Sim, faltei ao trabalho hoje – tirei o day off para preservar meu emprego. Sei que parece contraditório, mas sei melhor ainda e exatamente o que me espera hoje lá. E tenho quase certeza de que iria pedir demissão por absoluta falta de paciência com a bagunça, a confusão, o barulho e principalmente as pessoas, com seus sorrisos imbecilizados e reações previsíveis. E fazer de hoje um deiófi é um luxo a que eu até posso dizer que tenha algum direito, pois o meu setor está com a pauta de trabalho em dia, coisa que eu não poderia dizer de forma alguma dos outros departamentos.
Tenho um cargo de chefia e deixei trabalho delegado para os pamonhas – muito eficientes, diga-se de passagem – da minha equipe. Deixei uma pauta de pedidos de financiamentos a serem analisados, tudo organizado e bem especificado, não havia motivos para dúvida. Já liguei dizendo que estou doente e que ficarei em casa de molho. Deixei tudo esquematizado e até estaria tranquilo em faltar, a não ser por uma certeza. A de que tudo o que foi combinado não será seguido, que vai acontecer de tudo para furar o esquema. Sei como tudo vai rolar, porque toda sexta-feira é assim. E é justamente por isso que optei por não ir. Não quero ver essa desestrutura de perto.
Sei exatamente que, se por um acaso perdesse novamente um arquivo hoje, estaria perdido. Quebraria o meu monitor de tela plana na cabeça da minha assessora mais próxima. Ou mesmo em uma cabeça distante, pois eu o arremessaria com tal fúria... Talvez hoje não suportasse o sorriso cheio de dentes da recepcionista, uns dentes tão brancos e fartos, sempre sujos de batom nos caninos, um sorriso constante que me dá um nó bem no meio da faringe, me impedindo às vezes de engolir. Se o sistema saísse do ar hoje em alguma etapa importante de algum processo que estivesse executando, como ocorre sistematicamente, talvez ateasse fogo às vestes.
Então resolvi ficar em casa, para não arcar com as consequências do que certamente faria. Se aquele office-boy aparecesse de novo com o capacete para trás na cabeça, dentro do escritório, de óculos escuros e cheiro de gasolina, com as mangas falsas sob a camiseta de grupo de heavy metal, acho que poderia bem degolá-lo, separando-lhe a cabeça do corpo, mas mantendo o capacete meio enfiado na cabeça, aquele capacete todo adesivado, jogado para trás, do jeito que ele gosta de andar. E que me irrita profundamente.
Se a jovem senhora gordinha do andar de cima aparecesse, então, pedindo pela décima vez nesta semana para alguém configurar a impressora dela, não responderia pelos meus atos. Talvez não suportasse assistir impassível a seu jeito de falar e ajeitar os óculos, de alisar as roupas sempre nos tons mais variados de bege, se é que se pode falar em variação de tons de bege. Perturbava-me também muito profundamente o fato de encontrar sempre – sempre, sempre! – algum farelo de alguma coisa também bege na saia dela. Biscoito integral, cream cracker, torradinhas light, algo assim, com certeza. Algo crocante e bege. Meu bom Deus, sinto que às vezes me é impossível acreditar como as pessoas conseguem se repetir tanto.
Resolvi que seria mais produtivo hoje, como ser humano em idade produtiva, ficando em casa e tentando resolver pendências de ordem pessoal que a gente vai sempre deixando para trás. Resolvi fazer então uma lista do que poderia fazer no meu deiófi, a saber:
1- Limpar o aquário e alimentar o peixe;
2- Mudar as plantas dos vasos onde elas não cabem mais;
3- Comprar algumas camisas;
4- Bater alguma punheta;
5- Ler alguma coisa que não fosse proposta de financiamento ou resultado de aplicações;
6- Cortar o cabelo;
7- Lavar o carro e trocar os tapetes rasgados;
8- Tentar configurar meu computador pessoal à internet a cabo, que coloquei em casa e ainda não consegui usufruir;
9- Olhar um pouco mais detalhadamente para minha cara no espelho;
E...
Nem consegui chegar ao décimo item. Nessa parte da lista, me lembrei de que me olhar no espelho era algo que definitivamente havia algum tempo não fazia. Fui até o banheiro e, em pleno início do meu deiófi, me deparei com alguns detalhes do meu rosto que não estavam ali há poucos anos, talvez meses, em um tempo relativamente distante em que me olhava de vez em quando no espelho. Não estou falando das rugas ao redor dos olhos, nem dos cabelos brancos que apareciam nas laterais da cabeça, nem nas entradas de uma calvície tímida que me ampliavam a testa. Estes detalhes até que, com um pouquinho de boa vontade, poderiam me conferir um, digamos, certo charme. Falo da secura dos meus olhos. Do jeito deles.
Não gostei nada do que vi naqueles olhos que olhavam os meus do outro lado do espelho. Fiquei intrigado e irritado com eles. Talvez não devesse mesmo fazer nada daquelas coisas que havia colocado na lista de afazeres do meu deiófi e, principalmente, talvez não devesse jamais ter começado por esse nono item.
Assim, passei o resto da manhã intrigado, fugindo do espelho e do olhar que ali havia, deitado e olhando para o teto e imaginando o que estaria fazendo se tivesse ido ao escritório. Mas concluí que o melhor a fazer era seguir fazendo nada, sob o risco de cometer alguma loucura, se resolvesse fazer algo. Às vezes é melhor nem tirar o pé da cama, como dizem por aí. Ou talvez nem dormir, para não ter que acordar no outro dia.
bege?
