O saber popular vem perdendo sua credibilidade e valor enquanto pesquisas científicas são sempre reconhecidas. O mérito das realizações científicas fica apenas com o pesquisador, que foi a campo buscar na fonte uma resposta para sua indagação, mas será que foi e fez tudo sozinho?
Para equiparar a importância do saber popular e do saber científico de pesquisadores e guias da população ribeirinha do Vale do Jaú, na Amazônia, o documentário Filhos do Jaú, dirigido por Eliana Andrade, revela toda a cumplicidade necessária de pesquisadores e filhos da terra, para a boa realização de uma pesquisa que beneficia a todos, mas só valoriza o cientista.
O documentário, selecionado pela quarta edição do programa DOCTV, de estímulo à produção e exibição de documentários nas tevês públicas, acompanha uma equipe de pesquisadores, biólogos e botânicos, que visa encontrar maneira de preservar a biodiversidade local. Acontece que o sucesso da pesquisa dependerá diretamente dos guias.
Ao longo do filme, reconhecemos a necessidade vital de um bom “mateiro” e de seu conhecimento único da região, a fim de guiar a equipe em pesquisas de campo pela Floresta Amazônica. Um ambiente hostil e de difícil sobrevivência, sem a ajuda especializada dos guias.
A riqueza e a exuberância das imagens do Parque Nacional do Jaú conferem ao filme uma beleza natural e simples. É bonito ver o pôr-do-sol espelhado nas águas ou as crianças que brincam e mergulham na beira do rio.
A simplicidade cotidiana da vida ribeirinha revela o acordo com a natureza, de extrair, de forma consciente, apenas aquilo que é necessário para a sobrevivência, valorizando os costumes e tradições sustentáveis que são passados, ao longo dos anos, de pais para filhos. Se a valorização do trabalho do “mateiro” vingasse, por justiça e mérito, elevaria a autoestima, manteria a tradição e asseguraria o reconhecimento desses anônimos, que estão na base das pesquisas que vão mudar o mundo.
Construído de forma convencional, com depoimentos dos pesquisadores e guias, Filhos do Jaú não supervaloriza o trabalho desses grandes conhecedores da floresta e sim revela a importância coletiva de um trabalho de pesquisa. Este se realiza não só com o saber científico do pesquisador-chefe, mas também com o trabalho de uma grande equipe, com suas devidas funções equiparadas.
Filhos do Jaú (Brasil, 52 min.)
Autora e diretora: Eliana Andrade
Alguem fez o que eu queria fazer e tinha a maior preguiça!
Só
quem precisou de guia para pesquisa sabe o que esse trabalho tem de
maravilhoso...
Nós, os pesquisadores, temos o nosso lado de mal agradecidos. A
gente bota o mateiro na conta dos agradecimentos que a gente nunca vai poder
fazer adequadamente nessa vida e vai ficando por isso...
E olha que eu
considero o trabalho deles tão importante quanto o meu, de igual para igual nas
contas do mundo. Então, aqui vai meu gomennasai...
