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O leitor, que entra de chofre no assunto, provavelmente já ouviu a frase do título aqui de cima da boca de um belo exemplar feminino: "Não acompanha".

É a frase clássica, proferida pelas moças do meu tempo, para justificar a negativa ao pobre rapaz que não se encaixa no ritmo de sua feminilidade moderna.

Como elas correm, as mulheres, meu Deus. Eu, que já disputei os 100 metros, os 200 metros, os 400 metros, os 800 metros para cadeirante, raso ou bem fundo, a prova dos 10 mil, meia-maratona e agora estou na marcha atlética bem sincopada, confesso que cansei. Sou um paraolímpico convicto.

Mas por que aceleram tanto as mulheres do meu tempo?

Dias atrás, conversava com uma dessas moças, uma moça brilhante, pois sim, direta, objetiva, bem resolvida, inteligente, bonita, vivendo seu momento extraolímpico. E ela logo me saiu com a tal da frase do não acompanha, sobre ex-namorado. De novo? Quis entender.

É que os homens do meu tempo, na opinião dela, não compartilham aquele espírito de emulação Olimpíada de 2016. Ficam ali prostrados, olhos esbugalhados, baba elástica pendulando do canto da boca, catatônicos. Lamentando-se, como eternos desmamados. Ah, amiga, tenho saudade, sim, das mamadeiras de Toddy preparadas por Dona Arlette! Tomava meia dúzia por noite, até os 18 anos. Dezenove, vai.

Admiro essa amiga. Ela tuíta, blogueia, tem bom emprego, está por dentro de tudo, faz teatro, faz pós-graduação, é uma fecha-pautas. Decatleta. E tem pouco mais de 20 anos, apenas.

Eu, mal e mal, rumino uns projetinhos repletos de dúvidas e incertezas, melancolicamente bovinos. Tive aula de amor (não era aula prática!), de respeito e solidariedade no colégio. Já virei até árvore, como castigo.

Também joguei meu futebolzinho, campo de terra, gol caixote com saída à bangu. E marquei um gol no estádio Olímpico, de verdade. Foi um a zero magrinho para a gente, nossa única vitória no campeonato, e o gol foi meu. Até hoje comemoro, como da primeira vez.

Fico imaginando que tipo de homem agradaria a essa amiga, a você, que à boca pequena se queixou, e tantas e tantas outras amigas e inimigas à espreita.

Pela celeridade exigida, esse homem seria, no mínimo, o Usain Bolt. Um azougue. Mas velocidade, sozinha, não faz um varão; então, esse homem obrigatoriamente precisaria do mais firme espírito de decisão, ele é, por baixo, o Mano Menezes.

Também não poderia ser nada sentimental, com tintas de poesia, questões existenciais na hora de escolher entre um Chicabon e um Glut que nem existe mais. “Com Glut a gente toma leite / E sente o gostinho bom / De coco, chocolate, caramelo ou morango...”, cantava na minha infância o jingle criado pelo pai.

Ah, e tem também a questão da inteligência, aí, Stephen Hawking vem para nos salvar. Breve história do meu tempo. E já ia me esquecendo de uma questão de base: a questão da grana; um humílimo Bill Qualquer Coisa serviria?

Para muitas, esse seria o homem ideal, combinação generosa de portentos da raça. Tá fácil, não tá, meu amigo?

Pois, de mim, vou esperar você dar uma, duas, três, quatro, quinze voltas, até cansar. Então... Então... Então, vê se acompanha: me ajuda a fazer o rango; você põe a mesa, eu tiro; eu lavo a louça, você enxuga. E, se possível, bota aquela tipo fio-dental. Pro depois.

Comentários
Larissa Tietjen | 20/10/2009 |  
É Guilherme, tá difícil! Mas não leve a mal, no fundo (bem no fundo)
continuamos as mesmas 'mulherzinhas' procurando por um cafuné depois de
trabalhar olimpicamente o dia inteiro.
Fernanda | 20/10/2009 |  
Eu estou numa fase tão cansada que já estou querendo virar dona de casa (com
empregada, claro), mãe (com babá a tiracolo, claro), fazer artesanato durante
a semana com um grupo de mães modernas que, como eu, desistiram de trabalhar
(deste tipo com carteira assinada, pra bater cartão e acordar e ir dormir todos
os dias na mesma hora, rotina tan tan) e, por fim, poder escrever por prazer,
pra quando a inspiração vier, e se vier. O único problema é que meu namorado
comprou o pacote da super-mulher e, quando eu joguei a idéia de, então vou ser
dona de casa, ele ameaçou a separação, afinal, quem é que, sendo homem ou
mulher, está afim de sustentar o outro? Ele disse que se apaixou por aquela, a
atleta olímpica, que se fosse a outra, ele jamais olharia para mim. O detalhe?
Ele faz iron-man todos os dias. Um record. Acho que são reflexos da sociedade
moderna. Vamos destruir as mídias! Eu topo!
Pós-modernidade
Thá | 22/10/2009 |  
Ótimo texto!!! Representa bem a mulher pós-moderna. Mas vamos ver até quando
elas aguentam, né? Hahaha

Beijo!!
Duda Carlini | 26/10/2009
UHuah, boa Gui! grande texto!
Esther Gonçalves | 27/10/2009
Tudo isso + a sorte do realejo.
Eis a mulher moderna que dá até fadiga de
pensar!
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