“Aqueles que olham é que fazem os quadros” (Marcel Duchamp)
Toda a efervescência artística dos anos oitenta pode ser pensada a partir do grito recalcado por duas décadas de ditadura militar (1964-85). Então, a cena artístico-musical de uma grande cidade, como Belo Horizonte, na década de oitenta, reflete toda a vontade de expurgar essa frustração, angústia e radicalismo, longamente engasgada.
O documentário Oito ou Oitenta, codirigido por Lucas Bambozzi e Rodrigo Minelli, resgata e rememora o que foi essa efervescência artística pós-punk, desde um encontro informal com os artistas transformadores daquela realidade pós-ditadura.
Esses agentes, artistas plásticos, músicos e performáticos, buscavam inspiração futurista, dadaísta e anárquica para levar adiante a sua mensagem, com a intenção de transformar, transgredindo o status quo.
A antiarte, herdada em parte do francês Marcel Duchamp (1887-1968), que, rompendo toda e qualquer possibilidade estética, mandou um mictório para ser avaliado como obra de arte, influenciou fortemente o movimento pós-punk dos anos oitenta.
Os artistas da época, por sua vez, perseguiam uma arte original, desprovida de predefinições e academicismo, corroborando o ideário do “faça você mesmo”. Também revelavam despretensão, pois, como diz um dos personagens do documentário, “tanto o sucesso como o fracasso eram coisas abstratas”.
O filme acompanha essa estética transgressora com uma sucessão de imagens fotográficas, vídeos antigos dos shows, ruídos, elementos gráficos típicos dos anos oitenta e movimentos de câmera que rompem com os modelos predefinidos.
Em alguns momentos, os personagens assistem a imagens da época e fazem comentários sobre si mesmos, como a artista plástica que se diz um embrião de Ana Maria Braga, por ensinar, em um programa de tevê, a pintar assento para vasos sanitários.
Negar o “sucesso” e todas as formas de ascensão midiáticas é típico de todo movimento underground que se preze, e é também um dos pontos que intrigam o espectador nesse documentário. Isso ocorre quando ouvimos os personagens negarem o sistema, mas, ao final, paradoxalmente, quando questionados sobre o fim do movimento, dizerem que teriam recebido mais espaço, se estivessem em São Paulo, no Rio de Janeiro ou na Europa.
Um dos selecionados pela quarta edição do programa de apoio à produção e difusão de documentários, o DOCTV IV, Oito ou Oitenta revela a veia artística de Belo Horizonte nos anos oitenta e traduz toda a estranheza e excesso da época, sem meias-palavras. É complexo e propositalmente incoerente, e ainda preenche a lacuna deixada pelo “anonimato” do movimento.
Oito ou Oitenta (Brasil, 52 min.)
Autor: Rodrigo Minelli
Diretores: Rodrigo Minelli e Lucas Bambozzi
