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Valdir Novaki, o pipoqueiro perfeito
Valdir Novaki já entrou para a história como caso de sucesso empresarial: o pipoqueiro perfeito.


O barulho da pipoca estourando se perde no pandemônio das buzinas, motores e passos apressados no final da tarde. É o perfume que cria uma espécie de oásis sensorial em volta do carrinho, posicionado entre uma farmácia e um ponto de ônibus lotado. De vez em quando, alguém que já avançou bastante na fila do transporte coletivo perde o lugar por não resistir ao chamado do milho e do bacon, que invade as narinas e vai direto ao cérebro exercer seu poder de persuasão.

Aos que sucumbem a esse “aroma” de sereia, o pipoqueiro oferece a oportunidade de lavar as mãos antes de comer; por esse detalhe – e pela brancura de comercial de sabão em pó do uniforme –, os clientes percebem que não estão diante de um ambulante comum.

Há outras evidências que reforçam essa tese: o homem que manipula a panela ruidosa e cheirosa pode até tropeçar na gramática de vez em quando, mas domina o jargão dos negócios – e fala do carrinho de pipoca como se fosse uma dessas multinacionais com faturamento superior ao PIB de muito país por aí: “Atribuo nosso sucesso aos freguês, sem eles não teríamos chegado aonde estamos. Nosso objetivo aqui é transformar clientes em fregueses. Os clientes são compradores esporádicos, já os fregueses são assíduos e ajudam a divulgar nossa marca”.

A pipoca fala por si e também é grandiloqüente: crocante e macia ao mesmo tempo, salgada na medida e sem aqueles grãos por estourar que trincam os dentes. O maior diferencial é o bacon, que vem em pedaços grandes e de aparência confiável, sem pêlos visíveis na superfície (na concorrência, o bacon peludo é mais comum do que se imagina). “O comércio de rua, nos últimos vinte anos, parou no tempo. Viemos para mudar, para melhorar”, avisa, para a má digestão dos ambulantes mais acomodados.


O pipoqueiro Valdir: inteligência e asseio.


O pipoqueiro com jeito de CEO, Chief Executive Officer, é Valdir Novaki, tem 36 anos e foi bóia-fria durante boa parte da vida. Desembarcou em Curitiba em 1988, para trabalhar como jornaleiro. Tempos depois foi ganhar a vida manobrando carrões de bacanas nas vagas apertadas de um estacionamento. Somados, os dois subempregos lhe subtraíram uma década. Nesse período, trabalhava e esperava; queria uma licença da prefeitura para “operar o carrinho de pipocas”. Como as engrenagens da burocracia se moviam no fogo lento de sempre, precisou de 12 anos para preparar o sonho.

Cansado de esperar, alugou o carrinho de um conhecido e foi vender sua pipoca nos eventos que celebram os pomares da Região Metropolitana de Curitiba, como a festa do caqui, da uva e de outras tantas frutas. Ainda atuando no sistema “carrinho de um, pipoca de outro”, Valdir foi para a frente da biblioteca pública da cidade.

Pipoca especializada

Nessa época, o consultor financeiro Ricardo Coelho dava expediente no HSBC. Nas horas vagas, trabalhava nas pesquisas de um livro que estava escrevendo e, nas horas ainda mais vagas, comia a pipoca do Valdir.

Dessa relação entre o consultor da Buffalo University e o ex-bóia-fria nasceu o projeto de criar o pipoqueiro perfeito: a ostentação de uma higiene acima de qualquer suspeita e o domínio das técnicas de atendimento mais sofisticadas de sua época foram as missões delegadas ao homem que abandonou os estudos depois de completar a quarta série.

Quando Valdir finalmente conseguiu aquela tão sonhada licença da prefeitura, os resultados da parceria começaram a aparecer. O novo carrinho foi levado para a Praça Tiradentes, o marco zero de Curitiba, e ganhou uma identidade visual feita especialmente para ele.


O pipoqueiro e a Praça Tiradentes


Surgiu, também, o kit higiene, que inclui palito de dente, guardanapo, balinha de hortelã (sempre providencial depois da comilança) e material promocional elogiando a qualidade dos ingredientes, aos quais o pipoqueiro hoje se refere como “insumos”.

No bolso frontal dos uniformes usados por ele foram estampados os dias da semana, para que o freguês tenha a certeza de que Valdir não usa hoje a roupa suja de ontem.

Por fim, foi criado um plano de fidelidade para beneficiar os mais assíduos e um site (saboreie aqui) para divulgar a marca Pipoca do Valdir. “Noventa por cento do que se vê ali são idéias minhas”, reivindica Coelho, que encarou uma jornada de 700 horas de consultoria voluntária. Se o pipoqueiro fosse um cliente como os outros, o consultor, que cobra por hora, teria embolsado uns R$ 225 mil.

No carrinho de Valdir tudo é feito não apenas para ser, mas para parecer limpo, também. “Não é bem isso que gostaríamos que as pessoas percebessem [referindo-se à flagrante intenção de demonstrar asseio]. Mas o fato é que ali tem mais higiene que no McDonald´s”, compara o consultor.

Para o público, o paralelo é mesmo entre Valdir e os outros ambulantes das imediações. E é nessa segunda comparação, com os vendedores de bacon peludo, que ele abre vantagem.

Maicon Martins, um dos muitos clientes que com razão interromperam a entrevista ao Jornalirismo, reconhece em Valdir o vendedor mais asseado de quem já comprou e ainda elogia a pipoca: “Não sei o que ele faz de diferente, mas, sei lá, o gosto... a textura... é tipo uma pipoca premiun”, saliva o rapaz, mais interessado em mastigar que em descrever.

Pipoca na tevê

A higiene e a qualidade (ou talvez as degustações gratuitas) fizeram do pipoqueiro uma figurinha carimbada na imprensa local. Valdir não sabe dizer quantas entrevistas já deu, mas guarda, em um canto do carrinho, um álbum de fotografias.

Estão ali retratos dele com jornalistas de diversas origens. “Olha essa aqui! Duas tevês ao mesmo tempo. Chique, não é?”, gaba-se, todo garboso, ao mostrar uma das páginas. Ao fechar o álbum, reconhece a fama na terceira pessoa: “Tem uma afinidade muito grande entre o pipoqueiro Valdir e a mídia”.

Recentemente, o consultor mexeu os pauzinhos e arrumou para o pipoqueiro uma carreira paralela como palestrante; Valdir agora fala para platéias de empresários e já ganha dinheiro com isso. “Minhas palestras são motivacionais. As pessoas andam muito desacreditadas. Levo a mensagem de que é possível crescer com um comércio, por mais pequeno que seja. É o caso do meu carrinho”. A mensagem motivacional já chegou a São Paulo, Criciúma, Fortaleza e Porto Alegre. “Tem vezes que desembarco no aeroporto, chego em casa, tomo um banho e venho direto pegar o carrinho.”

Ricardo Coelho costuma acompanhar as exposições do parceiro porque, segundo ele, Valdir “ainda precisa dessa âncora”. E quanto custa a palestra do pipoqueiro? Valdir fala em R$ 4.000,00, Coelho, em R$ 800,00. Seja qual for o valor, parece mais lucrativo que os R$ 2,00 por saquinho de pipoca. Mas dinheiro só não satisfaz o coração e o paladar de um pipoqueiro: “Não importa quanto dinheiro eu ganhe. Eu gosto é disso aqui”, explica, apontando a panela.

*Fotos de Antonella Forte Iacovone.

Comentários
Amanda | 11/11/2008
Muito bom. Muito bom mesmo!
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