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3o Jornalirismo Debate: "Popular x Sofisticado?"

Jornalirismo Debate: Crença em que o livre debate de idéias possa evitar o preconceito.


A “subjetividade” e a diversidade de idéias permearam as discussões do 3º Jornalirismo Debate, realizado na noite de quarta-feira, 26 de novembro, no auditório do Senac Lapa Scipião, em São Paulo.

Sobre o tema “Popular versus Sofisticado?”, a mesa, mediada pelo jornalista Guilherme Azevedo, editor do Jornalirismo, contou com as participações do educador e filósofo Mario Sergio Cortella, do publicitário Celso Loducca, do crítico musical Pedro Alexandre Sanches e do escritor e produtor cultural Alessandro Buzo.


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Repentistas Edival e Evanildo Pereira no 3o Jornalirismo Debate
Edival e Evanildo Pereira fizeram no repente a apresentação do 3º Jornalirismo Debate.


Diante de um assunto pouco abordado – devido à sua origem polêmica e que normalmente ganha pinceladas de preconceito quando tratado –, a abertura do debate, feita pelos repentistas Edival Pereira, de Santana de Mangueira, Paraíba, e Evanildo Pereira, de Mauriti, Ceará, não poderia ser mais significativa: lançou no ar, por meio do repente, os questionamentos sobre o que é o sofisticado e o popular em um mundo que tem a necessidade de estigmatizar e rotular.


Veja o que diz o dicionário Aurélio sobre o “popular” e o “sofisticado”:

Sofisticado [Particípio de sofisticar] Adj. 1. Falsificado, contrafeito, adulterado. 2. Bras. Que não é natural; artificial, afetado. 3. Falsamente refinado ou intelectual. 4. Requintado ao extremo; aprimorado.

Popular [Do latim
populare] Adj 2 g. 1. Do, ou próprio do povo. 2. Feito para o povo. 3. Agradável ao povo; que tem as simpatias dele. 4. Democrático. 5. Vulgar, trivial, ordinário; plebeu. S. m. 6. Homem do povo.


Logo de início, o crítico Pedro Alexandre Sanches, da revista CartaCapital, que se surpreendeu com a definição do dicionário Aurélio para a palavra “sofisticado”, fez uma auto-avaliação bastante sincera e criticou a falta de diálogo sobre o tema por parte da grande mídia, mais especificamente no segmento musical.

“A gente não pensa muito nesse assunto, pois nesse ambiente [mídia] existem regras tácitas, que nunca são verbalizadas. A bossa nova, a tropicália, supostamente sofisticadas dentro da música popular, são o campo de trabalho da gente. É como se isso fosse natural e a crítica é feita com princípios muito definidos que impedem estilos como o axé, o funk carioca, o hip-hop, de serem avaliados”.


Foto de Wilson Zambardino
Pedro Alexandre Sanches no 3o Jornalirismo Debate
Pedro Alexandre Sanches: Bossa nova e tropicália não sofrem patrulhamento do axé e do funk.


O jornalista disse que, normalmente, a justificativa dos seus colegas de profissão para tal exclusão é estética, mas questionou se essa “regra” não seria uma forma para mascarar outras questões, como o preconceito social e de classe.

“Por que a gente não gosta de axé, sertanejo? Geralmente, a resposta é porque não tem qualidade, as letras são ruins. Algumas letras da bossa nova são indigentes, falam de patinhos e barquinho, porém [os bossa-novistas] não são patrulhados dessa maneira”, afirmou.

Sanches ressaltou a dificuldade de conseguir emplacar notícias de artistas considerados mais populares. “Se Chitãozinho e Xororó fizerem um show, nem existe a idéia de fazer uma crítica. Não existe diálogo, é como se isso fosse natural”, lamenta o jornalista, sem se isentar de tal responsabilidade.

Repórter de um quadro do programa "Manos e Minas", da TV Cultura, o escritor Alessandro Buzo assumiu logo a sua preferência pelo popular e as manifestações culturais que o ajudaram na construção da própria identidade no seu “lado leste” do Itaim Paulista, bairro populoso e popular da capital paulista.


Foto de Wilson ZambardinoAlessandro Buzo no 3o Jornalirismo Debate
Alessandro Buzo: Ascensão cultural da periferia ainda provoca preconceito.


Declamando um poema de apresentação, Buzo enfatizou a identificação pelo que vem do povo e disparou discretamente contra o outro Itaim, o Bibi, também em São Paulo, que seria o bairro sofisticado.

Por outro lado, o escritor apontou, em seguida, a possibilidade de intercâmbio entre o popular e o sofisticado e citou como exemplo a Internet, uma tecnologia bastante sofisticada e para a qual ele não tinha acesso há dez anos.

Hoje, a ferramenta, que para ele se tornou popular, é fundamental para disseminar as suas idéias. E convidou: “Uma hora, a gente tá na Paulista diante do sofisticado, mas se você pegar o “busão” e for para a periferia, vai ver que é muito legal”.


Propagando idéias

Foto de Wilson ZambardinoCelso Loducca no 3o Jornalirismo Debate
Celso Loducca: Qualidade, ou falta dela, existe em todas as áreas, não importa a origem.


O publicitário Celso Loducca, presidente da agência de publicidade que leva o seu sobrenome, negou que exista propaganda sofisticada, para os ricos, e propaganda popular, para os pobres. “A propaganda fala para o mercado e procura se adequar a quem está falando, seja classe A ou classe E”.
Para o publicitário, a qualidade e a falta dela existem em todas as áreas, independentemente de onde vêm. Segundo Loducca, não caberia qualificar algo como ruim ou como bom apenas pela origem, seja esta popular ou sofisticada. “Tudo pode ser bem ou malfeito e em propaganda é igual. O crivo de qualidade de propaganda é o resultado, então propaganda bem-feita é aquela que atinge o resultado a que se propôs”, explicou.


Foto de Wilson ZambardinoMario Sergio Cortella no 3o Jornalirismo Debate
Cortella: O popular e o sofisticado são símbolos arbitrários, pura convenção.


O lado acadêmico da noite ficou sob a responsabilidade do filósofo e educador Mario Sergio Cortella, da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo), que contextualizou o tema com o significado da palavra sofisticado para a filosofia, assim como o da arte e da economia. “A palavra sofisticada vem do grego sófon, que significa hábil e eficiente. No entanto, aquele que é hábil também pode enganar [sofistas]”, explicou o filósofo.

Para Cortella, discorrer sobre o que é sofisticado ou popular é arbitrário, porque a essência da discussão está baseada em classificações e, isso por si só, já implicaria convenções e arbitrariedade.

De acordo com o educador, que foi secretário municipal de Educação de São Paulo em 1991 e 1992, no governo de Luiza Erundina, todo símbolo é arbitrário; logo, pode se convencionar que algo é sofisticado ou popular, dependendo da classificação em que está inserido. O professor deu o exemplo de uma simples sandália de tiras, que, apesar de sua evidente simplicidade, ganhou aura de sofisticação.

Aplicando esse conceito à arte, Cortella lembrou que não se devia perder de vista o caráter mercadológico dela. “Quando um produto é consumido por uma classe e não por outra, ele pode ser chamado de popular ou sofisticado”, afirmou.

Trânsito entre popular e sofisticado

A polêmica gerada depois de manifestações preconceituosas ao show do cantor Zeca Pagodinho no Clube Paulistano, tradicional clube rico em São Paulo [dia 28 de novembro, sexta-feira], também foi alvo dos debatedores. No episódio, alguns sócios do clube criticaram a presença do artista, tachando-o de “cachaceiro”, entre outros xingamentos.

Esse fato acendeu um debate sobre as razões que dificultam o trânsito de manifestações mais populares em um ambiente considerado sofisticado. Para o jornalista Pedro Alexandre Sanches, o que está em questão é um caso de preconceito explícito.

Segundo o crítico, outros artistas populares, como Ivete Sangalo e Roberto Carlos, foram contatados anteriormente para essa data. Na opinião dele, dificilmente esses artistas sofreriam manifestações iguais.

Mas o publicitário Celso Loducca acredita que, possivelmente, a escolha do pagodeiro incomodou esses sócios por ele representar a imagem do sucesso de uma personalidade que causa um enfrentamento.

Acompanhando essa opinião, o escritor Alessandro Buzo falou que o sucesso de gente como Zeca Pagodinho agride algumas pessoas, porque, além de representar algo que é popular na essência, também atingiu níveis de sofisticação que podem ser verificados pelos altos preços de ingressos dos shows do cantor.

Contrapondo essa questão, o professor Cortella – que chegou a elogiar o funk carioca pelo seu ritmo, que lembraria um mantra – apontou que o popular e o sofisticado estão em um “território que não é preciso, por isso dão margem ao preconceito”.

No entanto, o filósofo e educador acredita que, nesse caso envolvendo Pagodinho, a exposição maciça do cantor pode ter sido a responsável pelas reações contrárias. Porém, ele atenta para um fenômeno de “guetificação”, no qual os grupos ficam cada vez mais restritos ao próprio universo, sem aceitar o diferente.

Diante de todos esses embates e idéias, os participantes foram unânimes em um ponto: o sonho de uma mistura do popular com o sofisticado, tendo como pilares o acesso irrestrito à educação e à boa informação, é sempre mais do que bem-vindo em uma sociedade como a brasileira.


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Platéia foi o quinto elemento do 3o Jornalirismo Debate
Público participou e foi o quinto elemento no 3º Jornalirismo Debate.


Leia também a enquete “Popular versus Sofisticado?”, com Nelson Sargento, Sérgio Vaz, Washington Olivetto, Marília Gabriela, Ercílio Tranjan, Mylton Severiano e muitos outros, clicando aqui.

O 3º Jornalirismo Debate: “Popular versus Sofisticado?” foi uma realização do Jornalirismo e do Senac São Paulo, com o apoio da Eventar, JAC Comunicação, Loducca, Maxpress, Permission, Tesla e Ypióca.
Comentários
Thiago V. Coelho | 29/11/2008
Olá.

Adorei participar do 3º Debate Jornalirismo. Acredito no diálogo para
a mudança nas atitudes do homem.

Faço a observação em destacar que o
número de debatores deixou o tema ofuscado e algumas vezes sem
foco.

Parabéns a todos do Jornalirismo.

Abraços

Thiago V. Coelho
Ana Claudia Adamante | 02/12/2008
Adoraria ter assistido ao debate. Gosto muito de ouvir Mario Cortella falar...
certamente valeu a pena para quem participou!
Fabio Zelenski | 03/12/2008 |  
Olá.

Concordo com o Thiago em relação às vezes em que o tema proposto foi
ofuscado. Mas, creio que isso ocorreu não apenas pelo fato do número de
debatedores, e sim, também, pela participação do público com algumas
perguntas que fugiam ao tema.

Tirando isso, foi muito proveitoso o debate e o
que cada convidado falou.

Parabéns.
Renata Dias | 04/12/2008
Oláa...

O debate foi muito bom e a diversidade dos participantes e a
interação com as pessoas ali presentes tornou ainda mais interessante.


Podemos discutir o assunto vendo de diversos ângulos e pessoas de
diferentes circulos sociais.

O tema "Popular x Sofisticado" é
bastante amplo e por isso, conforme foi citado, pode ter saído do
foco.

Parabéns pelo debate!
Jr Souza | 30/12/2008
Guilherme.
Organiza este tipo de evento aqui no interior de SP. Sou de
Jaboticabal e temos uma boa estrutura para este tipo de evento, (Senac, Unesp,
Teatro Municipal, etc.).
Fora a estrutura temos um público grande para este
tipo de evento, que acontece tão pouco ou praticamente não ocorre por aqui.
Que tão fazer o "1º Debates Para o Interior". Estou a disposição
para montarmos algum projeto do tipo se houver interesse. Parabéns pelo seu
trabalho.
Juarez Cunha | 17/03/2009
Fora as pessoas que fugiram do tema e a redação desta matéria, o evento foi
muito bom.
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