No meio do caminho, nos deparamos com o complexo sistema do enfraquecimento da sensibilidade. Agoniados, soltamos um “A” de surpresa ao perceber que a gente tem calças pretas por ter – diferentemente dos canoeiros da alma, que tradicionalmente lavam suas roupas com cantoria e muita história.
Não, não deu a louca no dramaturgo, nem no diretor, nem em mim. Ou até pode ter dado. Foi o saldo do primeiro fim de semana, dias 21 e 22 de março, do 18º Festival de Teatro de Curitiba, o maior e mais importante do Brasil. O festival se encerrou no último domingo, 29, depois de apresentar mais de 300 espetáculos de companhias de todo o Brasil, desde o dia 17.
Focamos o Fringe, a mostra paralela do festival, com as chamadas peças “alternativas”, que oferecem uma visão certeira do que há de novo no teatro brasileiro. Assistimos a cinco espetáculos.
“No Meio do Caminho” 
“No Meio do Caminho”: Heidegger também esteve no palco.
O guia do festival informava que o grupo de “No Meio do Caminho” era de origem carioca e isso foi o que mais me atraiu para vê-lo. Queria saber “o que que o carioca tem”, que tanta gente fala das suas produções e da lotação diária de seus teatros.
Ao iniciar a peça, a produção intimista causou certo estranhamento, pois era muito parecida com as peças a que eu já tinha assistido em São Paulo. A história, por sua vez, escrita por Bruno Autran, produz diferentes significados para cada espectador.
No palco, estão presentes dois atores, que podem interpretar a mesma personagem ou personagens distintas: tudo depende de quem assiste. O processo de direção e construção da personagem contou com pesquisas da obra de Heidegger, filósofo que baseou seus estudos na fenomenologia.
Após a peça, conversei com a produção do espetáculo e descobri que, na verdade, o grupo não é carioca: é uma mistura de artistas de diferentes Estados – Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina, mas a produção foi feita em São Paulo. “Esse espetáculo é a cara de São Paulo”, disse o diretor Thiago Cicarino.
É só aguardar para conferir essa montagem com cara paulistana que une talentos de diversos lugares do Brasil.
No Meio do Caminho
Cia. dos Autônomos – Rio de Janeiro – RJ (ou SP, ou SC, ou MG)
Drama
Duração: 60 minutos
“Complexo Sistema do Enfraquecimento da Sensibilidade” 
Em “Complexo Sistema”, plasticidade explicita as intenções.
Só de ler a sinopse, a agonia toma conta do nosso corpo.
Ao entrar no teatro, vemos uma cena com uma plasticidade de impacto: uma personagem amarrada a diversos elásticos, unidos ao meio e expandidos para cada canto do palco, parecendo uma teia de aranha.
A produção musical, a cenografia e a performance dos atores angustiam a plateia, que, sem perceber, já se vê dentro do espetáculo, participando dos delírios e das torturas sofridas pelo protagonista.
Por outro lado, o grupo apresenta uma linguagem teatral diferente da convencional, enfatizando mais a plasticidade do que a dramaturgia, o que pode causar distanciamento por parte de alguns espectadores.
Para apreciar o espetáculo, deve-se abstrair do lugar-comum e mergulhar nas novas sensações despertadas por essa inusitada peça.
Complexo Sistema do Enfraquecimento da Sensibilidade
Cia. de Teatro Antro Exposto – São Paulo – SP
Drama
Duração: 70 minutos
“A” 
Atrizes de “A” juntam humor e denúncia da situação da mulher no Brasil.
A sinopse passa a ideia de que “A” é uma peça de humor feminino, com piadas leves e momento-família. Porém, o elenco, formado por Luciana Holanda, Maria Amélia Netto e Marina Monteiro, preocupa-se, também, em revelar dados reais – e não tão agradáveis – do universo feminino, como aborto, violência, exploração etc.
A excelente interpretação das atrizes, que, em determinado momento da peça, interagem com os espectadores, como se fossem amigos de longa data, faz o público se divertir e refletir sobre os temas expostos.
“A”
N.A.T. Núcleo Ação Teatral – Florianópolis – SC
Comédia Dramática
Duração – 60 minutos
“Pretas por Ter” 
“Pretas por Ter” é garantia de diversão e humor. Teatro para divertir.
Da Cia. Baiana de Risos, grupo formado, claro, na Bahia, a peça é uma comédia sem pretensões: o objetivo é fazer rir com o indiscutível talento dos atores, que interpretam três personagens – todas mulheres: uma professora, uma assistente e um ser não-identificado.
A plateia entra no jogo e se delicia com as histórias malucas e com os improvisos hilários.
O figurino é bastante colorido, que combina com a proposta do espetáculo e com a irreverência dos artistas. É um humor diferente daquele a que estava acostumada, mas quem for e estiver disposto a se divertir, certamente atingirá seu objetivo.
Pretas por Ter
Cia. Baiana de Risos – Salvador – Bahia
Comédia
Duração: 60 minutos
“Canoeiros da Alma” 
“Canoeiros da Alma”: Coletânea de histórias do Vale do Jequitinhonha.
A proposta da peça é mostrar a vida dos habitantes do Vale do Jequitinhonha, local reconhecido como um dos mais pobres do Brasil.
O ambiente criado é propício para a plateia se sentir em uma cidadezinha pequena e entrar no clima da história, ou melhor, das histórias. São diversas histórias – algumas interligadas – que apresentam os diversos pontos de vista dessa e sobre essa comunidade.
O grupo foi formado na Universidade Federal de Uberlândia e carrega bastante o estilo desse tipo de companhia, com muita pesquisa, informação e atores jovens.
Canoeiros da Alma
Coletivo Teatro da Margem – Uberlândia – MG
Teatro Experimental
Duração: 60 minutos
Festival de Curitiba: Fringe combina existencialismo, ativismo e humor
Thais Polimeni, Enviada especial a Curitiba 30/03/2009
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