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E ele foi-se embora. Embora a palavra daí derive, não foi em boa hora. Nunca é uma boa hora a hora em que fomos abandonadas. Nenhuma hora é a hora certa para ficarmos cara a cara com as prateleiras vazias de um guarda-roupas. Ele simplesmente virou as costas e foi-se embora, batendo a porta atrás de si. Deixou um vácuo. Um buraco negro que se alimentou de toda e qualquer energia no espaço ao seu redor. Deixou um rastro de dor e poeira atrás de si, pegadas feridas, gotas ressecadas de um sangue que já não mais circulava, passos cheios de dúvida e de rancor. Ele não disse adeus, fez-se adeus. Ele saiu e ficou apenas na sala, enchendo a sala inteira, em cada canto, em cada fresta, a sua expressão de pesar. E a sua ausência inconteste. Ele foi-se embora e a deixou só com seus medos e suas manias, o seu mordiscar de unhas, o seu movimento involuntário nos cabelos, o seu piscar de olhos característico, lento, carregado de esperança e desejo de que a paisagem mude a cada fechar e abrir de olhos. Ele foi levando as malas sem esforço, ele fez as malas sem esforço, ele as carrega como se fossem leves, ele não sabe nada sobre o peso que há naquelas malas. Ele tem braços fortes e levou os seus braços fortes para bem longe dela. Ele carregou consigo os braços fortes, assim como os abraços, o sorriso, o sabor do beijo, o cheiro de amor nas cobertas. Ele carregou consigo a vida que realmente importava. Ficaram os discos e os livros, fodam-se os discos e os livros. Ele disse que não voltará. E que não voltará a dizer mais nada sobre o que quer que seja. E se foi.
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