
Em Valsa com Bashir, diretor israelense volta em memória a Beirute, durante massacre.
A invasão do Líbano por tropas de Israel, em 1982, supostamente para conter ataques terroristas atribuídos à OLP, Organização pela Libertação da Palestina, deu margem para que no mínimo 800 palestinos fossem executados (segundo algumas fontes, o número de palestinos mortos chegou a 3 mil).
O massacre de civis palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, em Beirute, foi precipitado pelo assassinato de Bashir Gemayel, presidente recém-eleito do Líbano e líder da Falange cristã, organização político-militar, em 14 de setembro de 1982.
Num primeiro momento, o atentado fora atribuído aos palestinos da OLP e, por isso, os campos de refugiados foram invadidos por integrantes da Falange cristã, como represália, sob a proteção das tropas israelenses.
Dias mais tarde, entretanto, soube-se que o autor do atentado a Bashir e outras vinte e seis pessoas era também um cristão maronita, do partido pró-Líbano, que acusava Bashir de ter vendido o país aos israelenses.
Ari Folman, cineasta israelense, foi testemunha ocular do massacre, quando, aos 19 anos, cumpria serviço militar obrigatório, servindo a IDF – Israeli Defense Force.
Valsa com Bashir, um documentário de animação, surge da vontade do diretor de reaver suas memórias de guerra, perdidas por um processo de escape psicológico, valendo-se de terapias e conversas com antigos companheiros, ex-soldados que estiveram em Beirute à época.
A narrativa é conduzida pelo desvelar das histórias contadas durante as visitas que o diretor faz a amigos. Cada nova personagem que surge vai recompondo o mosaico da invasão das tropas israelenses ao Líbano. Assim, Folman acaba por desvelar, também, o lado, digamos, humano dos soldados israelenses ali presentes, com suas fraquezas.
De um lado, a estratégia de fazer um documentário sobre tema tão polêmico, em animação e narrado em primeira pessoa, demonstra que o diretor não se exime de culpa. De outro lado, ao amenizar o impacto de imagens mais reais, possibilita reflexão sobre a outra face da moeda, para que a individualidade de cada um não seja prejulgada pelos olhos no todo.
A beleza das imagens, a poética da narrativa e a belíssima trilha sonora envolvem o espectador em atmosfera de perfeição estética, em que não se pode sentir todo o peso do massacre de Sabra e Shatila. Contudo esse mecanismo de distanciamento não mascara o tema, apenas diminui o impacto sensacionalista e violento, que poderia divergir da proposta clara do diretor de fazer um filme antiguerra, antiviolência.
Valsa com Bashir é luz em meio aos conflitos obscuros tão antigos e tão atuais entre os homens, uma crítica clara às divergências em nome de Deus e à intolerância “desumana”.
Valsa com Bashir (Waltz with Bashir, Israel/Alemanha/França/EUA/Finlândia/Suíça/Bélgica/Austrália, 2008, 86 min.)
Direção e roteiro: Ari Folman
Assista agora ao trailer de Valsa com Bashir:
