jornalirismo – O comercial A Semana, para a revista Época, que você fez a direção, foi quando mesmo?

Jarbas Agnelli – Foi em 2000, no Carnaval de 2000.

Jornalirismo – Como foi o processo de criação desse comercial? A sua participação?

Jarbas Agnelli – Esse comercial, eu fiz com o Alexandre Machado [redator]. A partir de 1996, 1997, eu fazia dupla com a Tetê Machado e com o Alexandre Machado. Os dois redatores. A gente fez um monte de coisa bacana. O Alexandre escreveu o texto.

Jornalirismo – Como é que foi a pesquisa?

Jarbas Agnelli – Era um comercial sem briefing [sem um pedido específico de criação do cliente para a agência]. Tinha um briefing teórico, que era conseguir passar a coisa da periodicidade da revista e o leque de abrangência dos assuntos para as pessoas. O que acontece nesse período de sete dias. O Alexandre escreveu o texto e falou: "A gente tem que fazer um filme do cacete com isso aqui. Pensa no que a gente pode fazer". Era logo antes do Carnaval, e eu usei o Carnaval inteiro. Fui para casa, escaneei um milhão de fotografias e trouxe o filme pronto. Com a trilha.

Veja o comercial A Semana, dirigido por Jarbas Agnelli para a revista Época:


Jornalirismo – Chegou o filme para você, e como foi que você definiu a técnica? Antigamente, aquele tipo de processo se chamava table top [a câmera se movia sobre materiais estáticos, geralmente fotos, recortes de jornais, para dar uma sensação de movimento].

Jarbas Agnelli – Hoje a gente chama de motion design. Table top, porque eram fotos colocadas numa mesa de luz, então tinha algum movimento de câmera, para lá e para cá. Hoje a gente faz isso tudo no computador. O filme é realmente muito simples. Eu tinha aquelas frases dele, que eram quase sempre meio antagônicas, comparações de estilos de vida, o pobre, o rico. Daí achei que ficaria bacana fazer isso atemporal, o mais atemporal possível. Por isso fui atrás de fotos clássicas, tirar a cor, fazer só no preto-e-branco. Já li em algum lugar que a cor distrai, e o preto-e-branco tem mais a capacidade de fazer você focar na emoção daquele momento. Eu também acho que a cor tira o foco. Mas o objetivo principal foi fazer uma coisa meio atemporal, que você não soubesse que aquela foto é de hoje, ou dos anos cinqüenta, ou dos anos vinte. Que poderia ter acontecido em qualquer época, porque a gente estava falando da humanidade, do ser humano, das emoções. Escaneei só fotos famosas, Sebastião Salgado etc. Uma das minhas preocupações era essa: porque eram fotos impossíveis de comprar. O filme foi superaprovado e a gente falou: "E agora? Como vamos fazer isso?". Só voltando um pouquinho: eu montei o esqueleto e pensei num jeito de falar aquilo tudo, porque é um texto enorme. Comecei tentando fazer um texto falado, um locutor, e ficou totalmente comercial, chato de ouvir. Tentei fazer cantado, ficou totalmente brega. Então lembrei dos anos setenta, de coisas que eu gostava, Electric Light Orchestra [banda de rock inglesa, também conhecida por suas iniciais, ELO], que usava muito vocoder, o Kraftwerk [banda alemã de música eletrônica]. Eu sempre gostei muito do vocoder, que é aquela voz sintetizada, meio de robô, você pega um microfone e canta ou fala alguma coisa, só que o tom da sua voz quem dá é o sintetizador. Achei que isso podia ficar no meio do caminho, porque o vocoder também é uma coisa meio nostálgica e ao mesmo tempo moderna. Hoje bandas continuam usando vocoder. Aí pensei: "Vou usar um vocoder nessa locução, porque nunca vi uma locução de filme com vocoder. Acho que vai dar mais uma estranheza para o filme". Acho que tem que abrir um parêntese: o que quer que fosse feito, o texto do Alexandre Machado era excelente. Era um princípio excepcional. Eu consegui não estragar o texto dele. O que ele estava falando era perfeito para aquele job. E a trilha ficou muito boa, só acrescentou.

Jornalirismo – Essa coisa do vocoder. Ficou uma voz metálica, meio robô, uma voz impessoal praticamente ou até divina. Parece uma voz meio atemporal também, voz de um criador...

Jarbas Agnelli – Talvez. Mas acho que, no universo das pessoas, elas lembram de coisas dos anos setenta. As referências que você tem, quando ouve um vocoder, vão para os anos setenta, do Kraftwerk, aquelas bandas alemãs, e ao mesmo tempo vão para o futuro, porque continuam usando vocoder. Então ficou meio atemporal, porque as pessoas não conseguem localizar muito. Não conseguiram encaixar num rótulo. E isso fez bem para o filme, já que ele era todo estranho desde o princípio. Ele tem três minutos, já é estranho daí, e eu quis manter essa estranheza e continuar nos formatos estranhos para a publicidade. Acho que isso tudo casou. Digo que esse filme é meio uma conjunção de planetas. O texto, as imagens, o prazo, o cliente, a agência – o Washington ter conseguido vender superbem o filme –, a Globo – quem estava na Globo, nessa época, aceitou superbem. A gente não mexeu em nada no filme, ele foi para o ar do jeito que estava. O cliente não alterou nenhuma frase, nenhuma foto. E eles ainda quiseram colocar um filme de três minutos no "Fantástico".

Jornalirismo – Fala um pouquinho da trilha. Você se baseou em quê?

Jarbas Agnelli – O Alexandre Machado queria que eu usasse Pink Floyd. E eu usei. A base daquela trilha, se você for ver, o baixo e a bateria são da música "Us and Them", do disco Dark Side of the Moon, do Pink Floyd [ele cantarola, imitando o som de um baixo]. São três notas. Claro que ninguém reconhece o Pink Floyd naquela trilha, mas tem uma coisinha meio anos setenta, meio rock progressivo. A parte mais difícil foi depois que o filme tinha sido aprovado. Porque, aí, a gente tinha que fazer o filme. O filme foi todo refeito do zero. Só que a gente tinha uma semana para fazer isso, porque o filme tinha que entrar no ar e tinha que ir para Cannes também. E essa parte, acho, foi mais um planeta que encaixou, que deu certo, quando poderia não ter dado. Peguei o Márcio Scavone e o Miro, que são dois puta fotógrafos, e cada um saiu feito louco, porque, em dois dias, tinham que fotografar tudo.

Jornalirismo – Ah, foi tudo produzido. Aquelas imagens, do Sebastião Salgado, tinham que ser substituídas...

Jarbas Agnelli – Do Sebastião Salgado tinha uma foto de uma velha. Falei para o Miro: "Vai para o Nordeste, vai fotografar pessoas sofridas, gente pobre, o pescador sofrido saindo da casa dele....". O Miro foi lá e fez umas fotos espetaculares. O Scavone ficou com coisas mais estéticas, mais plásticas. Aí eles chegaram com as fotos todas, escaneei, escolhi com eles. O que eu não consegui fotografar com eles, a gente usou de stock shot [compradas de bancos de imagens], mas deve ser apenas um terço. Os outros dois terços são de fotos tiradas por eles mesmos. E ficou melhor, foi o milagre, ficou mais legal do que estava antes, nos layouts.

Jornalirismo – E como foi o processo de produção do material, mesmo?

Jarbas Agnelli – Levei tudo para casa, retoquei tudo, substituí tudo, porque os movimentos foram diferentes, porque as fotos mudavam. Um saía da cara, ia para cá, ia para lá...

Jornalirismo – Você foi uma produtora completa.

Jarbas Agnelli – É, fiz o papel de uma produtora inteira. Acabei fazendo todas as etapas. Não que o filme fosse muito complexo, tem uma simplicidade, mas tem muito detalhe, e é muito longo. Fiquei várias noites sem dormir.

Jornalirismo – E depois de toda a repercussão do filme, depois dos prêmios, a sua vida teve uma virada?

Jarbas Agnelli – A princípio, não. Minha vida continuou como era. Ganhei o Grand Clio de 2001 [O Clio, de Nova York, é um dos principais prêmios da propaganda mundial; o Gran Clio é o prêmio máximo], que foi o único Grand Prix [grande prêmio] de filme que o Brasil ganhou lá fora. Um negócio impressionante. Foi um trabalho que fez o Washington [Olivetto] voltar a inscrever em prêmios, porque a W/ estava meio desencantada com isso nessa época, por causa daquele começo da história de fantasmas em Cannes [propaganda fantasma: propaganda criada exclusivamente para festivais, ficcional, sem briefing, sem orçamento, sem um problema de comunicação, com veiculação nula ou restrita, apenas para se dizer que o anúncio publicitário teve veiculação]. O Washington foi, inclusive, quem inventou o termo fantasma. O filme também ganhou Leão de Ouro em Cannes. Foi candidato ao Grand Prix, era o Marcello Serpa o presidente do júri, juntamente com o Whassup [campanha para a cerveja Budweiser], mas sem chance. O Whassup era uma campanha mundial, conhecida, e foi sensacional ser candidato a Grand Prix. Mas minha vida não mudou depois disso. Na minha cabeça, talvez estivesse mudando. Falei: "É isso que eu quero fazer para o resto da minha vida: produzir as coisas que eu penso". Meu grande dilema, nessa época, era o de passar a ser um braço e deixar de ser um cérebro. Não gostava da possibilidade de virar um cara que produz, que só faz, que só tem que fazer coisas de que não goste, coisas com as quais não concorde, ou que não tenha espaço para a opinião. Esse era um dos motivos pelos quais eu ainda resistia a sair de uma agência e virar uma produtora. Outro motivo, claro, era que não tinha nenhuma perspectiva de sócio. Não tinha uma saída mental para virar uma produtora um dia. Daí comecei a tomar contato com a turma da Non Sentimental Film, que acabou ficando sócio da turma da Sentimental Filme. Eles eram alemães e queriam investir numa firma no Brasil. Queriam investir e ficar donos de 51%, e eu embarquei nessa, porque eles davam uma grana para começar. Comecei a negociação com os caras, ao mesmo tempo em que o pessoal da Sentimental. Teoricamente, era para ficar embaixo desse guarda-chuva deles. Isso foi basicamente o que me fez apressar minha saída da W/Brasil. Até foi numa época totalmente imprópria, que era a época em que o Washington estava seqüestrado [Washington esteve seqüestrado por 53 dias, de 11 de dezembro de 2001 a 2 de fevereiro de 2002]. Era a última hora em que eu gostaria de sair, mas os caras fizeram uma superpressão da Alemanha. E considero que, se não tivesse essa pressão, talvez eu não tivesse o AD Studio hoje, porque foi ela que me fez sair. Quando saí e a gente continuou com as negociações, vi que ia ser uma roubada incrível, porque não estavam querendo investir o que eu queria. Iam realmente ficar com os 51%, iam ter opinião sobre a minha empresa e eu caí fora, mas já estava fora da W/Brasil.

Jornalirismo – Você fechou com eles e depois voltou atrás?

Jarbas Agnelli – Tinha fechado na teoria. Eles falaram: "Primeiro você sai, para depois a gente assinar". Também queriam ver se eu ia mesmo sair da W/Brasil. Aí desisti, mas já estava na rua. Comecei o AD Studio com a garra e a coragem.

Jornalirismo – Você pediu demissão da W/Brasil e saiu com uma grana?

Jarbas Agnelli – Exatamente. Consegui sair com uma grana, uma graninha, não é? Tinha uma grana muito curta, se eu não tivesse filme logo, ia ter que voltar para a publicidade. Essa foi uma época, na W/Brasil, em que todo o mundo da minha geração já tinha saído. A Tetê Pacheco já tinha saído, o Alexandre Machado também, o Marcelo Pires. Eu era meio que "o último dos moicanos".

Jornalirismo – Você se sentia assim mesmo?

Jarbas Agnelli – Era uma virada de salários também. Eu era o último grande salário que tinha na criação. A publicidade toda estava se adaptando a uma nova realidade. Estava em crise, sempre está, mas acho que, naquela época, estava pior. E minha saída não foi difícil assim. O Gabriel entendeu que o que eu estava fazendo era meio um caminho natural. Ele sempre entendeu minha cabeça, de tentar procurar coisas novas. Acho que dei sorte também nisso, porque, logo que saí, peguei uma campanha da W/ com o Rondon [o redator Rondon Fernandes] e o Peralta [o redator Alexandre Peralta]. Criei com eles, que era aquela campanha da FNAC, com mãos mexendo nos CDs, nos DVDs. A campanha foi premiada, ganhou Leão de Prata, ganhou Clio de Ouro, e isso viabilizou o meu começo. Foi um trabalho que me manteve ligado à W/Brasil de uma outra maneira. O que achei interessante é que outras agências começaram a me chamar para fazer jobs, sempre me vendo como um criador, como um parceiro.

Jornalirismo – Como era o processo de trabalho? Os caras chegavam com um comercial para você fazer com o roteiro todo pronto?

Jarbas Agnelli – O trabalho varia de roteiro para roteiro. Tem roteiros muito fechados, tem roteiros abertos, como o de um filme que gosto muito, que a gente fez para a Visa, do Ruy Lindenberg, chama-se Minuto. Foi em 2004, que é uma história em preto-e-branco, "o que você vai fazer com um minuto da sua vida". Esse filme veio só com o texto. O Ruy não me deu nenhuma idéia do que queria fazer no comercial. Falou: "Pensa em alguma coisa". E o processo foi até meio parecido com o do filme A Semana. Eu fui lá, escaneei fotos, fiz um "monstro", mostrei para eles.

Jornalirismo – Se você pegar os dois comerciais, eles têm coisas em comum, além do tratamento em preto-e-branco. A campanha de Visa tem o tema do tempo bastante explícito. O da Época, também, da semana e tal. Esse tema parece que procurou você ou foi você que procurou por ele? O tempo tem uma importância especial para você?

Jarbas Agnelli – O tempo é uma coisa que me fascina. Gosto muito, e gosto muito dos extremos do tempo. Gosto muito de slow motion [câmera lenta], você vai achar vários filmes meus com muito slow motion. E gosto muito também da aceleração do tempo. São outras dimensões do tempo, talvez, outras visões que a gente tem sobre o tempo. Na campanha de Kaiser, [campanha "Viva!", dos filmes Luau, Escondida e Cantada Ruim, de 2006] tem tempo acelerado. Claro que, quando a campanha chega, eu imprimo alguma coisa que tenha a ver comigo. A campanha de Kaiser, teoricamente, não era para ser em time-lapse [tempo acelerado]. Eu que sugeri que a gente fizesse com fotografias.

Assista ao filme Luau, dirigido por Jarbas Agnelli para a Kaiser:


Jornalirismo – E a explicação? Por que você quis acelerar o tempo ali?

Jarbas Agnelli – Eu sempre procurei modos alternativos de contar uma história. Acho que a publicidade precisa sempre procurar por isso. Você já está saturado de ver tantos comerciais parecidos. Como gosto muito de linguagens alternativas, procurei me aproximar, na cinematografia, no fazer do filme, da experimentação de todas as possibilidades. Gosto de animação, de massinha, de filmar em super-oito, de misturar tudo. A fotografia é uma das linguagens. Acho o perfil do AD Studio hoje o de um lugar onde se experimenta bastante. Principalmente num país onde a publicidade tem que procurar alternativas, não só para se comunicar de uma maneira diferente, mas também para viabilizar os filmes.

Jornalirismo – Qual é hoje a dificuldade maior de fazer comerciais no Brasil?

Jarbas Agnelli – O AD Studio está numa fase melhor agora. Acho que é natural. Nesses cinco anos, a gente passou de uma produtora muito pequena, alternativa, para uma produtora mais sólida. A gente tem recebido roteiros bacanas, roteiros em que há mais verba, maior capacidade de produção, conforto maior. Ao mesmo tempo, a gente tem esse perfil alternativo. Então, a gente também é procurado para todo tipo de filme, que não tem verba ou precise de um efeito especial, mas o cliente ainda não entende isso direito, então não tem tanta verba, essa campanha não é a principal, é uma campanha mais louca que a gente inventou aqui. Temos sido muito procurados para sair do lugar-comum. Então tem de tudo. Tem aquele filme muito bacana, da Credicard Citi, com essa campanha de dois filmes que a gente fez [campanha de entretenimento, com os filmes Lágrima e Sorriso, veja abaixo], até um filme pequenininho, que a gente faz com o que dá para fazer, só fotografia, totalmente alternativo. Eu gosto muito disso, na verdade. Prefiro trabalhar no limite da grana e ter pouco lucro com um filme interessante do que realmente ganhar uma puta grana e fazer uma margarina da vida.

Jornalirismo – Então, geralmente, quando vem muita grana, é porque tem pouca criatividade? Como é essa relação da verba com a liberdade de criar?

Jarbas Agnelli – Acho que, graças a Deus, graças a termos nos colocado no mercado com esse perfil, não recebemos muito esse tipo de filme. Aquele filme mais careta, mais convencional, que tem grandes verbas, mas que tem o cliente enchendo o saco em cima, porque está apostando tudo naquilo, tem que vender muito, tem que falar com todo o mundo. Não é o nosso perfil fazer esse tipo de filme, fazemos mais filmes alternativos. Mas temos recebido filmes alternativos que têm um pouquinho de lastro. E isso é muito bacana, porque a gente está mais sólido como produtora e está dando mais segurança para as agências.

Jornalirismo – No Brasil, de modo geral, nos anos recentes, houve um processo crescente de abertura do mercado do cinema publicitário. A crescente importação de comerciais. O que era proibido, hoje se importa livre e totalmente. Troca-se apenas o pack shot [o fechamento do comercial, com a apresentação em destaque do produto] e a locução ou a trilha e vai para o ar. Na sua opinião, isso é legal?

Jarbas Agnelli – Isso faz parte dessa globalização, de o mundo estar ficando cada vez menor. Tem alinhamentos de agências com clientes, acho que é natural que a gente tenha alinhamentos de campanhas publicitárias, a adaptação para os países. Recentemente, fizemos um filme para a Nokia em que você podia mudar de canal. Tinha o mesmo comercial passando com a mesma música, em dois canais diferentes. Ia para o 41 e para o 42. Fizeram um também que tinha SAP: "Você quer ver esse comercial com outra música? Aperte o SAP". Tinha uma outra música no mesmo comercial. Essa campanha, a gente fez aqui. A gente teve que usar imagens de fora, as imagens já vieram todas prontas. Além de fazer pack shot e realmente fazer o comercial, montar toda a história, mas isso não satisfaz muito, a gente teve a sorte de poder fazer as trilhas. Então, pelo menos, a gente conseguiu se satisfazer com um outro lado. Fizemos um rock bem legal. Isso é uma coisa inevitável, mas não acho o ideal.

Jornalirismo – Você acha que deveria haver alguma restrição?

Jarbas Agnelli – A restrição é bem-vinda, sim. É necessária. Porque, senão, vira uma bagunça. Tem que, de alguma maneira, preservar o mercado, preservar as produtoras, preservar os profissionais que trabalham com isso. Não sou muito procurado para fazer esse tipo de filme, a gente é procurado para dar a nossa contribuição para as coisas. Claro que isso dá dinheiro [adaptação de filmes importados], mas o meu objetivo número 1 em publicidade não é ganhar dinheiro, é fazer coisas interessantes.

Jornalirismo – Alguns têm dito que os argentinos estão fazendo melhores comerciais que os brasileiros. Que o Brasil teria parado nos anos oitenta. Qual é a sua opinião? O filme publicitário brasileiro perdeu ousadia e inventividade, mesmo?

Jarbas Agnelli – Alguns publicitários dizem que a Argentina é hoje o que o Brasil era nos anos oitenta. Tem a inventividade e a irreverência que tínhamos. E que isso nada tem a ver com dinheiro, já que eles também não dispõem de verbas milionárias. Eu tendo a concordar, sem saber exatamente como e por que isso aconteceu. Mas tenho alguns palpites. O primeiro, é claro, tem a ver com as crises pelas quais o Brasil passou. A publicidade absorveu essas crises, diminuindo de tamanho, achatando salários, fazendo as agências ficarem mais covardes e os clientes, mais caretas. Inundando a tevê com varejo. Mas, até aí, a Argentina também passou por crises, tão grandes ou maiores que as nossas. A Argentina produz melhor que nós? Talvez. Eles têm bons atores. E fazem um excelente cinema. Mas, acima disso tudo, me parece que os publicitários brasileiros estão cansados. Não de trabalhar, mas de tentar lutar por boas idéias, tentar convencer o cliente que a ousadia é o melhor caminho. E acho que isso é reflexo de algo tão profundo, que não dá para destilar em pouco tempo. É reflexo de um país onde tudo de errado acontece, na frente dos nossos narizes. E a sensação permanente de impotência é gravada em nossos cérebros, escândalo após escândalo. E isso é muito mais grave nos cérebros "pensantes". Os brasileiros estão amortecidos. Mesmo os intelectuais. Os formadores de opinião. E, para piorar tudo, a classe publicitária brasileira inventou o seu "caixa-dois". A caixa onde ficam as boas idéias, as idéias recusadas, ou as que nem se dão ao trabalho de levar para serem recusadas. Passam o ano frustrados, mas sabendo que, em março, essas idéias serão tiradas da caixa, desempoeiradas e levadas a Cannes, fazendo jus ao jeitinho brasileiro. Garoto que apanha em casa tende a bater nos outros na escola. O jeitinho brasileiro é isso. Anos apanhando dos militares, depois da democracia fajuta. E os publicitários brasileiros, como qualquer outro brasileiro, acharam o seu jeito de sobreviver à mediocridade geral da nação. Burlando alguma coisa. Fazendo vista grossa a alguma regra. Tirando alguma vantagem em um país onde só tira vantagem quem passa por cima da lei. Infelizmente, hoje vivemos a crise da crise, pois nem fantasmas têm trazido prêmios ao Brasil (pelo menos na área de filmes). E, para piorar ainda mais, olhamos para o lado e vemos nossos hermanos cheios de ouros na bagagem, com idéias simples e fresquinhas no rolo.

Jornalirismo – Onde hoje, no mundo, se faz o melhor filme comercial publicitário? Por quê?

Jarbas Agnelli – Inglaterra. Além, obviamente, de terem bilhões de libras disponíveis, têm a cultura a seu favor. São excelentes contadores de história, e o público, em geral, tem aversão ao "compre isso", "faça aquilo". Não querem ser convencidos de algo, têm que ser iludidos de que não estão sendo convencidos a nada. E isso é a melhor coisa que pode acontecer com um job. Disso nascem campanhas como as da Stela Artois, Guiness ou Playstation, que você vai descobrir que não são curtas só porque têm um logo no final (pequeno e rápido, diga-se de passagem). Mesmo assim são totalmente pertinentes, vendem produtos aos milhões e abocanham os ouros que não conseguimos com nosso semivarejo covarde ou nosso "caixa-dois".

Jornalirismo – Muitos publicitários têm defendido uma propaganda com cor local e a gente assiste à tevê e acaba não vendo muito isso. O que está faltando para fazer uma propaganda com cor local, brasileira? Que elementos a gente precisaria para fazer um comercial com a cara brasileira? Com que personagens? Que histórias?

Jarbas Agnelli – Não sei se sou a pessoa perfeita para falar sobre isso, porque sou um cara do mundo. Sou muito ligado em tudo, gosto muito da idéia de misturar tudo. A música que eu faço com o Waldo é uma mistura de tudo. A gente usa tudo: música indiana, mistura com samba, chorinho... A mistura é muito legal. Eu nunca fui muito patriota. Não é porque eu não goste do Brasil, porque acho que ninguém deveria ser muito patriota. Sempre fui contra pátria, religião. Acho que essas coisas têm que começar a feder para o mundo começar a ficar melhor. Quanto mais a gente busca o localismo, de local, mesmo, mais a gente complica a relação das pessoas. O Woody Allen [diretor de cinema norte-americano, de filmes como A Rosa Púrpura do Cairo e Neblinas e Sombras] tem uma frase muito boa: "A tradição é a ilusão da permanência". Achei essa frase genial, porque me incomoda essa coisa de ir mantendo as coisas para sempre. Isso é realmente uma ilusão, o mundo vai mudando sempre. Acho que a adaptação é muito boa, e a gente vive uma época em que o mundo está todo interligado mesmo. Claro que é sempre bom preservar coisas, para você não perder completamente a identidade, ainda mais num país que é meio colonizado, como o nosso. A gente recebe toneladas de influências, via comércio, dos Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, acho que a gente tem que saber criar uma identidade misturando tudo, porque isso é inevitável, cada vez mais inevitável. A questão é ir criando coisas novas, sou a favor disso, vai misturando, sem perder a identidade, mas vai aceitando e agregando coisas novas. Um clipe de que eu gosto bastante, que é meio o resumo desta história, é um que fiz para O Rappa. O Yuka [Marcelo Yuka, ex-integrante de O Rappa; baleado quando tentou intervir num assalto no Rio de Janeiro, levou nove tiros e ficou paraplégico.] me pediu para fazer uma coisa que tivesse folclore, mas que tivesse o futuro ao mesmo tempo.

Jornalirismo – É aquele em 3D, com o cara jogando capoeira? O clipe de Instinto Coletivo?

Jarbas Agnelli – Este clipe é exatamente isto: vamos dar uma linguagem nova para a capoeira. Vamos pegar e inserir no mundo virtual, vamos usar motion capture [captura eletrônica dos movimentos de uma pessoa via equipamentos] para captar o movimento do capoeirista e aplicar num boneco 3D. Acho que ele ficou com uma cara que é atual, usando elementos do passado, elementos da tradição brasileira. Acho que isso pode ser um caminho interessante: manter os elementos, mas numa outra linguagem, uma linguagem atual. Senão, você vai ficar sempre fazendo esses clipes de gente pelo Brasil, que já deram no saco.

Veja o videoclipe de Instinto Coletivo, dirigido por Jarbas Agnelli para O Rappa:



Assista à captação de movimento [motion capture] de Instinto Coletivo:


Jornalirismo – Aproveitando que a gente falou de O Rappa, gostaria de falar desse seu trabalho com os clipes, que está indo superbem também.

Jarbas Agnelli – Estava indo superbem, porque o clipe não existe mais. Até li no Estadão que o videoclipe morreu. A MTV não passa mais. Não tenho feito mais. Mas é uma coisa que gosto muito, a gente perdeu um espaço superinteressante de experimentação. Além disso, ele é a união de duas coisas que eu gosto, música e direção de arte. Sempre me atraiu por isso.

Jornalirismo – E a ausência da propaganda ali é benéfica? Não está falando sobre um produto, tem mais liberdade?

Jarbas Agnelli – Tem mais espaço, mais liberdade. Você pode fazer qualquer coisa. E, por a gente ter esse perfil bem alternativo, sempre foi procurado por bandas que falaram: "Faz qualquer coisa". Lulu Santos, O Rappa, Pato Fu. Para o Pato Fu, a gente fez dois clipes que ganharam VMB [Video Music Brasil, prêmio concedido pela MTV]. É muito bacana, não tem dinheiro – nunca teve. Só um dinheirinho irrisório, mesmo na época quando a música tinha dinheiro. Porque nunca teve dinheiro disponibilizado para o videoclipe. O que nunca entendi, porque sempre achei que o clipe era um cartão-postal para a banda. Principalmente na época em que a MTV veiculava. As gravadoras sabiam que os diretores e as produtoras brasileiras usavam isso meio como espaço para experimentar, tinha a mídia da MTV, então ficava aquele jogo de interesses acontecendo. Mas é que agora, realmente, não tem dinheiro. Hoje, se você quiser fazer, vai pôr o seu dinheiro.

Jornalirismo – A gravadora não está bancando mais?

Jarbas Agnelli – Já não bancava e, agora, menos. Agora a MTV só passa clipes de madrugada. Clipe, hoje, só na Internet. O selo final foi o VMB 2007. A gente percebeu que o negócio da MTV realmente mudou de perfil. Mudaram a filosofia de marketing. Fecharam num leque muito pequeno de bandas, de estilo. Antigamente, pelo menos, tinha um grande leque de premiáveis ali. Não é o caso nem de se culpar quem votou, não, porque os indicados todos já eram de um segmento muito pequeno da música. É triste, fiquei chateado.

Jornalirismo – Isso não parece meio contraditório, num momento de abertura da mídia, do mundo?

Jarbas Agnelli – Acho que a MTV entendeu que o jovem de 15, 16 anos usa a Internet para ver clipe; não usa mais a tevê. Acho que esse foi um dos motivos. Hoje, tem YouTube, MySpace, Google Vídeo. Meus filhos só vêem vídeo na Internet. "Quero ver o vídeo do Foo Fighters." Você não vai ficar esperando passar na tevê, você vai lá e vê na Internet, todos os vídeos do Foo Fighters. É muito mais fácil. Outra coisa é a mudança de perfil da emissora, mesmo. Hoje, grande parte da programação é feita de programas de auditório. Antigamente, a MTV era povoada por pensadores. A Cris Couto, Fábio Massari, Zeca Camargo, o Edgar [Edgar Piccoli], esses caras todos saíram. Sobrou só a Marina Person, que fala de cinema. A filosofia de pensar em música realmente mudou na MTV, não é mais um canal de música, apesar do nome.

Jornalirismo – Você já produziu alguma coisa específica para a Internet?

Jarbas Agnelli – Por incrível que pareça, não. Sempre recebo esta pergunta. E a gente não faz muito, porque nosso tempo está sendo tomado com publicidade, o que é bom, porque o dinheiro está principalmente nisso. Eu não rejeito essa idéia, acho muito legal começar a fazer coisas alternativas. Acho legal virais, mas principalmente os virais que surgem espontaneamente, não os virais empresariais, que estão fingindo que estão entre a molecada. Acho a Internet fantástica, não canso de ficar abismado com os rumos que a Internet tem tomado. Porque é um espaço onde você pode fazer tudo.

Jornalirismo – Você pensa em fazer um trabalho mais pessoal? Ficcional?

Jarbas Agnelli – Exatamente.

Jornalirismo – Você é um cara que não faz ficção, não é? Tem um clipe da banda de vocês que tem uma narrativa ali.

Jarbas Agnelli – O clipe do Call My Name. Aliás, esse clipe virou meio um hit no YouTube. Já achei vários caras que passaram um para o outro, mas não no meio musical. Mais no meio de esoterismo.

Jornalirismo – Porque tinha aquilo da projeção astral. Por que esse tema? É o tema do duplo, da pessoa que sai do próprio corpo e se observa...

Veja o vídeo de Call My Name:


Jarbas Agnelli – Esse é um dos outros interesses meus. Sempre gostei de explorar o inexplorado, os tabus, as coisas de que as pessoas falam: "Ah, tenho medo disso, não mexe com isso...". Cheguei até a fazer curso disso.

Jornalirismo – De projeção astral? Vidas passadas?

Jarbas Agnelli – De tudo. Já me meti com tudo. A minha infância toda foi com pais que não davam a mínima bola para a religião. Minha mãe era católica nada crente, e meu pai era ateu. Daí aconteceu uma série de coisas na vida do meu pai, ele conheceu o Chico Xavier [1910-2002, principal expoente do espiritismo no Brasil], quando morreu a mãe dele. Começou a fazer capas para o Chico, virou amigo dele e isso o mudou completamente. Passou a ir a centros espíritas e a procurar esses fenômenos e começou a me levar junto. A gente ia ver luzinha voando, voz. Para um adolescente, isso era fantástico. E, durante um grande período da minha vida, até a idade adulta, eu me considerava espírita. Eu nunca gostei de dogmas e, partir de certo momento, comecei a ver que o espiritismo era um dogma, por mais libertário ou evoluído que eles achassem que fossem, era um dogma como outro qualquer. Com certas leis, certas regras. Então me afastei. Mas, quando entrei nessa história de espiritismo, comecei a ver outras histórias que existiam, como projeção astral, regressão a vidas passadas, transcomunicação, que é você utilizar aparelhos para se comunicar com espíritos, televisão, rádio, tem uma vasta bibliografia sobre isso. É um mundo muito rico. E muito pouco explorado na mídia. Se um dia eu fizer um longa-metragem, acho que vai ser sobre reencarnação, espírito, sair do corpo.

Jornalirismo – Além do espiritismo, do esoterismo, quais são as suas influências na vida, no cinema?

Jarbas Agnelli – Ficção científica. Lia muito Ray Bradbury [escritor norte-americano, autor do clássico Fahrenheit 451, sobre um mundo futurista dominado pela censura e o totalitarismo, que se transformou em filme de François Truffaut], Isaac Asimov [1920-1992, escritor nascido na Rússia, mas criado nos Estados Unidos, autor, entre outros, de Eu, Robô] na minha adolescência. Os filmes que realmente marcaram minha vida foram Star Wars, Blade Runner, Alien, Ridley Scott. Foram referências fortíssimas. Mas se você me perguntasse quais são meus cineastas ou atores prediletos, são os caras de comédia. Woody Allen, Peter Sellers [o ator inglês Peter Sellers, 1925-1980, famoso pela personagem Inspetor Clouseau], Jacques Tati [o diretor e ator francês Jacques Tati, autor de clássicos como Meu Tio e As Férias de Mr. Hulot¸1907-1982], Charles Chaplin [o diretor e ator inglês Charles Chaplin, de filmes como Luzes da Cidade, Luzes da Ribalta, Tempos Modernos, 1889-1977] são os caras de que eu realmente gosto. Eles conseguem colocar o humanismo, a coisa do ser humano, em filmes fantásticos.

Jornalirismo – Com Chaplin, a gente ri e chora ao mesmo tempo.

Jarbas Agnelli – E é edificante. Faz uma piada e você sai um ser humano melhor daquilo.

Jornalirismo – A gente está falando isso de tecnologia, humanidade. Então vamos falar da campanha recente da Credicard Citi, da coisa da lágrima... Como foi essa produção? Teve o uso de um novo software...

Jarbas Agnelli – É um software de 3D, pouquíssimo usado no Brasil, o Houdini. O nome do mágico [Harry Houdini, 1874-1926, considerado o melhor mágico da história dos Estados Unidos]. É um software "procedural", matemático. Não é nada amigável. A gente utilizou dois franceses especializados [Christian Eduardo e Gerome Mortelecque] nesse software. Esse tipo de filme não é comum. A gente vê curtas de animação japoneses com esse tipo de abstração, filmes que têm uma plástica abstrata. É meio uma mistura de animação com biologia e matemática. A gente quis imprimir esse tipo de look. O briefing da criação era para que a gente fizesse um passeio que simbolizasse a criação de uma lágrima. Contar como um sentimento passeia pelo seu corpo. Mas a idéia era que não ficasse um filme da National Geographic ou do Discovery Channel, não é um passeio por dentro do corpo humano, com tubos, veias, músculos. Uma coisa mais simbólica, mais abstrata, mesmo, a criação de um sentimento. Fizemos uma coisa que lembrasse neurônios, lembrasse nervos. Mais para o final, entra num canal lacrimal e a gente começa a ver o corpo humano de verdade. Mas o comercial é um livre uso da linguagem do 3D para simbolizar coisas.

Jornalirismo – Quais foram as referências para criar o filme?

Jarbas Agnelli – Além de referências de filmes do corpo humano da National Geographic e do Discovery Channel, usamos clipes e comerciais norte-americanos, aquele documentário Quem Somos Nós?. Isso já foi muito usado, cenas por entre os neurônios. O filme O Clube da Luta foi uma das referências. A apresentação do filme começa com um passeio que sai dos neurônios e vai pelo cano do revólver do cara. Juntamos todas essas referências e conseguimos fazer esse passeio, uma licença poética pelo corpo humano, sem ser muito literal, verdadeiro, fisiologicamente falando. O outro filme é um passeio parecido, mas acaba nas cordas vocais e sai pela boca, um sorriso. Como nasce uma risada. Nós criamos a trilha também, totalmente sinfônica, o Waldo compôs tudo no computador. E o Tomás Duque Estrada, que é meu braço direito, dividiu toda a parte do 3D. Depois juntamos todas as partes. É um processo muito complexo e bacana, a gente fica brincando de Hollywood. Tem todos os elementos de Hollywood, só que a gente usa isso para fazer 30 segundos. O processo de produção é idêntico. Mesmo porque tem que ser, as pessoas estão muito acostumadas a ver isso no cinema. Se você não fizer muito bem-feito, qualquer criança vai falar que está malfeito aquilo, que é falso. Tem que ter um nível de cuidado altíssimo. Principalmente por não ter milhões de dólares.


Assista ao filme Lágrima, dirigido por Jarbas Agnelli para a Credicard Citi:

 

Assista ao filme Sorriso, dirigido por Jarbas Agnelli para a Credicard Citi:


Jornalirismo – O cliente entende que existe todo esse processo por trás?

Jarbas Agnelli – Mais ou menos. A gente às vezes ouve: "Ah, legal, mas vamos mudar isso daí. É para amanhã". Essas coisas são comuns. Mas acho que, cada vez mais, os clientes estão entendendo como é que isso funciona. Graças ao cinema, ao DVD. Todo mundo vê making of hoje em dia. O que era uma coisa rara passou a ser comum, você assiste ao filme e, depois, ao making of. Serviu para educar os clientes, principalmente porque eles sabem que o processo é o mesmo.

Jornalirismo – Você é um cara extremamente dedicado ao trabalho. A Semana, por exemplo, você fez no Carnaval de 2000, no maior feriado nacional. Hoje, sábado, você está trabalhando. Como que é essa sua dedicação ao trabalho? É realmente uma entrega?

Jarbas Agnelli – Eu consegui, nesses últimos anos, a utopia máxima do trabalho: fazer o que gosta, do jeito que gosta, quando gosta, onde gosta. Se você perguntar para a minha mulher, ela vai dizer que trabalho demais. Mas a verdade é que nem me sinto trabalhando, a maior parte do tempo. Tenho a sorte de poder dar o meu ritmo aos trabalhos, escolhendo os horários em que sou mais produtivo (e de ter uma equipe que acompanha meu ritmo). Durmo a manhã toda e trabalho de madrugada, porque funciona melhor para mim. Aperto o play quando o mundo à minha volta apertou o pause. Não me preocupo em saber em que dia da semana estamos. O mês tem 30 dias. Uso o que for preciso. Mesmo assim, me considero bem família, um pai que tem a guarda compartilhada dos filhos do ex-casamento e que realmente está para eles. Meus filhos adolescentes vivem no AD Studio, jogando, tocando instrumentos, fazendo rotoscopia [animação criada com imagens captadas inicialmente em vídeo] no After Effects ou trilhas sonoras com o Waldo (às vezes, nem contamos para a agência que aquela melodia incrível saiu da cabeça de um garoto de 16 anos). Com minha mulher, convivo na madrugada, em horários loucos nos quais ela, pelo bem ou pelo mal, acabou se adaptando. Sigo a tradição dos orientais. Se você tem que fazer alguma coisa, faça com prazer.

Jornalirismo – Para encerrar, o que você sugere para um cara que está começando, que quer fazer comercial, que pode se inspirar em você?

Jarbas Agnelli – Meu conselho é para as pessoas experimentarem, mesmo, sem medo. Porque, hoje, os softwares que a gente usa todo mundo tem, Photoshop, After Effects. Se você pegar os anos oitenta, os anos noventa, tinha uma grande separação do que dava para você fazer em casa do que as produtoras faziam. Hoje todo mundo finaliza no After – e muito bem. Hollywood finaliza nele. Hoje, também se usam softwares caríssimos, mas, com os softwares que todo mundo tem, você chega a um resultado muito parecido. O diferencial é a criatividade, em como você vai usar aquilo. Talvez você não consiga fazer o melhor efeito, mas você vai dar uma volta e fazer uma coisa criativa. Uma coisa mais interessante. Então, experimente. Você consegue fazer música ao mesmo tempo em que está fazendo vídeo. Acho que as pessoas ficaram ou estão, principalmente os jovens, prostrados diante das possibilidades do computador. Vejo pelos meus filhos. O computador é uma janela para o mundo, você tem qualquer coisa ali, e eles passam noventa por cento do tempo no MSN Messenger e no Orkut. É como se fechassem as portas. Tem essa aqui, mas, se você tirar da frente, vai ver uma infinidade de sites e coisas interessantes que você pode aprender. Você pode ter aula de qualquer coisa no computador. Não só produzir. Aula on-line em Harvard, de cinema, de qualquer coisa. Falta isso nos jovens. "Ah, eu quero aprender não sei o que lá, faço um curso?" Ouço muito esse tipo de pergunta. Está na sua frente, desliga o Orkut que você vai aprender muita coisa.

Comentários
representando o instinto coletivo
Daniel Spinelli | 10/04/2008
Tao logo comecei na W como midia, Jarbas saia para tocar a AD, eu tinha meus 17/
18 anos. Teve grande influencia, embora nem faça idéia, no momento que em que
optei por RTV à PP. Acompanho de longe. Cheguei nessa materia, fuçando no site
do AD. Varias vezes me emocionei com filme da Época, que ainda recorrentemente
assisto. E, em varios momentos, quando quero buscar energias para fazer um
trabalho du caralho, entre outras, escuto Instinto Coletivo (Rappa) pois pra mim
essa musica traz um significado: de excelencia profissional. Não tem jeito, uma
vez sendo fudido no que se faz vai influencia pessoas, quer queira ou não. Tem,
tem louco pra tudo. Vai saber, e se um dia desses a produtora precisa de um
midia ? Bingo.
Daniel Spinelli
Apenas curiosidade
Kate Agnelli | 22/10/2009 |  
Achei o Jarbas Agnelli por acaso na internet. Estava procurando no google para
saber quantas vezes meu site aparecia. Fiquei surpresa quando vi o nome Laerte
Agnelli. Quando era criança um parente de minha mãe chamado Laerte Agnelli
visitou-nos e levou um livro espírita autografado por Chico Xavier. Sei que
não tem nada a ver com o assunto.Gostei de conhecer o Jarbas. Parabéns pelo
trabalho dele.
Abraços,
Kate Agnelli.
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