É pela margem que se chega à periferia. Não à toa, para alcançar o Jardim Guarujá, no extremo sul de São Paulo, o caminho se faz é pela Marginal Pinheiros, beirando prédios de escritórios imponentes e executivos miúdos à janela, lojas para bolsos recheados dos shoppings Cidade Jardim e Jardim Sul e pavilhões para homens de negócio do Transamérica Expo Center.
Percorrido tudo isso, a dica do Google Maps, meu guia, é pegar a avenida Guido Caloi, cair na estrada do M’Boi Mirim – conhecida das páginas policiais – e subir por quebradas íngremes via rua Humberto de Almeida. Enfim, num cenário mais ao estilo da Grande Família, número 797 da rua Bartolomeu dos Santos, chega-se ao Bar do Zé Batidão.
Numa das quinas da capital paulista (o bar é mesmo de esquina), distante cerca de vinte quilômetros de seu marco zero, o local está apinhado de gente em mais uma noite de quarta-feira do já lendário Sarau da Cooperifa, iniciativa da Cooperativa Cultural da Periferia que espalha prosa e verso por ali há oito anos.
Não fosse a distância, o morador de áreas mais centrais talvez nem se sentisse à margem: sobre uma das mesas, um laptop divide espaço com uma garrafa de Bohemia e com a vedete do cardápio, o escondidinho de carne-seca; nas mãos de muitas das 400 pessoas que lotam a casa, celulares disparam flashes e gravam performances; e, na hora de pagar, é possível utilizar cartões de refeição, débito e crédito – incluindo o outrora só de gente com conta bancária gorda, American Express.
“Já faz uns quatro anos que trabalho com todo tipo de cartão. Mas esse American faz uns dois. Eu tenho um, minha mulher e minha filha também. Uso o meu todo dia, acabei de pagar a fatura”, conta, sem espanto, José Cláudio Rosa, o Zé Batidão. Ele avisa da facilidade por meio do banner azul e branco pendurado na fachada de seu estabelecimento e do adesivo colado ao caixa. “Antes, não aparecia muita gente usando, agora, vem. Acho que lançaram um para o pessoal aí”, tira suas conclusões.

Zé Batidão é metáfora do progresso da periferia.
De fato, no site da bandeira, rapidamente se descobre que, muito abaixo do Platinum (possível somente mediante convite), há adesões acessíveis com renda de R$ 1.000,00. O valor não fica muito acima do rendimento médio mensal dos moradores do Jardim São Luís, distrito que abriga o bairro, de R$ 902,13 – de acordo com dados da Subprefeitura do M’Boi Mirim.
Mais amigo
Pergunto se já não teria condições para morar fora dali, e Zé Batidão responde com um exclamativo “sim!”. Mas não quer: “O pessoal da periferia é mais amigo, vizinho conhece vizinho. Mexer com a crasse menos favorecida é muito bom. Com a crasse alta, não. Ainda tem muito ‘você sabe com quem tá falando?’, coisa de herança da ditadura. Aqui um ajuda o outro”, explica feito sociólogo – sem nunca ter pisado numa escola ao longo dos 61 anos de vida e permanecer até hoje sem saber ler e escrever.
O fato é que todos se cumprimentam com apertos de mão e abraços carregados. Até esta repórter, sem conhecer ninguém, sai colecionando mais contato humano que em meses com vizinhos de andar num prédio de Pinheiros, bairro de classe média na zona oeste. “É disso que estou falando, menina. Aqui é família”, arremata.
Agora, se Zé Batidão nem cogita ir mais para dentro da capital, admite apenas seguir mais para o fundo da periferia. É que a “cidade”, como chama o centro, vem alcançando sua beirada: “Mudar só se for para o [vizinho] Jardim Ângela. Aqui tem Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, casa lotérica, loja, açougue, shopping, supermercados. Não vou mais a Santo Amaro [centro urbano mais próximo até alguns anos] para nada. E já faz uns dez anos que nem piso na cidade”, conta.
Um portal do Jardim São Luís na Internet ajuda a dar tamanho à coisa: informa que o distrito reúne hoje 1.430 estabelecimentos comerciais e que, “se falta algo, é difícil saber o quê”. Mas, nos idos de 1966, quando um então José Cláudio de 17 anos primeiro pisava por ali, não havia muito mais do que poucas casas e galpões na área. O cenário foi mudando com a migração de operários do Sudeste e Nordeste que, assim como ele, eram atraídos pela instalação do polo industrial na região de Santo Amaro. Tanto que, na década de sessenta, estimava-se que a população do Jardim São Luís era de 18,5 mil pessoas – atualmente, chega a 265,5 mil, segundo avaliação da subprefeitura.

A filha Claudiana é fiel escudeira do Batidão.
E é com os olhos do passado que Zé Batidão mira o espaço da vizinhança – tomada por concreto e asfalto –, uma plantação, um cemitério e um campinho de futebol. “Era o que tinha, o resto era tudo mato. O poço dava 48 metros de fundura e a gente tomava banho numa cachoeira que ficava lá embaixo”, recorda, embargando a voz. Faz uma longa pausa e chora (ainda choraria outras duas vezes): “Era um frio que Deus mandava e eu não tinha cobertor. Pegava um saco de estopa, me enfiava dentro, encostava e dormia. Fugi da roça para ganhar a cidade e acabei na roça de novo”, ironiza.
Fasano
Com uma trajetória bem aos moldes do self made man capitalista, só que da periferia, a roça está na gênese de Batidão: começou a trabalhar aos seis anos em lavouras de fazendas da mineira Piranga, ao lado do pai e irmãos. Belo dia, resolveu vender uma cabrita, dois sacos de arroz, dois de milho e aterrissou em São Paulo com um sonho: “Via as crianças comprando bala por um tostão, dinheiro que a gente não tinha, e dizia para o meu pai que queria trabalhar num bar”.
Ideia firme na cabeça, começou como padeiro na zona norte, assou frangos na região central, serviu a seleção brasileira campeã da Copa de 1970 (opa!, quando garçom do restaurante Fasano, reduto de ricos), fritou bifes na cozinha do Terraço Itália, cozinhou peixe à brasileira para o apresentador de tevê Ronnie Von (patrão de sua irmã), inaugurou a lanchonete do primeiro cursinho Objetivo, na avenida Paulista, inventou pratos por restaurantes da cidade...
Apenas em 1988 conheceria seu primeiro negócio, o Bar do Chepa, já na vizinha Chácara Santana. Dois anos depois, era a vez do Bar do Zé Cláudio, onde trezentos litros de batida semanais lhe renderiam a alcunha e, em 1994, de mudar para o atual endereço com ajuda divina: comprou o ponto de um crente que o pastor não deixava vender pinga. “Paguei o valor de três contas atrasadas de luz, água e aluguel. Era época de mudança para o real, deu umas 110,00 URVs”, lembra.
Com as atividades da Cooperifa, liderada pelo poeta Sérgio Vaz, o bar prosperou. “Se aqui tivesse mais três Zé Batidão, seria a Vila Madalena”, acredita, referindo-se ao tradicional bairro boêmio de São Paulo. Até comércio na porta do bar ele atrai, a exemplo do vendedor de bijuterias Lobão Família da Rua, como gosta de se apresentar: “Aproveito o movimento e ainda recito minhas poesias”.

Poetas da periferia comprovam que a poesia é de todos.

Dentro da noite veloz: Rapaz declama no Sarau da Cooperifa.

A Cooperifa faz chover livros na periferia. Incentivo.

Escondidinho de carne-seca: Inspiração gastronômica para poetas.
Também, não é para menos: contabilizando apenas as noites de poesia (toda quarta, às 21h), a casa chega a reunir quase duas mil pessoas ao mês, vendendo cerca de 200 escondidinhos por sarau – ao valor de R$ 15,00 o pequeno, R$ 25,00 o médio e R$ 30,00 o grande. Há até a opção take away, em refratários prontos para uso em microondas.
Acácia Rosa
Habilidoso com as maquininhas de cartão, Zé Batidão fica com uma mão na panela e outra no caixa. “Escrever não dá, mas fazer conta sei muito bem”, gaba-se, explicando que, quando o assunto é pôr algo no papel, chama a filha e dita tudo. Aos fins de semana, ainda recebe festas de aniversário e de casamento na laje do bar – com serviço de bufê e tudo.
Para Batidão, tudo isso só revela que “o Piraporinha cresceu” – nome que a comunidade dá ao conjunto de bairros que formam o Jardim Guarujá. E, sem perceber, abriga no próprio bar uma metáfora disso.
É Acácia Rosa, que, caso não fosse árvore, seria parente: “Quando a guarda ambiental me informou seu nome científico, quase não acreditei no Rosa do meu sobrenome”, admira-se. Hoje Acácia tem 25 metros de altura e seu tronco atravessa o teto para dar sombra à laje-salão-de-festas. A façanha, de engenharia complexa, ocorreu durante uma reforma – financiada em 24 meses pelo HSBC – no ano passado. Até poema para ela ele já fez: “Te peguei no colo / Te plantei no solo / Te vi crescer”. Agora colhe a flor.
Fotos: Denize Guedes.
antiga, na camaradagem. Vale passar lá numa quarta.
coisas feitas pela simples observação. E ainda concordo com tudo isso, me
parece que quem mora na periferia é infinitamente mais feliz. Parece que sim.
Gosto da
expectativa + o frio na barriga das palavra formuladas pelos valentes sem
palco.
Vale ir! Experiência exclusiva made in BraZil.
