Dorinha e Marly, cadê? O professor das aulas de reforço de matemática já chegou, e nada dessas meninas. Dorinha? Marly? Onde foram parar essas duas de novo?! Maaaarlyyyyyyy?! Doooriiiinhaaaaaa?!
Dorinha e Marly se entreolham marotamente, esforçando-se para conter o riso, embaixo da cama, sem dar nem um pio. Abaixo a teoria euclidiana, todos os catetos e a hipotenusa, hoje, não!
Maaaaarlyyyyyy?! Doooriiiinhaaaaa?!
O professor de matemática? Não, não.
As meninas apenas ouvem, debaixo da cama, estiradas de bruços, o rufar impaciente dos sapatos sobre o piso, para lá e para cá, seguidamente. Até que cessam, quando a porta de casa se abre e se fecha. Ufa, o homem se foi.
Vocês ainda me pagam!
As meninas sorriem com os olhos, vitoriosas, e rastejam com agilidade, para sair dali.
Põem-se de pé já com a festa cheia, distribuindo abraços e sorrisos e gritinhos, “Aaaah!”, de emoção, a cada reencontro, quarenta anos depois.
Do professor de matemática, não se sabe o paradeiro, após quatro décadas. Talvez esteja apenas matematicamente quarenta anos mais velho, numa conta simplória, mas correta. Ou contará estrelas no firmamento, como alguns outros precoces, que hoje não estão aqui, ao menos carnalmente.
Dorinha, que ironia, hoje é professora: a professora de geografia Dora Martins Dias e Silva, casada com o médico ortopedista José Geraldo Dias e Silva, mãe de três filhos, duas meninas (hoje mulheres) e um menino (hoje um homem).
Nasceu em 27 de março de 1949, na pequenina Lucélia, município com população que cai ano a ano, hoje com menos de 20 mil habitantes, na região do Pontal do Paranapanema, a 586 quilômetros da capital, São Paulo.
Nunca desgrudava de Marly, que virou, anos mais tarde, sua comadre e, também por ironia, professora inclusive de matemática.
Hoje é domingo, 19 de abril, e o Haro´s Buffet, em São Caetano do Sul, região do ABC paulista, vai sendo integralmente ocupado. Abrigará, no ápice, cerca de 300 convidados.
Chama-se Orkontro, a festa. Reúne pessoas com muita coisa em comum: são nascidas em Lucélia, que chamam de “a capital da amizade”, ou filhas, ou netas de um natural de lá, ou casadas com um luceliense; e estão, em sua maioria, na casa dos 60 anos.
O Orkontro foi a festa do reencontro, depois de quarenta anos.
Velhas amigas: Dora Martins e Marly Boin se cumprimentam, à chegada.
Foram se reencontrando, depois de quarenta anos ou mais, principalmente pela rede de relacionamento virtual Orkut, hoje uma unanimidade (ou quase) entre os internautas brasileiros, independentemente da faixa etária.
O reencontro virtual, pela Internet, seria o passo inicial para a realização do encontro em presença, ao vivo e em cores, caloroso como o beijo e o abraço que todos distribuem uns nos outros, fartamente.
É a terceira edição do Orkontro dos lucelienses; a primeira fora em São Paulo, no último domingo de abril do ano passado, com 40 pessoas; e a segunda, no aniversário de Lucélia, 24 de junho, com 80 participantes. A novidade se viralizou de Orkut para Orkut, de blog para blog, e tomou a dimensão de agora.
Os principais artífices da reunião foram três, cada um trabalhando interconectado, mas de um ponto diferente do país: Pedro Akio vive em São Paulo; Luiz Alberto Gambassi reside em Bauru, São Paulo; e Jovan Vilela, em Rondonópolis, Mato Grosso.
Evoé, Pureza!
“Acharam que eu tivesse morrido, é? Aqui, ó!”, assina seu atestado de vida no ar, fazendo uma banana com as mãos, Dona Pureza Terraz, hoje aos 80 anos e mais saltitante que esse repórter. “É uma emoção tão grande estar aqui... Minha norinha até falou: ´Não vai chorar, heim, para não estragar a maquiagem!´”.
Dona Pureza e a família Martins Dias e Silva: Andréa, Dora, Giba e Luciana.
Dona Pureza é a história viva e mais festiva de Lucélia. Era ela quem organizava os carnavais da cidade; à sua casa, que ficava em cima da agência do Banco do Brasil, o cordão momesco se dirigia, para a confecção das fantasias e demais preparativos.
Nasceram ali, sob sua supervisão dedicada, ano após ano, blocos carnavalescos que marcaram Lucélia, como o das Melindrosas, o de Mercadores de Flores, o Chinês, o das Espanholas. “Saí de Lucélia, tudo acabou”, lamenta Dona Pureza, que hoje vive em Bauru.
Mas disseram ali à frente, na mesa de senhoras elegantemente penteadas, maquiadas e vestidas, que se sacodem de quando em quando, conforme a música se insinua, que Dona Pureza planeja uma volta aos velhos carnavais, com um novo bloco. Pula, pula, Pureza, e leva a gente, enquanto Deus consentir! Lucélia ficou mais triste depois de sua partida.
“Eu e meu marido estamos separados há 30 anos, mas, hoje, ele está quase cego, numa cama, e eu estou aqui, ó”, vinga-se, com um passo de dança e um jogo insinuante de ombros. “Sou uma pessoa de sorte. Tenho cinco filhos maravilhosos, não sei quem é melhor.”
Dona Pureza se inscreveu na memória coletiva também por outro atributo generoso: a abertura de sua casa para encontros de jovens apaixonados, que fugiam ao olhar sempre severo, perscrutador e impeditivo da família católica paulista. Olho nessa menina!
“Nossos encontros escondidos eram na casa da Dona Pureza. Ela encobertava tudo”, recorda a agradecida Dora, com alegria.
Coração rubro
O professor de matemática Benedito Ikeda (não é aquele de quem Dorinha e Marly fugiam) veio de longe para o Orkontro: de Salvador, Bahia. “Vivi os melhores momentos da minha infância e parte da minha juventude em Lucélia”, justifica.
O coração de Ikeda hoje é muito maior do que há 40 anos: lei da dilatação dos sólidos sob o lume da comoção. “Com a idade, as emoções saltam mais à pele. A gente aprende a dar muito mais valor a esses encontros. As memórias mais antigas, de Lucélia, estão muito mais vivas e próximas de mim que as memórias recentes. A idade nos traz esse dom.”
A advogada Silvia Galuppo, amiga de infância de Dora e Marly, que traja um vestido vermelho cardíaco, acredita que os 40 anos que se passaram lhe furtaram algo: aquele descompromisso leve e solto de broto legal. “A gente então não ligava para a situação financeira, origem social, cargo de gente com quem se relacionava.”
Mas veja só: não será a menina Silvia que rodopia outra vez pelo salão, numa taquicardia gostosa, solta, lindamente rubra? Deve ter 15 anos, deve ser seu baile de debutante, a comunicação oficial de que está pronta para a vida, para conhecer homem, amar e ser amada. Silvia gira pelo salão e, se não sonha mais com príncipe encantado, ao menos com um homem honesto e gentil e trabalhador, e que pode vir a pé.
Orkontro reuniu cerca de 300 pessoas: recordar é viver, ou reviver.
Telão exibiu fotos “daquela época”, reunidas pelos participantes.
Dona Pureza bebe cervejinha, come salgadinho a dúzia, dança salsa, rumba, polca, o que for. Saúde de vaca premiada, rodrigueana. “Virei fã da Dona Pureza, vou criar uma comunidade no Orkut em homenagem a ela”, elogia Luciana, filha mais velha da Dora. Dona Pureza gostou mesmo foi do namorado da Luciana, o Giba. “Mas que homem bonito!”, comenta de lado.
José Geraldo, o marido da Dora, já resmungou duas vezes, hunf, hunf, é hora de partir. São quase cinco da tarde. Na volta, como na ida, o GPS do automóvel não se acha. “Virar à direita, não, não, virar à esquerda, quer dizer, a 500 metros, retornar, não, não...”
A tecnologia nem sempre funciona, mas, convenhamos, ajuda. Nunca antes na história deste país, como diria nosso presidente, tantos encontros e reencontros foram possíveis, graças à facilidade de acesso proporcionada pela era digital.
As páginas do Orkut dos participantes do Orkontro deste domingo vão estar movimentadas amanhã e depois, quando os perfis serão atualizados com muitas novas fotos.
Alguém aí tem o Orkut da Dona Pureza?
*Fotos de Guilherme Azevedo.
conta! Ah! Ah! Ah!
Só uma pequena correção. Aliás, duas: Lucélia fica na
Alta Paulista e o Gambassi mora em Barretos. O resto é tudo verdade...
este veículo de comunicação para cobrir este evento. A Dona Pureza e muitos
outros que se encontravam lá foram pessoas muito significativs na minha
adolescência. Quanto a sua sogra não sei nem o que dizer, pois além de grande
amiga, comadre é como se fosse minha segunda irmã. Sempre juntas! Parabéns
mais uma vez pelo seu jornal!
Emocionante e bem
escrita.
Sou fã da D. Pureza, mas o namorado é meu! Com todo respeito, rsrs.
orkut da Dna. Pureza, eu quero, afinal somos mutuamente fãs.
de lado!!!. Guilherme meus parabéns pela matéria e não se preocupe, pois 35 a
40 anos distante dos amigos da juventude provocam esses tipos de emoções muito
profundas principalmente em garotas como a Dora; Marly e outras
"meninas" que você certamente conheceu e viu na plena "flor da
terceira idade", mas com fenomenal disposição para o ORKUT e todas
modernidades da internet. São às "Vovós e Vovôs
orkutianos"......risos!!!! Abraços, Gambassi
geográficos.
Agora, todos terão razão de dizer que o Jornalirismo virou
mesmo a casa da sogra, hehehe.
através das poucas pessoas com quem vc conversou!! Um grande abraço! Isto nos
incentiva a realizar outros encontros!
,encotrei muitos amigos que não via desde 65 ,quando me casei e saí de
lá....adorei a matéria me emocionei novamente.........bjs em todos
reforço?
Não vou contar, mas ele estava no Orkontro...
