Será que as pessoas estão seguras na cidade de São Paulo?
Você pode estar num supermercado, num posto de gasolina abastecendo seu carro ou numa casa noturna e ter um integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital) bem ao lado. É de assombrar, não é? Mas será que você corre o risco de sofrer uma agressão por parte de quem deveria protegê-lo, da Polícia Militar, por exemplo?
Ou o que ocorreu foi um fato isolado, torço que sim.
Afinal, num desses locais de “gente de bem”, se, porventura, você se demorar na hora em que a polícia estiver atrás de um suposto integrante da facção, corre o risco de levar muito tapa na cara.
Só não apanhei, acredito, por trajar roupa social. E o tal integrante que não encontraram é porque não tinha, não. O que a PM queria de fato? Abaixo narro a triste história que ocorreu há uma semana.
Sexta-feira, 23 de outubro, 21 horas e quarenta minutos. Jardim Paulistano, extremo oeste de São Paulo. Periferia.
Acabo de chegar ao bar e, mal peço a gelada depois de um dia suave no trabalho, atropelam, de repente, cinco policiais, sem identificação na farda, com armas em punho. Invadem o bar gritando: “Mão na cabeça, não coça, não!”. Putz, e agora?
As cerca de dez pessoas que estão no bar põem as mãos na parede, são revistadas e depois levam as mãos à cabeça. Aí, vêm perguntando: “Tem passagem?”. Digo que não. “É do Partido?” Digo que não. O policial insiste: “Você é do PCC?”. Digo que não. Sou trabalhador.
Perguntam para todos, em torno: “Quem é do PCC aqui? Quem é do Comando?”. Todos negam ser integrantes da facção. Indignado, o único policial que está alterado quebra um taco de sinuca em cima da mesa, avisando que está apenas começando.
Como a frequência normal dos batimentos do coração é de no mínimo 60 e de no máximo 100 ciclos por minuto, o meu, com aquelas cenas, batia na casa dos 110 sem muito esforço, além do limite de velocidade estabelecido pela legislação do coração. Ataque cardíaco registrado no radar?
Resisti à selvageria, mas o abalo psicológico foi inevitável. Pensava comigo se esse policial aí espancaria todos nós, de tão transtornado; talvez enfrentasse algum problema familiar ou no próprio quartel; na lei da compensação: em segundos, transferiu-os todos para nós que ali estávamos.
O policial militar convoca o rapaz que trabalha no estabelecimento e pergunta a ele “quem é do PCC que está ali”; ele responde que ninguém. Neste momento, toma um tapa na cara e, ao levantar o rosto, leva outro e sofre ameaça. “Você está cavando sua própria cova. Temos denúncia de que aqui é o bar dos irmãos.” O policial vai para cima de outro frequentador do bar e desfere vários tapas na cara dele e o chama de “comédia”.
Pergunta se “é do PCC”, manda o homem se virar para os que estão encostados na parede e dizer a frase: “Eu sou comédia”. O homem pergunta, envergonhado: “Pra que isso, senhor?”. O policial comanda: “Fale pra eles que você é comédia”. Sem saída e com receio de apanhar, vira-se para todos e fala: “Sou comédia”.
A essa altura do campeonato de abusos, o jogo ainda rolava no primeiro tempo: e mais um taco de sinuca é quebrado na mesa; o taco não reage e a gente, muito menos, em silêncio absoluto.
Aos berros, o policial volta à carga: “Vocês têm de aprender a respeitar a polícia de São Paulo. Certo ou não certo? Certo ou não certo?”. O silêncio prevalece...
Pensei em me apresentar, em dizer: “Olha, sou jornalista; aqui só frequenta gente da gente”. Mas confesso que não imaginava qual seria a reação do policial exaltado; os outros quatro estavam tranquilos, serenos, fazendo o trabalho como deve ser feito, penso.
O policial ensandecido, estilo brucutu, chama outro frequentador, que tem tatuagem com um palhaço nas costas, e diz que ele é assaltante de banco, pois a tatuagem simboliza isso; mais um tapa na cara do rapaz.
Os documentos de todos são devolvidos, ninguém, naquele momento, deve nada para a Justiça.
Com o poder da farda, todos eram presas fáceis naquela noite. Outro frequentador, que tinha tatuagem com uma carpa na panturrilha, foi acusado acintosamente pelo policial de ser integrante do PCC. O rapaz apenas dizia que era trabalhador. Outro cidadão, que tinha duas máscaras de teatro nas costas, símbolo da arte dramática, explicou ao policial que se tratava de um desenho artístico, e o policial para ele, aos gritos: “Você é artista?!” Ele, acuado, silencia.
Ao final do segundo tempo, que jogo duro, este!, a torcida explodindo por dentro, mas sem poder gritar, jogo de um time só, o policial pergunta se alguém está devendo alguma coisa para o dono do bar; os que estão devendo vão pagando e indo embora, eu nem tive tempo de pedir a Brahma. Ele manda fechar o bar e dá o recado, mais uma vez: “A polícia está de olho em vocês”.
Fui embora triste, indignado, angustiado, sentindo-me impotente por ter presenciado cenas lamentáveis e não ter feito nada, falado nada; se dissesse “sou jornalista, o senhor não tem o direito de agredir ninguém”, resolveria? Tive medo, confesso; pois quem leu Rota 66, do Caco Barcellos, sabe o que quero dizer.
Espero que esse seja um fato isolado na periferia da cidade, tomara. Acredito em que a polícia esteja na rua para apurar os fatos, comprová-los e, se for o caso, prender os acusados, mas sem sair batendo na cara de quem está em um bar tomando cerveja, refrigerante ou jogando uma partida de sinuca.
Será que a Polícia Militar de São Paulo está deturpando seu papel? Tenho certeza de que não é esta polícia que está nas ruas de São Paulo, ou será que é? Tomara que não, mas pode ser que seja.
cheio de ódio. É uma pena. A história me fez lembra a letra de uma canção
do Mc Sombra, um dos rappers mais talentosos de SP. A canção se chama
'Abordagem de Rotina" e está no cd Sem sombra de Dúvidas. Na canção, o
rapper relata também a trucilência de PMs. Essa história precisa mudar.
um taco de sinuca. Como jornalista, seu papel está feito, registrando
publicamente os fatos, talvez seja o caso de avançar mais e protocolar uma
denuncia na corregedoria. Grande abraço
triste.
Parabéns pela nmatéria.
honrar a profissão.
Belo texto. Tomara que essa não seja a polícia que está
em toda parte. O povo brasileiro não merece.
Tenho orgunho de ser sua
amiga.
Continue irmão.
abraço, do amigo Xico
Parabéns pelo texto. Uma forma limpa e direta de relatar fato tão
abominável e, infelizmente, corriqueiro. Basta andar a noite pela cidade de
São Paulo para sentir o perigo que os carros vermelho e branco representam. E o
grande paradoxo é saber que sem a polícia, estamos perdidos. Ou estamos
perdidos de qualquer maneira?
última vez que isso vai acontecer. De tudo acontece na periferia.
De resto,
em todas as profissões sabemos que existem calhordas. Melhor parar por aqui.
Sigamos em frente.
Lembrei de um som do Ratos de Porão que transcrevo abaixo
em homenagem ao seu relato.
AGRESSÃO/REPRESSÃO
É preciso mudar o
sistema policial
Porque eles estão matando a pau
Gente decente
É preciso
mudar o sistema policial
Porque eles estão matando a pau
Gente inocente
Em
vez de proteger a população
Vivem agredindo algum cidadão
Sem nenhuma
razão
Agressão/Repressão
É preciso mudar o sistema policial
Porque já
estamos cansados de agressão
Agressão/Repressão
não é pouco!!!!). Parabéns.
abração
todo o ser humano tem uma necessidade profunda de exercer seu poder, seja qual
ele for. Esses caras têm o poder de tirar a vida das pessoas, e isso é muito
perigoso. Sorte que ainda são minoria. Rezemos para que se tornem cada vez mais
escassos....
