Essas foram as principais questões discutidas no segundo debate promovido pelo Jornalirismo, sob o tema “Como se forma a opinião pública no Brasil, hoje”, realizado na noite de terça-feira, 27 de maio, na livraria Fnac, em São Paulo. O grupo convidado foi composto do poeta Sérgio Vaz, do cineasta Maurício Eça e dos jornalistas Luis Nassif e Pedro Doria, com mediação do “jornalirista” Guilherme Azevedo.
Foto de Patrícia de Paiva dos Santos

Luis Nassif abriu a discussão com um panorama. Abordou o impacto da tecnologia no jornalismo, criticou o estilo e as intenções da grande mídia, representada por veículos como a revista Veja (alvo de uma série de denúncias no seu blog, www.luisnassif.com.br), e explicou como a manipulação da opinião pública exerce influência no cenário político nacional desde o fim da ditadura. “Essa notícia em forma de catarse, como movimento de massa, não ajuda em nada. Houve uma aproximação do jornalismo com o show bizz, no final da década de oitenta, e algumas empresas passaram a utilizar o valor da opinião como jogada comercial”, afirmou Nassif.
A situação de comunidades onde o acesso à Internet é ainda recente, ou escasso, foi levantada pelo escritor Sérgio Vaz, idealizador e organizador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), que tem como objetivo levar informação e literatura aos moradores pobres da zona sul paulistana, com saraus e ações de cidadania.
Periferia 2.0
Segundo Sérgio, o surgimento de lan houses na periferia tirou as pessoas de uma ilha de isolamento, criando um público com poder de opinião, resultando em uma nova situação para o mercado de comunicação, exemplificada assim por Nassif: “Os jornais, antes, tinham um círculo restrito de opinião, que era ampliado e atingia apenas as camadas mais intelectuais. Mas essa nova geração não é mais atingida por isso, como no caso do Lula [o presidente Luiz Inácio Lula da Silva], que foi atacado pela mídia e continua no poder”.
Para Maurício Eça, diretor do videoclipe Diário de um Detento, do grupo de rap Racionais MC’s, e do documentário Universo Paralelo, sobre moradores da periferia paulistana, além de criar um núcleo pensante, o novo ciclo de notícias também deu representatividade a uma parcela da população até então ignorada, trazendo à tona movimentos como o hip-hop. “O hip-hop expressava uma situação, uma realidade da periferia, na qual as pessoas podiam se identificar. Movimentos como este e a Cooperifa trouxeram um aumento enorme na auto-estima das pessoas da comunidade”.
Nassif também falou sobre o jogo de interesses de grandes grupos de mídia e o uso do poder de opinião a favor de uma agenda pessoal: “É praticamente uma formação de quadrilha, de manipulação de informação. Quando falamos da Veja, não se trata de conservadorismo, se trata de esgoto, de ataques gratuitos. Não é uma questão ideológica, mas, sim, de princípios jornalísticos. A imprensa pode ser conservadora, mas de bom nível”.
Necessidade de um novo jornalismo
O segundo bloco do debate contou com o jornalista Pedro Doria, especialista em mídia digital e tecnologia, que participou da discussão com um vídeo gravado no dia, no qual questionou o real potencial da Internet na comunicação atual: “Os grandes veículos e agências [de notícias] ainda são os grandes formadores de opinião. A produção de informação ainda continua nas mãos dos mesmos grupos”. Doria questionou ainda a qualidade do jornalismo online nas duas pontas da notícia: a de quem produz e a de quem lê: “O jornalismo na Internet tende a ser preguiçoso tanto do lado do leitor como de quem produz a notícia”.
Clique na imagem abaixo para assistir ao depoimento de Pedro Doria, gravado em vídeo e exibido para a platéia do Jornalirismo Debate.
Foto de Patrícia de Paiva dos Santos

O jornalista Pedro Doria, o quarto elemento do debate, marcou “presença” em vídeo gravado.
A opinião de Doria encontrou seu contraponto em Nassif, que declarou que, na verdade, a comunicação na Internet precisa apenas achar um formato, se organizar, mas supera a mídia tradicional em valor por conta do seu caráter colaborativo. “A colaboração muda tudo. A imprensa continua com o mesmo modelo de dez anos atrás. Quando se usa o modelo de web 2.0, a coisa muda. Agiliza e desburocratiza o processo. No blog, você é muito mais jornalista.”
Na visão de Sérgio Vaz e Maurício Eça, a principal questão é se existe um público de massa para uma informação mais inteligente e profunda, pois revistas que tentam desenvolver essa proposta possuem um perfil de leitor bem restrito, como é o caso da revista Caros Amigos, uma das principais publicações independentes do Brasil.
Foto de Alexandre Azevedo

Setenta pessoas estiveram na Fnac Pinheiros, em São Paulo, para o 2º Jornalirismo Debate.
Na opinião do escritor, os blogs poderão ser uma boa solução para esse impasse, principalmente para comunidades da periferia, devido à possibilidade de segmentação e contato direto com quem se interessa pela informação disponibilizada. “O blog é uma ferramenta monstruosa em núcleos de comunidades menores. As pessoas querem ler quem está lá, [gente] que fica de fora da grande mídia”, revela.
Novas formas de diálogo
Mas, depois de colocadas na mesa as dúvidas e contextos que envolvem a questão, quais são os novos meios de se comunicar, rumo a um futuro ético e democrático?
A necessidade de um canal e de uma forma de comunicação universal foi observada por todos os participantes do debate, que ressaltaram a importância de inclusão de núcleos hoje ignorados pela mídia brasileira.
Vaz acredita ser preciso a criação de uma linguagem na qual setores esquecidos pela sociedade se identifiquem, que os represente, contextualizando a realidade de núcleos fechados com o mundo externo. Embora concorde com a idéia, Maurício diz ser necessário ir além, tornando essa comunicação uma via de duas mãos e colocando a classe média em contato com a periferia, por exemplo.
Foto de Alexandre Azevedo
Sérgio Vaz e Maurício Eça: diálogo necessário entre a periferia e a classe média.
Nassif destacou a necessidade da pluralidade do Brasil funcionando num sistema que englobe os interesses de todos, de modo integrado. “É preciso criar uma ferramenta que organize as várias facetas do Brasil. O mercado financeiro pauta a política, hoje. Manifestações grandes de ruralistas não são noticiadas na grande mídia, como as financeiras, por exemplo. É um desafio criar algo que traduza tudo isso”.
Sensacional debate!
Esclarecedor e muito divertido com essas
feras!
Gostei muito!
Patrícia de Paiva dos Santos
contra a Veja, ele mostrou muita lucidez em todas as suas colocações. Acredito
sim que a Veja pratica o mau jornalismo quando se trata de política, mas a
revista é muito boa e possui matérias excelentes sobre outros temas. Sérgio
Vaz mostrou muita personalidade em todos os seus comentários e sua visão sobre
todos os temas, que é a visão da periferia. Senti falta de uma presença maior
do Maurício Eça, que poderia ter nos contado mais dos bastidores do seu
documentário e do clip dos Racionais MCs feito no Carandiru. Acredito que o
debate acabou tendo como foco o jornalismo e ele se sentiu um pouco inibido por
se tratar de um tema que ele não domina. O Pedro Doria fez falta, pois o vídeo
com seus comentários mostrou que ele ia agitar o barraco.
Parabéns ao site e
ao seu editor por mais este Jornalirismo Debate! Excelente!
da sociedade. A maioria, que é a periferia, é excluída, tanto pelo enfoque
das notícias, como pela linguagem. Estamos desenvolvendo um projeto de TCC de
jornalismo, justamente neste foco, um jornal que atenda as necessidades da
periferia de São Paulo. Acho que esse é um público que representa grande
parte do País e a discussão é necessária.
iniciativa,debate é sempre bom. Com gente boa no assunto então, nem se
fale.
Já estou esperando o próximo, não precisa demorar tanto ...
contato com a periferia e oseu mundo. Vivemos uma divisão hedionda de classes
que não se conhecem e no qual a grande mídia não faz a menor questão de
mostrar as contradições e vida de todo nosso povo. Agora sim, sabendo mais dos
sites da periferia dá para se sentir muito mais livre e integrado nesse Brasil.
Só não peguei o endereço do site do Sergio Vaz. Valeu...
primeiro debate.
Me surpreendi com o Sérgio Vaz e com o Luiz Nassif, não
esperava tanto de ambos.
Que venha o próximo!
pelo Jornalirismo.
Além do conteúdo enriquecedor, para mim sempre tem uma
emoção ao ver meu amigo Guilherme organizando e moderando o debate, trazendo
tantos nomes importantes para trocarem idéias.
Agora, uma emoção mais
forte, ver que minha filha, estudante de primeiro ano de Jornalismo, teve duas
fotos do evento publicadas no Jornalirismo, com os devidos créditos a ela.
Foi a sua "estréia" na área. Como o primeiro sutiã, ela nunca vai
esquecer. Nem eu.
Obrigado, Guilherme, pelo apoio e incentivo. Vida longa ao
Jornalirismo. Sucesso pra você.
