Quebrei a unha do dedão do pé direito. E não foi a primeira vez. Acho que levei novamente uma guarda-chuvada no dito cujo quando me equilibrava no metrô lotado, esbarrando em bolsas, sacolas, pequenas malas e, claro, guarda-chuvas.
Tive que ir à pedicure tratar o pobre pé, sob a pena de enganchar a unha em uma meia qualquer. Só de pensar na pedicure, uma “gastura”, que arrepia.
Cá estava eu, sentada, vendo a pedicure dar um jeito na minha unha. Ela olha, limpa com óleo o dedão, retira o excesso de esmalte que esta relapsa pessoa deixou acumular, corta levemente, lixa com delicadeza a unha ferida. “Não há muito que fazer - analisa -, pois terei de esperar crescer para ir aparando os retalhos, como uma colcha em construção.”
Conversamos sobre o aguaceiro em que a cidade se tornou e depois ela emendou que passara a manhã no posto médico para entregar alguns exames. Contou que sempre investiga sua saúde, coisa que sua mãe não fez: teve mais de dez filhos em casa, sem saber o que é um pré-natal, e todos paridos de parto normal, algo comum no sertão nordestino.
Pensei: como uma mulher pode ter tantos filhos? Como cuidá-los, principalmente hoje, que tudo parece tão difícil? Lembrei, também, de um fim de semana em que estava num restaurante e notei uma família com cinco filhos. O marido se sentou à mesa enquanto a mãe e a filha mais velha zelavam pelos menores. O que outrora era banal hoje soa absurdo.
Refleti sobre elas, as de ontem e as de agora. Estamos em 2009 e ainda há mulheres que vivem sabe lá em que século: “pertencem” ao marido, sem direito algum, não podem exercer determinados cargos e “raras” podem ser consideradas líderes religiosas, mesmo sabendo das tantas grandes executivas que usam a fé como combustível para mudar o mundo. Multiplicadoras de bens tão valiosos que o dinheiro não compra.
Infelizmente, são comercializadas como pedaço de carne em açougue, estupradas, massacradas. Sofrem caladas. Recebem murros em vez de flores, xingamentos em vez de elogios. Prostituem-se em troca de um prato de comida ou nem isso. E as virgens valem o triplo.
É revoltante e até parecem meio pesadas essas palavras, mas ainda ouvimos que lugar de mulher é no tanque – e não é o de guerra –, mesmo indiretamente. Ganham muito menos que os homens por trabalho semelhante, mesmo sendo a maioria nos bancos das universidades.
Em 8 de março, todos os anos, milhões de mulheres no mundo promovem passeatas, distribuem flores, tingem de rosa o planeta. Temos repercussão na mídia, ainda bem, mas e no dia seguinte? O que mudará nas vidas dessas mulheres em 9 de março ou no dia 10? E por que penso nisso, se estamos em setembro?
Claro que concordo que sejam sempre marcados estes “8 de março”, que cutuquem a ferida exposta, embora sejam ainda cócegas, poucos pontos que se transformam dia a dia, onda a onda.
Não é discurso feminista, muito menos pessimista; acontece que ainda há mulheres que não sabem o que é planejamento familiar, o que é amar, o que é afeto. Pior, nem receberam isso no berço. Quem receberia o refúgio e o aconchego dessas moças torna-se, entretanto, capataz dos pesadelos delas. Há, também, o reverso, aquelas que podem considerar que têm tudo, menos sentimentos verdadeiros; são futricas e interesses mesquinhos.
Batalha longa, mas não derrotada. Muito já foi feito e há um caminho longínquo, além das montanhas e barreiras, que precisa ser explorado, e mais, conquistado e defendido.
E isso dói mais que a unha rachada em um pé calejado.
Parabéns pelo texto.
Quando nós, brasileiras, lemos sobre mulheres
de outras localidades, como a tão "famosa" Cabul, no Afeganistão, por
exemplo, pensamos, horrorizadas, que o tipo de tratamento que estas afegãs
recebem é coisa que ficou no passado aqui na nossa "terrinha". No
entanto, diariamente, muitas mulheres registram queixas nas delegacias de
mulheres, seja contra seus maridos, namorados, padrasto ou até pais.
Cabe a
reflexo.
Mais uma vez, parabéns.
