Jornalirismo

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Raízes do repórter.

Assumo o espírito aventureiro, às vezes temerário, inconseqüente, por inteiro: não esquadrinho o mapa, em busca do endereço de destino, das melhores rotas, dos caminhos alternativos. Deixo à Fortuna. Sem essa de ladrilhador, não trabalho com piscinas, eu quero o risco ultramarino, eu quero o Mar Tenebroso, a alucinação marinha.

Parto de carro, por isso, com uma vaga noção do lugar a que preciso chegar em horário hábil, em horário familiar, em horário previamente agendado: Rua Francisco Muniz Barreto, Jardim São Paulo, perto do Portal do Morumbi, zona sul da cidade de São Paulo, às 20h. Local da residência do jornalista Mílton Jung, âncora da rádio CBN paulistana: programa "CBN São Paulo", de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 12h.

Com tão poucas coordenadas, claro que não chegarei. Claro também é que não titubearei em telefonar, hoje estou mais louco do que de costume. E o apresentador, que recebe, todos os dias, dos repórteres no mar da cidade, as notícias do trânsito cada vez mais caótico e violento da capital paulista, hoje se transforma em fonte de informação, em faroleiro, CET muito particular: "Alô? Mílton? Então, estou aqui passando em frente ao colégio Guilherme Dumont Villares. Como é que chego à sua casa, mesmo?". Ele me explica paciente, minuciosamente. Terei de pegar à direita num farol que surge depois de uma padaria; em seguida, precisarei seguir reto, até o cruzamento com uma grande avenida; e, de lá, contornar à direita; e... me esqueço. Estaciono o carro, pergunto ao frentista do posto. O homem não sabe informar, não conhece a rua; também, pudera: a rua que pergunto não existe, combino nomes de outras ruas para formar um nome composto, diverso. Estou desnorteado esta noite, apoplético, confusão mental que reconheço. Toca o telefone, é o Mílton: "E aí, está perdido?". Digo que estou a caminho, pois sou otimista. Sigo pela grande avenida, viro à direita, subo – está tudo escuro –, contorno uma larga praça. E eis que surge a Francisco Muniz Barreto, meu destino. Procuro o número 83 e descubro que não há, na rua, uma lógica de numeração. Um menor aqui, outro maior bem do lado. Outra vez, o telefone; respondo prontamente: "Já estou na sua rua, mas acho que fui para o lado errado". Ele lembra da inconstância na numeração, diz que vai descer, para eu esperar na porta. Encontro finalmente a casa, não sem antes me certificar disso com o segurança da rua. Posiciono-me na frente da casa, um grande sobrado. Porque pareço esperar demais, arrisco o portão, encostado. Então ele vem me saudar, balançando o rabo; não temo, apesar do tamanho. É Ramazzotti, o cão. Ele, Mílton Jung, é quem surge logo depois, surpreso ao ver-me ali, coçando calmamente o cão.

Sentamo-nos à mesa da sala. Mílton oferece vinho; se ele beber também... Na manhã seguinte, acordarei com uma baita dor de cabeça. O vinho anima, in vino veritas, o vinho revela a verdade, como diziam os latinos. Deixa o Mílton falar: bananas ou jornalismo, quem vai querer o quê?

Veja também o depoimento de Mílton Jung ao
Jornalirismo:


Jornalirismo – Estava pensando por onde começava: se no passado, com o seu começo de carreira em Porto Alegre, ou se no futuro, perguntando sobre o rádio do futuro. Mas resolvi deixar estes assuntos mais para adiante. Vamos começar de sola, mesmo: a questão da credibilidade do rádio. No seu livro Jornalismo de rádio (Editora Contexto) e em pesquisas, o rádio ainda é apontado como dono de boa credibilidade, à frente da tevê, por exemplo, e de muitas outras instituições.

Mílton Jung – Depende da pesquisa, está mais para cima ou mais para baixo na questão da credibilidade. O rádio persiste, sim.

Jornalirismo – E, curiosamente, é o veículo em que se pagam os piores salários, como decorrência do fim da chamada "Era do Rádio", e a migração das verbas para a televisão, e mais um monte de explicações para isso. Então, como é que se garante credibilidade pagando tão pouco, não tendo jornalistas especialistas...

Mílton Jung – Primeiro, vamos pensar o seguinte: a idéia de que o rádio paga os piores salários deixou de existir graças à Internet.

Jornalirismo – A Internet paga pior?

Mílton Jung – A Internet paga menos e exige muito mais. E vários setores da Internet, principalmente no jornalismo, cometem os mesmos erros que se cometiam no passado, no rádio. Mas a gente tem que separar as rádios. Porque, se a gente disser "o rádio tem credibilidade", que tipo de rádio tem credibilidade hoje? Quais rádios têm credibilidade? Eu posso dizer a você, com toda a segurança, que a rádio CBN tem muita credibilidade na opinião pública – e muita projeção, que também é um outro fator importante. Porque, às vezes, você tem credibilidade, mas não consegue mobilizar a opinião pública. A rádio CBN consegue, ela tem essa força hoje devido ao trabalho que vem desenvolvendo e à credibilidade que foi construindo. Mas, se olhar o mercado de rádio em geral, vamos ver muitas rádios, principalmente fora dos grandes centros urbanos, que são problema. Na CBN, nós temos uma formação de rede, algumas emissoras ligadas diretamente ao Sistema Globo de Rádio, embaixo desse guarda-chuva, e outras que apenas usam a grife. E, por usar a grife, ser uma espécie de franchising da rádio CBN que você monta na sua cidade, tem que seguir algumas regras. O sanduíche tem que ser feito da mesma forma em todos os lugares. A CBN tenta ter um controle grande sobre isso, mas, mesmo assim, às vezes a gente se surpreende com determinados sanduíches que a gente vê: não têm picles, têm um abacaxi enorme para ser descascado e outras coisas desse tipo dentro que o desvirtuam completamente. Tanto que ocorre um processo de credenciamento e descredenciamento na emissora. O que você vê, Brasil afora, em termos de rádio, às vezes coloca em dúvida essa questão da credibilidade do rádio, como é que o rádio persistiu a tudo isso. Porque ele persistiu. O enfraquecimento, o empobrecimento do rádio, principalmente, permitiu a invasão das igrejas. Porque, se pensarmos no rádio como negócio, as igrejas são hoje o maior empecilho, porque elas não ganham dinheiro com o rádio, usam o veículo rádio e o financiam com o dinheiro do dízimo. O fato é que, quando a igreja investe no rádio, ela está apenas explorando o rádio. Lembro de uma história que aconteceu há quatro ou cinco anos: fui convidado para conversar com um empresário que já tinha feito um investimento muito forte em Internet. Ele me disse: "Nós temos um grupo de financiadores e queremos montar uma rede nacional de rádio. Temos projetos para isso, queremos tais e tais capitais e precisamos de uma programação. A idéia está em andamento, mas tem um empecilho: são as igrejas. Porque, quando a gente chega a uma cidade e identifica que existe uma emissora de rádio que possa ser interessante, a rádio custa R$ 1 milhão. Quando a gente oferece R$ 1 milhão, o empresário diz que já vendeu por R$ 2 milhões para a igreja tal". Só que eles, que são financiadores, sabem que aquela emissora não vale R$ 2 milhões. Aquilo lá quebra, se você depender do seu investimento. Não tem como competir com as igrejas. Elas oferecem um valor irreal.

Jornalirismo – Esse é um pouco o mercado da fé, mas tem um mercado laico, que busca outro tipo de informação.

Mílton Jung – Sim, tem outras coisas. Aí vem a exploração política, que é a mais grave de todas. Você vai para o Nordeste do Brasil, as rádios estão nas mãos dos políticos. Você pega a capital: tem duas emissoras de rádio fortes. Quem são os donos dessas rádios? A família tal e a família tal. Que são as famílias que exploram politicamente aquela região, que dividem o embate político desde sempre, desde a chegada de Cabral ao Brasil. Mas, aí, você pensa: "Não é porque está na mão de um político, ou de um grupo político, que eu não possa fazer um negócio sério, crível". Aí você vai ouvir a programação: é um negócio absurdo, vergonhoso. E mais vergonhoso ainda é quando você analisa o investimento publicitário público na emissora. Se o grupo político dono de uma rádio está no poder, toda a verba publicitária, toda ela, vai para aquela emissora de rádio. Não tem isto: "Vamos equilibrar, vamos dar 70% para essa aqui, que tem mais audiência, mais voltada ao público que interessa (pode usar a desculpa que quiser), e 30% para a outra". Não, não dá um tostão, para ver se ela quebra. E, na próxima administração, se mudar o governo, a verba vai migrar da mesma maneira. É vergonhoso.

Jornalirismo – Então, a independência praticamente não existe?

Mílton Jung – Nesse nível, não existe. Em nenhum lugar, não digo. Existem investimentos em rádio que são interessantes. Eu vim de uma terra, o Rio Grande do Sul, onde o rádio é uma tradição até hoje. O rádio continua muito forte lá. Isso, você encontra em outras praças, Minas Gerais, o Rio de Janeiro tem uma concorrência muito forte, São Paulo, nem se fala, a maior concorrência está aqui. Então você vai evitando essas coisas. Você vai pegar algumas capitais [com problemas maiores de independência] e no interior, onde a coisa é muito mais complicada, o processo é pior ainda. Esse processo geral fere muito a imagem do rádio. Mas acho que uma coisa saudável vem acontecendo, e a Internet nos ajuda nisso: é muito interessante quando você recebe mensagens aqui, em São Paulo, no meu programa [o "CBN São Paulo", de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 12h], de gente que está nos ouvindo lá numa cidadezinha do interior, numa capital qualquer Brasil afora, e está ouvindo a rádio pela Internet. Escrevendo assim: "Porque não dá para ouvir as rádios aqui, da cidade". E às vezes até dizem assim: "A CBN daqui não dá para ouvir". E é até um alerta para a gente. Porque, quando alguém nos manda um e-mail como esse, vai direto para a diretoria de jornalismo, e eles vão fazer uma pesquisa para saber o que está acontecendo lá. E, às vezes, se descobre: "Opa! Estão usando errado. Corta". Porque está lá previsto no contrato: não pode isso, não pode aquilo, está tudo escrito. Não pode pôr abacaxi no lugar dos picles. Trocou? Você tem direito a cancelar o contrato, não tem nem multa. É interessante perceber que a Internet começa a permitir que se fure esse bloqueio. Mesmo que a pessoa se encontre distante daqui, se ela tem interesse em informação com credibilidade, vai buscar essa informação na Internet. No veículo rádio, mas através da Internet. É legal, porque começa a minar esses focos que existem país afora. Vai ser um processo que vai demorar muito, não tenha dúvida nenhuma, mas, à medida que as pessoas começarem a usar o computador para buscar informação, vai se combater esse tipo de ação, pequena, politiqueira. E acho que o rádio vai ganhar mais fôlego através disso. A Internet é o grande oxigênio do rádio.

Jornalirismo – E, para abrir uma rádio pela Internet, você não precisa de outorga, concessão, pelo menos por enquanto. Não sei se as regras vão mudar.

Mílton Jung – Pelo menos por enquanto – e vai ser cada vez mais difícil o controle. Vamos pegar o caso que aconteceu recentemente na Venezuela em relação à televisão [fim da concessão da RCTV, Radio Caracas Televisión, pelo governo Hugo Chávez]. Era uma tevê de canal aberto, foi fechada. Foi para Miami e começou a transmitir sua programação de lá, e você ouve, assiste pela Internet, por cabo. Aí, claro, você começa a restringir o público. A audiência caiu, a penetração daquela emissora vai cair. Mas isso é um processo de longo prazo. Com o tempo, todos nós vamos começar a migrar para essa tecnologia. O cenário que enxergamos hoje, daqui a não sei quantos anos, não tem como precisar, vai ser completamente diferente. A impossibilidade de um cidadão ter um computador na sua casa vai cair. É natural que caia. Eu tenho aqui, em casa, o primeiro celular que foi lançado, que é um telefone desse tamanho [Mílton simula o tamanho grande com as mãos]. Era um preço absurdo quando compramos aquele celular, vergonhoso o que se gastava de dinheiro para andar com aquilo. E você andava com aquilo achando que era o máximo, pendurado na cintura, porque, senão, tinha que andar num carrinho, de tão grande [risos]. Hoje todas as pessoas têm celular, minha empregada tem celular, o jardineiro tem celular, o carroceiro tem celular. Isso tem acontecido naturalmente na nossa vida e vai acontecer com todos os aparelhos, não tenha dúvida disso. E o resultado poderá ser uma informação mais democrática. A tecnologia será importante também para melhorar a qualidade do conteúdo, que é um segundo processo. O conteúdo é coisa completamente diferente de tecnologia. Nós temos aí muitas rádios tecnologicamente muito avançadas – até porque a tecnologia fez com que os equipamentos ficassem mais baratos, com alcance maior, com mais qualidade de som –, mas com conteúdo zero. A qualidade do que é colocado no ar tem a qualidade do que se fazia há cinqüenta anos, na "rádio do poste" [rádio amadora, de bairro, feita com alto-falantes pendurados no poste da rua].

Jornalirismo – Estive uma manhã no estúdio da CBN, em São Paulo, acompanhando o trabalho dos profissionais. Saí de lá pouco antes do início do seu programa. E pude notar que a prática do "gilete press" [a leitura, no rádio, de notícias publicadas pelos jornais e revistas], iniciada lá atrás, com Roquette-Pinto [precursor do radiojornalismo no Brasil, no começo da década de 1920, no "Jornal da Manhã", transmitido pela Rádio Sociedade do Rio de Janeiro], continua em vigor.

Mílton JungSim, ela continua. Mas, primeiro, vou dizer a você uma coisa: não deve haver preconceito de se ler ou reproduzir informação de qualidade, de qualquer fonte que tenha credibilidade. Acho que isso é uma bobagem: "Ah, o jornal tal deu, não vamos mais dar. A rádio tal deu, então não vamos falar". Notícia é notícia, não importa por quem tenha sido divulgada. E, se tiver que dar a fonte, dê a fonte. Mesmo que seja a rádio concorrente, o jornal concorrente. E eu não tenho o menor pudor de fazer isso. Torço para que os outros que estiverem me ouvindo, nas outras redações, se tiverem que reproduzir, que o façam também. Eu canso, inclusive, de dizer até o nome do repórter que escreveu a matéria, a reportagem que eu estou lendo. Qual é a vergonha de eu dizer isso? O que não pode é basear a sua programação em cima de um jornal ou de uma fonte só. Você tem que ter produção própria.

Jornalirismo – Como fica a questão da produção própria na CBN?

Mílton Jung – Vamos pegar o caso da CBN. Temos 24 horas de programação. Seria injustificável não ter na programação que leva ao ar a leitura do que está no jornal, reprodução do que saiu na televisão, informações que vêm da área de escuta [formada pelos profissionais encarregados de ouvir o noticiário das outras rádios; este jornalista exerce a função de radioescuta e normalmente é realizada por quem está iniciando na profissão ou estagiando na rádio]. Não há a menor justificativa para não fazer isso. Todos nós, do jornalismo, fazemos isso. Passamos o dia inteiro ou ouvindo ou assistindo aos outros para também ter inspiração e fazer o nosso trabalho. O que não pode, e é o que acontece, em muitas emissoras Brasil afora, é fazer de conta que tem um departamento de jornalismo, e o seu departamento de jornalismo ter como fonte de produção apenas a leitura dos jornais ou a reprodução do que sai na Internet. Agora é mais fácil ainda: você não precisa nem ter assinatura de jornal, vai na Internet e copia tudo que está lá e põe no ar. É o ctrl+c, ctrl+v.

Jornalirismo – É o "gilete press" moderno.

Mílton Jung – Antigamente, o cara cortava o jornal com a gilete, mesmo, com essa lâmina de barbear, e colava na lauda. Por isso que era "gilete press". Era colado na lauda e depois lido no ar. O que é diferente de pegar o jornal – e eu, quando apresento meu jornal, tenho todos os jornais espalhados na minha mesa – e, a partir daquelas informações, desenvolver outras coisas, ou, talvez, dizer que estou lendo mesmo tal coisa. Sabe o que me incomoda, mesmo? É quando você pega um texto escrito por um redator de rádio e o texto é igualzinho ao que está no jornal [leia mais sobre a redação para o rádio em "A indesejada profissão de redator de rádio", aqui]. Isso, sim, é o "gilete press". É diferente de você estar apresentando um programa: eu estou passando um panorama para as pessoas sobre o que acontece na cidade de São Paulo e, dentro desse panorama, é evidente que os jornais são fontes de informação. "Bom Dia São Paulo" [programa que vai ao ar, pela TV Globo, às 6h30, de segunda a sexta-feira] é fonte de informação para mim, eu tenho um programa voltado para São Paulo. Eu assisto ao programa e tem coisas que saíram ali que eu levo para o ar. Digo: "Assisti hoje, no ‘Bom Dia São Paulo’, tal informação". Por que não fazer isso? O que é errado é o cara pegar o texto do jornal, o texto da Internet e colocar no ar, ipsis literis.

Jornalirismo – O que você esperaria que esse cara fizesse, então?

Mílton Jung – O jornal é fonte de informação, sim. Seria um absurdo se não fosse, seria burrice de nossa parte. Mas você tem que pegar aquela informação e traduzir para o rádio. Nas muitas leituras que tive de fazer para escrever um livro – acho que comprei mais livros para escrever Jornalismo de rádio do que eu vendi até hoje –, numa delas, de Ivan Tubau [o catalão Ivan Tubau, autor do livro Periodismo oral], que é um filósofo também ligado ao jornalismo, diz assim: "Quem escreve para quem ouve escreve como se fala". Quando eu escrevo para o rádio, estou escrevendo para você, que está ouvindo. Então, quando eu conto uma história, quando escrevo essa história, o texto que vou ler tem que ser como falo. Tem que saber fazer essa tradução. Mas, hoje, não se faz; é difícil encontrar, mesmo em São Paulo, onde você tem o mercado mais forte de rádio – são cinco emissoras jornalísticas. Se você pegar o Ibope, hoje, vai ver que, pela manhã, entre 7 e 8 horas da manhã, 40% da audiência de São Paulo está ouvindo notícia no rádio. Provavelmente, no carro. Não quer dizer que elas estejam ouvindo rádios jornalísticas – porque tem rádios que não são jornalísticas, mas que, nesse horário, têm programa jornalístico. Até para cumprir sua obrigação na legislação brasileira de ter um percentual de notícias mínimo. Então você tem um volume muito grande de produção jornalística em rádio, principalmente nesse horário. Mas boa parte dessa produção é uma reprodução do que está na Internet e nos jornais. Não é traduzido para o ouvinte. E não é traduzir a informação dizendo o que significa a reforma tributária ou reforma política, é traduzir o texto, a forma de escrever. Isso, talvez, seja a coisa mais triste no rádio: escreve-se muito mal para o rádio. Um tempo atrás, fui numa fonoaudióloga e comentei as dificuldades que tinha de leitura disso, daquilo e tal. Ela tinha me pedido para levar um texto, e eu levei um deles, que lia naturalmente. Li para ela. Ela falou: "Não é por acaso que você tem dificuldade, este texto não é para você ler, não tem como ler no rádio, não foi escrito para isso". Então essa lição do Ivan Tubau é chave para mim. Ele usa, depois, uma situação interessante que é a seguinte: para escrever para o rádio, você precisa ouvir a balbúrdia da rua e depois apenas corrigir. Vai para o plenário da Câmara Municipal e reproduz o que as pessoas falam, da maneira que elas falam. Quando você chegar à rádio, não pode botar ipsis literis o que elas falam, mas tem que usar aquele linguajar, aquela forma de falar delas e reproduzir isso no rádio. Ninguém faz.

Jornalirismo – Acho também que não tem ninguém que ensine isso.

Mílton Jung – Não, não existe, porque se investe muito pouco no rádio, no ensinamento para o rádio. Veja a televisão: ela tem uma linguagem própria, ela conseguiu marcar uma linguagem dela. Tem esse cuidado para se fazer cabeças de reportagem [cabeça de reportagem é a abertura de uma reportagem de tevê, com leitura feita pelo apresentador]. O texto da televisão é mais bem elaborado, até porque passa em mais mãos do que o texto do rádio. O texto do repórter passou por, no mínimo, quatro mãos. As dele e a do editor de texto. E, às vezes, até nas mãos do editor executivo, do editor de imagens, que também avalia isso. Tem várias cabeças pensando aquele texto. Como é que funciona hoje a produção da reportagem de rádio? Você vai entrevistar o delegado, e ele diz assim para você: "O meliante vai passar pela oitiva". Aí o repórter leva para o ar, ele não diz que é o meliante, isso nós já aprendemos que não dá para falar, mas ele continua dizendo que o cara vai fazer uma oitiva. Oitiva? Se a oitiva estivesse no Kama Sutra [obra indiana clássica sobre a arte de amar], ficava mais fácil de entender [risos]. Pelo menos, você pode parar para pensar no que significa uma oitiva. Não dá para querer que o cara, dirigindo o seu carro, com uma série de informações no entorno dele – menos mal que o Kassab [o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, do DEM] mandou tirar as propagandas [Lei Cidade Limpa, em vigor, na capital paulista, desde o início de 2007, proibindo a propaganda em mídia exterior, em outdoors], é uma coisa a menos competindo com a informação que está no rádio do carro...

Jornalirismo – Foi bom para o rádio?

Mílton Jung – Foi ótimo para o rádio e excelente para os jornais de sinal de trânsito. Esses jornais só passaram a existir porque se acabou com a publicidade na cidade. Hoje peguei um jornal, o Destak, ele tinha três capas, as duas primeiras eram de publicidade.

Jornalirismo – Foi um espaço que a publicidade acabou encontrando?

Mílton Jung – É lógico. E que é muito melhor do que o outdoor. Porque vem com qualidade na sua mão, fica com você o tempo inteiro, você joga no banco do lado, está lá no banco aquela publicidade chamando a sua atenção, e colado à credibilidade do jornalismo. Para a publicidade, foi ótimo, os publicitários são ótimos para isso. O Ronnie Von me perguntou uma vez, no programa dele [o programa "Todo Seu", de segunda a quinta-feira, na TV Gazeta, das 22h às 23h45], ele e um publicitário, num tom crítico, sobre aquela história do Cidade Limpa. E eu fiquei numa saia justa, porque ele tinha uma posição contrária; na hora, por uma obra divina, me veio uma iluminação: "Acredito nos publicitários. Os publicitários são geniais para descobrir novos espaços". E os publicitários estão aí, resolvendo toda essa polêmica. O Terra, que publicava informação no back light [um tipo de outdoor], agora bota dentro do shopping center. Público selecionado, caminhando, focado, a resposta é muito melhor. Sem contar que aquilo ali pode ter uma publicidade da loja que está lá dentro. Você vê e compra na hora, no impulso, se você quiser. É muito melhor do que outdoor e não enfeia a cidade. Voltando para o rádio: você imagina falar oitiva para o cara que está dirigindo, prestando atenção nos motoboys que estão passando dos dois lados dele, prestando atenção nas pessoas que vão atravessar a rua fora da faixa, no "marronzinho" [como são chamados os fiscais de trânsito da CET] que está louco para multar você. E o cara ouve oitiva no ar. O que é oitiva, o que significa? É um depoimento, o cara vai ser ouvido pelo delegado. Se disser isso, não é muito mais fácil? Mas o cara não se dá ao trabalho de traduzir aquilo.

Jornalirismo – Isso se deve a uma falta de treinamento? De conhecimento?

Mílton Jung – Deve-se a uma falta de atenção. Falta de paciência. Deve-se ao piloto automático que você tem na sua vida, não só no jornalismo. Pessoas vivem no piloto automático, não se perguntam por quê. Na realidade, é isso: falta ao jornalista perguntar por quê. E não é perguntar para a fonte por quê, é perguntar a si mesmo por quê. "Por que faço isso? Por que tenho de levar isso ao ar? Por que digo isso? Por que escrevo assim?" Eu, quando trabalhei na rádio Guaíba, de Porto Alegre, meu primeiro emprego em jornalismo, puro nepotismo – meu pai trabalhava lá...

Jornalirismo – Quando foi?

Mílton Jung – Foi em 1984. Comecei no esporte. Outro absurdo também: ter no rádio um departamento de jornalismo e outro de esporte.

Jornalirismo – Esses departamentos têm regras diferentes?

Mílton Jung – Têm, mas não deveriam.

Jornalirismo – Quem ganha mais?

Mílton Jung – O cara que faz jabá [veicular notícia em troca de vantagens, dinheiro, bens] no rádio esportivo, não tenha dúvida. Quem faz merchan [merchandising] no rádio esportivo ganha uma fortuna. E é impressionante como essas coisas sobrevivem no rádio até hoje. Quando a gente começar a fazer jornalismo esportivo, vai ficar mais fácil. Quando fui para o departamento de jornalismo, tinha me incomodado com algumas coisas do esporte, um dia me dei conta: "Que eu faço no jornalismo? Chego aqui na redação, o editor me passa um pedaço de papel (porque as pautas então saíam num pedaço de papel, várias pautas, cortava um pedaço com a régua), dizia assim: ‘Ouve o Fulano de Tal da Associação Comercial sobre o pacote econômico´". Aquela época tinha pacote econômico todo dia. Aí pegava o telefone: "Fulano, tudo bem? Sou Fulano de Tal". "Oi, senhor Fulano de Tal, tudo bem." "Você viu esse pacote? O que o senhor acha disso?" "Ah, acho isso..." "Mas por que o senhor pensa assim?" "Ah, por causa disso, tal, tal, tal, tal, tal." Aí eu chegava, pegava a máquina de escrever, datilografava, pá, pá, pá, pá, pá, reproduzia o que o cara me dizia e passava para o editor-chefe. Aí, ele dizia: "Grava um boletim para o jornal de tal horário". Aí pegava aquilo e gravava: "O Fulano de Tal, presidente da Associação Comercial, tal, tal, tal, tal, disse o seguinte". E colocava uma falinha do cara e tal. Um dia pensei: "Vem cá, por que eu faço isso? Para que serve essa informação que eu estou dando? De que adianta o ouvinte saber que o Fulano de Tal, da Associação Tal, pensa tal coisa sobre esse assunto? O que muda na vida dele?" Comecei a achar que, se dissesse para o cara que a avenida Ipiranga, em Porto Alegre, está congestionada, tinha mais valor do que o empresário tal pensar tal coisa. Pelo menos ele mudaria o caminho da casa dele para chegar ao trabalho, desviaria. Quando comecei a me perguntar, comecei a me frustrar com as respostas que encontrava. Comecei a achar que meu trabalho não servia para nada. Passei a cobrar e a entrar num processo de diferenças com os meus chefes, acabei indo embora, fui trabalhar em televisão, no Rio Grande do Sul, mesmo. Depois descobri, com o tempo, que o mais errado era eu, até por falta de experiência. Eu, na verdade, estava seguindo o manual que todos seguiam, que era mais fácil fazer aquilo: qual sua opinião?/reproduz opinião e vai embora. O que acontece hoje, com boa parte das pessoas, e não só com jornalistas, é que a gente liga o piloto automático e não se pergunta por quê. Aí a gente reproduz a oitiva no ar e acha que está tudo certo. E, quando você pergunta por que o cara fez isso, já fiz essa pergunta na redação, o cara não sabe responder. Quando a gente começar a perguntar por que faz, por que fiz, nós vamos começar a mudar nossa posição em relação ao jornalismo, em relação ao nosso trabalho. E não é só no rádio, não; é em todos os veículos de comunicação.

Jornalirismo – Mas você não acha que acontece no rádio, em específico, um problema de auto-estima dos profissionais? Você falou que a Internet paga pior, mas o rádio também paga muito pouco.

Mílton Jung – É que o cara da Internet é mais motivado, porque acha que está trabalhando no futuro. E acha que um dia vai ser o dono. Um dia vai abrir seu site e ficar rico, assim como você, não é? [risos] O cara pensa: "Estou aqui para aprender; amanhã vou abrir um site que vai ser um baita sucesso e vou conseguir vender para os espanhóis depois. Vou ficar rico da noite para o dia". Então o cara fica lá, trabalhando.

Jornalirismo – No rádio não tem essa ilusão?

Mílton Jung – Não tem mais essa ilusão. O cara jamais pensa em ser o dono da rádio, não imagina mais essa possibilidade. Descobre que não pode ser.

Jornalirismo – Mas o profissional de rádio tem essa baixa auto-estima?

Mílton Jung – Se tem, não é uma desculpa.

Jornalirismo – No rádio o cara tem dinheiro para se formar bem?

Mílton Jung – Você não precisa ter dinheiro para se formar. Acho essa uma boa desculpa para a gente. Já fui editor-executivo e editor-chefe em televisão, e já fui repórter também, e a melhor coisa que pode acontecer para um repórter de televisão, quando sai para a rua, é descobrir que a pauta está errada. Que é a desculpa que você queria para chegar à redação e dizer: "Minha matéria não está boa porque a pauta estava errada". Quando não dá certo, é a melhor desculpa que tem. Tudo bem, tem pauta que é um horror, mas digo para o repórter: "O que você tentou para fazer disso um trabalho melhor? É a sua cara que vai aparecer na passagem [no jornalismo de tevê, é o momento no qual o repórter entra em cena, falando diretamente para a câmera]". Você sabe que o cara, quando entra na faculdade, ele sonha em fazer televisão só para fazer a passagem. Tudo que ele quer é que o pai dele veja, e tem todo o direito; afinal, o pai financiou a faculdade do cara quatro anos, pagou uma fortuna para ver o filho na tevê e contar para os amigos que o filho dele aparece na televisão. Então tem que fazer uma passagem boa para aparecer na televisão. O que tem antes e depois da passagem não interessa, só ela interessa: "Puxa, está lindo, maravilhoso". Então dizia para o repórter: "Na passagem, a cara que vai aparecer no ar é a sua, não é a do pauteiro [o jornalista responsável por propor assuntos para a cobertura jornalística], não é a do editor de texto, não é a do seu chefe". E concluía assim: "Que porcaria essa matéria, essa sua reportagem".

Jornalirismo – Como é a sua relação com os repórteres e a equipe? Você barra pauta? Sugere coisas?

Mílton Jung – Sim, o tempo todo. Qual a minha rotina com o programa? Eu acordo por volta das 6h, quando não atraso, como hoje, porque, aí, atrapalha tudo. Leio jornais na Internet, leio jornal no café da manhã, assisto ao "Bom Dia São Paulo". Com base nisso, começo a pensar no que vou fazer ao longo do dia. Na realidade, hoje já estou pensando no que vou fazer amanhã. Os e-mails a que tenho acesso aqui, pela Internet, vejo o dia todo. Às vezes pego e já mando o assunto para a Fabiana Boa Sorte, que é a produtora do meu programa, para ir adiantando. Mas a rotina é assim: levanto 6h, 6h15, faço essa varredura toda, olho aqui, olho ali, leio e, se acho muito interessante, pego e coloco no blog [conheça o blog do Mílton aqui]. Tomo meu café e vou embora para a rádio.

Jornalirismo – A que horas você chega lá?

Mílton Jung – Chego por volta das 9h. E cada vez mais tarde. Saio 8h daqui, à medida que me organizo para levá-los [seus dois filhos, Gregório e Lorenzo] à escola, não abro mão disso. Então os largo na escola e vou para a rádio. Nos últimos dois anos, tenho feito essa mesma rotina e tenho chegado cada vez mais tarde. Não porque eu ande mais devagar, porque o trânsito está cada vez mais parado.

Jornalirismo – Você ouve a CBN pela manhã?

Mílton Jung – Ah, sim, mas não só a CBN. Fico pulando muito de rádio, para ver o que as outras rádios estão dando. Quando é para trânsito, estou na CBN. Quando ouço outra rádio, não é para ouvir sobre o trânsito. No meio desse trajeto, já conversei com a minha produtora: "Olha, o que você tem aí para fazer? O que eu tenho para fazer?". Ela dá as sugestões dela, eu dou as minhas. E a gente começa o programa a partir disso. Quando chego à rádio, a gente dá uma nova conversada: "O que já tem aí?". "Não consegui tal coisa ainda, mas vou conseguir. Vou ligar sobre o assunto tal..." Às 9h30, a gente vai para o ar com o programa em aberto. Às vezes, a gente só tem uma pauta fechada: entrevista marcada às 10h15 com o Fulano. Hoje nós tínhamos isso. Só que, 10h15, o Fulano não atendeu ao telefone, deu problema.

Jornalirismo – O ideal é que não se vá ao ar com o programa fechado?

Mílton Jung – O melhor é que não se vá. Não há risco nenhum. Tem notícia demais para tratar. Nunca faltou. Nunca vai faltar notícia. O que a gente tem que ter como meta é selecionar as melhores notícias para ir ao ar. O que pode realmente ter repercussão no dia-a-dia das pessoas, o que pode mexer com elas. Isso, sim, é fundamental. Não adianta fazer jornalismo para falar sobre coisas que não interessem a ninguém. Por que vai para o ar em aberto? Jornal "60 Minutos", que apresentei e de que fui editor na TV Cultura: a gente tinha uma reunião de pauta ao final de cada jornal para discutir o jornal do dia seguinte. A melhor pauta era aquela que a gente tinha derrubado no outro dia de manhã. Porque, quando a gente chegava de manhã e se reunia de novo, o ideal era derrubar todas as pautas do dia anterior, para desespero dos pauteiros e da produção. Por quê? Porque o que era de ontem já era velho. A vida estava andando, as coisas estavam em plena ebulição. Quando você chega de manhã, para fazer um jornal ao meio-dia, quer fazer coisa nova. Normalmente a pauta em que pensei no dia anterior está no jornal do dia de hoje. O que a gente pode fazer de novo? O que a gente pode avançar? Continuo pensando assim no meu programa. A pauta que surge durante o programa, para mim, é a melhor. Vou dar um exemplo recente: li uma nota do Estadão, sobre um vereador de São José dos Campos [cidade paulista, no Vale do Paraíba] que resolveu apresentar um projeto de lei obrigando os outros vereadores a usarem uniforme. Todos os vereadores teriam que usar uniforme para serem reconhecidos como tais e para não gazetearem [faltarem] as sessões na Câmara. Li aquela nota no fim de semana, fiz uma nota no blog, contei a história e sugeri o seguinte: "Qual o uniforme que o seu vereador tem que usar?". Quando cheguei ao programa, li essa história no ar e comecei a receber um catatau de mensagens. E 90% delas diziam que eles tinham que usar uniforme de presidiário. Ou daqueles uniformes das histórias em quadrinhos, roupa dos Irmãos Metralha; ou a calça cáqui do Candiru. E me chamou muito a atenção aquela idéia do cidadão dizendo que o vereador que o representa tinha que usar uniforme de presidiário. Quando começou a chegar aquilo, disse: "Fabiana, vamos discutir esse assunto". No dia seguinte, fiz um mea culpa no blog, porque eu provoquei, ironizei. Mas a coisa era mais séria do que eu estava pensando, porque estavam todos querendo colocar esses caras que nos representam na cadeia. Não só os vereadores, também deputados, senadores, a classe política de modo geral. Imediatamente fizemos uma pauta temática sobre o papel do vereador. O vereador não podia ser considerado um inimigo, um bandido, isso é um problema e fomos debater isso. E essa pauta não estava no jornal, na Internet, não estava em lugar nenhum. A reação do público não estava em nenhum desses lugares. Descobrimos, no meio do programa, e a gente fez. Acho isso muito legal.

Jornalirismo – Você pega um horário, a partir das 9h30, quando o trânsito já desafogou um pouco...

Mílton Jung – Cada vez menos.

Jornalirismo – É verdade. Mas o público maior está entre 7h e 8h, como você falou. Então você tem uma liberdade maior talvez na temática, quase como uma revista, um pouco mais informal. Você tem o tom mais informal, é um cara mais informal, não é isso?

Mílton Jung – O rádio é mais informal, é mais conversado. Acabou a idéia daquele locutor com aquela voz formal, quadrada [Mílton engrossa a voz e adota tom formal, como o locutor de antigamente], que parece um exército avançando contra as pessoas. Para o estilo de jornalismo que a CBN faz, isso não cabe mais. A informalidade é uma marca da CBN, identificável pelos ouvintes. E como eles gostam disso... Há pouco tempo, estive na Áustria e conversei com um cara, estrangeiro, que foi presidente de uma das montadoras aqui, no Brasil, e ele me disse algo impressionante: "Primeiro, aprendi português com vocês, ouvindo a CBN. Segundo, vocês não têm idéia da companhia que me faziam. Eram minha companhia no Brasil". E é isso que a gente busca, não a companhia antiga, assistencialista, que o rádio fez muito, companhia nesse sentido, da pessoa em quem ela confia, que ela ouve e sabe que vai ter a informação que quer, que a informação que está indo ao ar tem credibilidade, que pode ser usada. Voltando ao assunto do piloto automático dos jornalistas. Eu participei recentemente do júri de um prêmio. Li, vi e ouvi 32 reportagens. E fiquei impressionado com a falta de criatividade. Poucos foram os trabalhos que me ofereceram algo realmente interessante, curioso, que me chamasse a atenção.

Jornalirismo – Qual era o prêmio?

Mílton Jung – Não vou dizer qual era o prêmio, porque não é justo com quem se inscreveu e dele participou. Não cabe essa crítica direta a essas pessoas. Mas isso, para mim, é significativo. A repetição de dados. Fiquei pensando, quando vi aquilo: "Como nós somos reféns dos números...". Aliás, minha mulher [a também jornalista Abigail Costa, ex-TV Globo, hoje no jornalismo da Rede Record] uma vez me falou isso. Ela foi fazer uma reportagem sobre o Dia de Finados. Essas pautas tradicionais, mandam você para dentro do cemitério. E ela cruzou com uma outra repórter, que dizia: "Poxa, mas eu não tenho nenhum dado aqui, não tenho um número!". Você não precisa de número para fazer essa reportagem, quantos cemitérios existem no país, quantas pessoas morrem... Tem uma série de histórias para serem contadas – e excelentes histórias: a mulher que vai há 20 anos no mesmo dia, a família que só vai no Dia de Finados, mas esquece o morto no resto do ano, a mulher que vai toda semana, o homem que mantém sua paixão... E as pessoas se prendem aos números. É só número.

Jornalirismo – Isso acontece no rádio e em qualquer outro veículo?

Mílton Jung – Em qualquer outro veículo. "Ah, se tiver um número, eu tenho a reportagem." Faltam histórias de pessoas, faltam personagens. E isso eu acho fundamental: saber enxergar os personagens, as pessoas na notícia. As nossas notícias são muito secas, herméticas, são sem sal, sem alma. Você não pode ir a um incêndio numa favela para dizer que tantos barracos queimaram, tantas famílias perderam casas e tantos carros de bombeiro estão no local – porque essa é uma informação crucial no jornalismo, não é? Quantos carros de bombeiro estão atendendo aquele fato? O que significam nove ou vinte? Podem até significar para o chefe de reportagem, para saber se vai mandar repórter ou não. "Só foi um carro de bombeiro." "Ah, então esquece." "Foram vinte." "Opa, foi incêndio grande!" Essa informação pode ser que sirva para isso, mas como informação na reportagem não tem o menor significado. Interessa assim: "Quem é o Fulano de Tal daquela casa lá que pegou fogo? Cadê ele? Quanto tempo esse cara está morando aqui? Por que ele mora aqui? Ele vai voltar a morar aqui?" "Vai, vai voltar a morar aqui, vai construir aqui de novo." "Por que ele vai morar aqui de novo?" "Porque o trabalho dele está aqui perto. Não interessa a ele ir para uma casinha melhor lá no extremo leste da cidade. Não, ele prefere ficar naquele barraco, que é onde ele consegue dinheiro, fica perto do sinal que tem movimento de gente rica, que paga mais gorjeta." Essa história é uma história significativa para mim, essa história tem alma. Mas as pessoas têm dificuldade de enxergar o cidadão por trás disso.

Jornalirismo – Aquela crise inicial do rádio, com o surgimento da tevê e a migração das verbas, parece perdurar até hoje. O rádio parece à procura da sua identidade, apesar de sua credibilidade, maior que a da tevê, e de estar no bolso do brasileiro. Onde tem um brasileiro tem um cara com um radinho, é o companheiro desse cara, do cara simples, do cara pobre. E, agora, a CBN colocou uma câmera de vídeo no estúdio [para que o ouvinte possa acompanhar, pela Internet, as imagens do programa, veja aqui e depois clique em "Estúdio CBN"]. Como é que fica para o rádio? Isso ajuda? Melhora?

Mílton Jung – Melhora.

Jornalirismo – Você é a favor disso?

Mílton Jung – Sou totalmente a favor.

Jornalirismo – Assim não vira tevê?

Mílton Jung – E daí? Não tem problema nenhum. Se, amanhã, todos tiverem televisão no seu celular, ou nesse aparelho que a gente chama de rádio hoje tiver uma imagem, vamos fazer isso. É um processo natural.

Jornalirismo – O rádio vai acabar?

Mílton Jung – Não. Enquanto tiver alguém que emite o áudio, o som, para alguém que o recebe, sem que ele consiga responder [risos]. Por que o ouvinte é isto: eu falo e ele não consegue interferir na hora. Interfere de outras maneiras, principalmente trocando de estação. Mas o que quero dizer é o seguinte: se o rádio acabar, azar. Se as pessoas tiverem, no futuro, acesso tão fácil à imagem quanto têm ao rádio hoje, faça-se isso. Nós não somos jornalistas de rádio, de televisão ou de Internet, somos provedores de conteúdo. Desenvolvemos conteúdo. Não interessa o meio. E, hoje, a exigência do ouvinte que acompanha a programação da CBN com imagem, pela Internet, já é maior que a do ouvinte que só ouve. Chamo esse ouvinte de ouvinte-internauta. O cara que está ouvindo a rádio e manda um e-mail para mim não é só um ouvinte. Porque não manda e-mail amanhã, ou à tarde, manda e-mail no momento em que eu falei, está interagindo comigo na hora. Ou seja, ele está ouvindo rádio e navegando na Internet.

Jornalirismo – Isso é uma espécie de citizen radio?

Mílton Jung – É muito mais do que isso. Ele é um consumidor de notícia. E ele vai consumir a notícia das fontes que tiver em mãos. Talvez veja uma manchete na Internet e ligue na CBN para saber mais. E ligue a tevê também. Isto é, ele vai usar a fonte que tiver à disposição dele.

Jornalirismo – Como vai ser a CBN daqui a alguns anos?

Mílton Jung – Ela vai ser uma rádio cada vez mais interativa, cada vez mais exigida e mais exigente.

Jornalirismo – Ela está preparada para isso?

Mílton Jung – Ela está se preparando. A rádio CBN foi inovadora quando entrou no FM, foi fazer jornalismo no FM. E vejo que hoje, até pela estrutura que as Organizações Globo oferecem a ela, vai ser diferente.

Jornalirismo – Como a Globo enxerga a CBN?

Mílton Jung – Enxerga muito bem.

Jornalirismo – E o que ela espera da CBN? O que é estratégico ali?

Mílton Jung – Que continue mantendo a credibilidade que ela tem – e o faturamento que ela tem, pode ter a certeza disso. Porque jornalismo é um negócio. Se não for visto como negócio, não funciona. Se você, no seu site, não olhar seu trabalho como um negócio, amanhã você vai ter que desligar o computador, porque não vai dar mais para fazer isso.

Jornalirismo – Ver como negócio impõe certos limites?

Mílton Jung – Não sei se impõe limites. Acho que não. Você é quem vai impor seus limites.

Jornalirismo – Se, por exemplo, uma grande montadora resolver me apoiar no site. Eu tenho uma vontade tremenda de falar sobre os problemas do automóvel na cidade grande...

Mílton Jung – E você não vai falar?

Jornalirismo – Era isso que ia perguntar. E se o anunciante chegar e disser que não vai mais me patrocinar?

Mílton Jung – Você dá um hands shake ali para o cara, balança a mão dele e diz: "Muito obrigado. Agradeço a você pelo tempo que me apoiou". E vai tocar seu negócio. Ou então você se entrega. E, aí, acho que você vai começar a achar assim: "Que frustrante trabalhar em jornalismo. Vou vender banana pela Internet, que eu ganho muito mais". Aliás, lembro que falei isso, quando estive numa cidade do interior. Era uma palestra sobre jornalismo esportivo, porque eu narrava futebol na Rede TV! à época e os caras achavam que eu entendia do assunto. Um rapaz me falou assim: "Mas aqui, na cidade, como é que eu vou fazer isso que você está falando? O dono da rádio é o dono do time de futebol. Como posso fazer esse jornalismo de que você está falando?". Respondi: "Não faz. Vai vender banana. Cobra preço justo, oferece a melhor banana para o cara e arruma uma facilidade para ele comprar a sua banana, não a do vizinho. Você vai se sentir realizado vendendo banana. É muito melhor do que fazer jornalismo cerceado por esse tipo de situação". Que prazer você vai ter de fazer isso? Tem uma coisa que a sociedade precisa enxergar – e, quando digo a sociedade, digo os empresários: quando o cara decide botar um anúncio na rádio CBN, não é porque a gente fala de coxa de galinha, é porque fala de coisa séria, e cobra. Porque a gente tem credibilidade. E só tem credibilidade porque as pessoas que nos ouvem acreditam que o que estamos falando é verdade, que o que estamos falando é sério. Se o cara vai lá e compra o espaço publicitário, investe uma fortuna – porque paga caro para anunciar na rádio CBN, a tabela da CBN está acima da tabela de rádio por causa da credibilidade que construiu –, como ele se acha no direito de querer interferir? "Ah, mas não fala mal do meu banco, estou anunciando com vocês."

Jornalirismo – Ele, talvez, não fale. Mas será que não existe uma autocensura do próprio veículo? "Olha, gente, tem um anunciante de cerveja aqui dentro e não vamos falar de alcoolismo no Brasil". Não existe isso?

Mílton Jung – Na rádio CBN, isso não existe. Nunca. Estou na rádio CBN desde 1998 e nunca houve nenhuma imposição em relação a isso. Se tem um problema, fala-se do problema. Qual é o maior anunciante hoje, no Brasil? Casas Bahia.

Jornalirismo – Não faz mal a ninguém.

Mílton Jung – Faz, sim. Tem cara que comprou e não recebeu. Eu nunca deixei de ler um e-mail disso porque eles são o maior anunciante. E nunca me cobraram por ter lido. Pode até ser que o patrocinador, um dia – e isso já deve ter acontecido várias vezes –, tenha ligado para a emissora para reclamar. Agora, o que é fundamental para que uma emissora jornalística tenha credibilidade: saber separar o comercial do editorial. É evidente que o cara do comercial é pressionado. Está lá tentando negociar com o cara uma grana, dinheiro para entrar, dinheiro no bolso dele, inclusive, que ele tem participação, aí eu vou lá e desço o cacete no cara. O cara vai ligar: "Poxa, acabei de anunciar e vocês estão dando pau em mim?!".

Jornalirismo – Ele poderia falar assim: "Vou sair dessa rádio agora".

Mílton Jung – Pode sair.

Jornalirismo – Mas você não sofre uma pressão, "Mílton, pelo amor de Deus, Não dá essa notícia aqui!..."?

Mílton Jung – Isso eu posso dizer a você: nunca houve na rádio CBN. Aliás, vou dizer a você outra coisa: nunca sofri isso em lugar nenhum por onde passei. Nunca ninguém me disse: "Não fale desse patrocinador ou dessa empresa porque ela anuncia aqui". Agora, sou um cara que pode se considerar um privilegiado. E, aí, tem uma regra que é fundamental: coerência. Porque, se você for coerente na maneira de atuar, for correto – e o que é correção? O cliente da Casas Bahia reclama que comprou um produto e o recebeu com má qualidade. Qual é a minha correção? Vou ligar para a Casas Bahia: "Tem um cliente tal, dizendo tal coisa. O que vocês querem dizer sobre esse cara?". "Ah, não vamos falar sobre assunto, que é absurdo." "Você tem uma resposta para dar ou não tem?" "Temos." "Então dá a resposta, que eu vou levá-la." O tratamento que tenho que dar a ele é igual ao tratamento que devo dar a qualquer outro cidadão. É a regra básica do jornalismo. Se você quer fazer jornalismo, tem que ter a coragem de dizer isso.

Jornalirismo – Como assim? Dizer o quê?

Mílton Jung – "Desculpe-me, mas eu faço jornalismo. Não vou aceitar isso." E a sociedade, os anunciantes têm que compreender esse processo. Quando um cara compra espaço num veículo de comunicação, compra para agregar ao seu nome a credibilidade que aquele veículo tem. Se acha que pode interferir no espaço editorial, está fazendo um gol contra. Porque está atacando exatamente aquilo que comprou. Ele pagou mais caro pela credibilidade que aquela emissora tem. Se quiser influenciar no editorial, vai atingir essa imagem de credibilidade.

Jornalirismo – E vai descer a ladeira junto.

Mílton Jung – Vai. Aliás, a CBN teve uma discussão muito típica, porque ela surgiu em 1991, período em que começaram as CPIs [Comissões Parlamentares de Inquérito] do Collor [denúncias de corrupção contra o então presidente, Fernando Collor de Mello, que culminaram com a abertura do pedido de impeachment dele e a renúncia ao cargo, em 1992]. E a CBN ganhou força, no seu início, porque era a única emissora que abria sua programação para transmitir toda a CPI, 24 horas. Houve uma briga enorme lá dentro. Imagina o cara que vendeu um anúncio para entrar tais e tais horários e, de uma hora para outra, dizem a ele: "Não vai entrar mais nesse horário, nós vamos ficar transmitindo lá". É evidente que houve um choque enorme. E o choque existe até hoje. E é até interessante que tenha, cada setor olhando por sua área, os seus interesses, e negociando. É uma negociação constante. Ficava uma discussão interessante: "Como vamos abrir mão, hoje, desses anúncios? Precisamos botar no ar, como a gente vai botar?" "Nós temos esse noticiário aqui. O ouvinte está com a gente hoje porque sabe que, aqui, vai ouvir tal coisa. Então vamos tirar isso do ar e colocar só anúncio? Esse cara vai trocar de rádio. Teu anunciante, que está pagando para ter mais gente ouvindo o anúncio dele, está sendo enganado também, porque nós estamos afugentando a audiência". Isso vai existir sempre. É saudável, vai acertando, vai errando. A CBN já fez isso, mas chegou uma hora em que abriu mão: "Espera aí, tenho conteúdo para oferecer". "E meu anunciante?" "Seu anunciante vai entrar mais tarde." É um jogo complicado, mas o anunciante, o executivo por trás desse processo, precisa entender. Se ele não compreender, azar o dele. Nós não podemos ficar arrependidos. Até porque não dá mais para enganar ninguém. Temos uma quantidade de fontes enorme. Não dá para dizer que sou hegemônico. A palavra oficial do país não é mais a do "Jornal Nacional". Se o "Jornal Nacional" quisesse, por hipótese, lançar uma grande mentira no país, não se sustentaria.

Jornalirismo – Você é um cara bem otimista. Você acha que a democracia vai crescer daqui para a frente?

Mílton Jung – Claro que vai. Não só pela tecnologia, também pelo amadurecimento das pessoas. Uma coisa que me incomodou muito nessa pauta dos vereadores: o olhar de que eles são "bandidos". Esses "bandidos" fomos nós que escolhemos. E nós vamos escolher de novo, daqui a um ano.

Jornalirismo – E tem muito radialista lá na Câmara também...

Mílton Jung – Tem um monte de radialistas. O cara escolhe o radialista porque ele é famoso. Está errado, não pode escolher o famoso; tem que pensar no projeto de governo, no projeto de ações. O Chico Whitaker [ex-vereador de São Paulo pelo PT] lembrou bem, numa entrevista que fiz com ele: de que a visão de boa parte da sociedade é a de que o vereador é o despachante. Você vai lá e diz: "Preciso asfaltar minha rua, acelera o processo lá". Ele não é um despachante, é um pensador da cidade. Agora, para concluir a questão do jornalismo e do jornalista: se, para fazer jornalismo, tenho que me entregar a todo esse processo, não faça jornalismo. Mais importante é você ser cidadão. Isso, para mim, é regra, e cidadão, uma palavra-chave de tudo que faço. Uma vez, um cara me perguntou se, um dia, fosse capa de revista, qual palavra que gostaria de ter na capa. Seria a palavra cidadão, isso é fundamental para mim. E falo isso em relação aos meus filhos. Não tenho nenhuma expectativa de que eles sejam doutores. Não interessa o que eles vão fazer na vida, quero que eles sejam bons cidadãos, pessoas corretas na maneira de agir, tenham uma visão boa, compreendam a comunidade. Minha alegria não é que o cara seja doutor. Minha alegria é que seja um cidadão. Quero que, se alguém falar deles, e isso já acontece e me orgulha muito, diga: "Como eles são legais, como são conscientes...". Isso é muito mais importante. E a formação do cidadão é meta. É melhor eu ser um cidadão honesto, vendendo banana, do que ser um cidadão desonesto, fazendo jornalismo. Não dá para fazer jornalismo, vamos vender banana. O que é melhor? "Puxa vida, mas vender banana na feira? Minha mãe me pagou quatro anos de faculdade para eu aparecer na televisão..." "Pois é. Mas ela pagou para você aparecer na televisão ou para ser honesto?"

Comentários
Celso N Cavallini | 05/11/2007
Muito legal.
Jornalismo crítico e isento
Daniel Mendes | 07/11/2007
Parabéns ao Jung pela entrevista e pelas idéias manifestadas. Gostaria de
fazer uma pergunta a ele: como é fazer um jornalismo não pautado por
interesses e ter que trabalhar com o Jabor e a Leitão?
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