As oficinas literárias foram um dos principais destaques da segunda edição do Festival da Mantiqueira – Diálogos com Literatura, realizado nos dias 29, 30 e 31 de maio no distrito paulista de São Francisco Xavier, município de São José dos Campos.
O objetivo central de todo o festival, nas palavras de boas-vindas de André Sturm, seu curador: “Estimular o prazer da leitura e aproximar público e literatura”.
Através de concurso realizado pela Associação Paulista de Amigos da Arte e Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, foram selecionados os trinta professores e trinta estudantes participantes das oficinas. Estudantes de variados cursos, mas os mais recorrentes eram letras e pedagogia.
E eu estava lá, no meio.
Comecei a observar as pessoas que estavam ali, ao meu redor. De um lado, o escritor já consagrado, movido pela vontade de transmitir um pouco de sua experiência e conhecimentos. De outro, os estudantes, com palavras saltando pelos olhos e ouvidos atentos para captar os ensinamentos de quem já conseguiu chegar ao lugar almejado.
Corpos em alerta para, quem sabe, vislumbrar onde começa o caminho, e depois botar a mochila nos ombros e seguir.
E quantos conflitos haveria naquela sala? Quantos estavam ali pela vontade de se tornarem também escritores?

Livro-arte exposto na Tenda Cultura sem Limites: bonita costura poética.
Paixão pela palavra
Comecei a questionar, informalmente. Descobri que muitos querem ser professores, fazer mestrado e pesquisar literatura. Outros querem estar perto das palavras de outra maneira, nas bibliotecas. Alguns já faziam propaganda de seus escritos. Outros disseram não ter nada escrito. Diversidade interessante, mas com algo em comum: a paixão pela literatura.
Perguntei se acreditavam que o festival estivesse cumprindo seu objetivo, e aproximando realmente leitores e escritores. A resposta foi afirmativa e unânime, com muitas justificativas.
Houve quem dissesse que se tratava de uma ótima oportunidade para conhecermos melhor não só as obras dos autores, mas também o pensamento e a maneira com que eles criam suas obras. Outros lembraram que só conheciam alguns daqueles escritores em fotografias. Alguns responderam que não conheciam nenhuma obra dos escritores, e que, a partir dali, tentariam tomar conhecimento.
E o entusiasmo coloria as vozes, que trocavam informações e vontades pelos corredores da escola: “Eu quero ver a palestra do Luis Fernando!”; “Eu quero ver a tenda sobre Monteiro Lobato!”; “Não posso perder a discussão sobre romances policiais!”.
No refeitório, entre uma e outra colherada de caldo de feijão, as conversas relacionavam literatura e outras artes: “Gosto de literatura e cinema! Vou fazer meu TCC sobre isso”, dizia a estudante de letras. “Os livros são sempre mais legais do que os filmes, por permitirem a construção da imagem por parte do leitor! Querendo ou não, os filmes já vêm mais prontos”, argumentava outra estudante.
E trocavam-se impressões sobre livros e autores: “Eu estou lendo Jorge Amado”; “Eu gosto de literatura realista”; “Eu leio vários livros ao mesmo tempo!”.

Na Tenda Cultura sem Limites, poesia se esparramava como roupa no varal.
Personagem e conflito
Na sala de aula, Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor e estudioso de literatura açoriana, desenhava pontes da criação literária: “O problema dos clichês é que o leitor não lê, não precisa elaborar. Por isso, a ideia não fixa”.
Tratava também de personagens famosas, como Madame Bovary: “A personagem é quem arrasta a história”, defendia.
E os aprendizes, exercitando os ensinamentos, criavam personagens com clichês, paradoxos, fragilidades e necessidades. Personagens complexas, contraditórias. Pois, segundo o professor, “quanto maior for a contradição da personagem, mais forte literariamente ela será”.
No último dia da oficina e do festival, domingo, 31 de maio, tratando do enredo da história, Assis Brasil confidenciou: “Literatura só existe se existe um conflito”. E como nem tudo são flores em um romance, houve quem reclamasse da organização do festival, que apresentou pequenas falhas de comunicação. Mas nada que manchasse a sua imagem.
Ao final, foram três dias de oficina, com duas horas de duração cada, e os estudantes mostravam-se satisfeitos com os aprendizados: “Incrível que, em pouco tempo, eu tenha aprendido tanta coisa!”, eu ouvi de um, e quem estava por perto concordou.
Três dias de muita literatura, e a pequena São Francisco Xavier transbordava palavras em suas ruas de paralelepípedo, em sua arquitetura charmosa e nas montanhas verdes e frescas. E não houve quem não voltasse de lá grávido de palavras e mais faminto de literatura. Deixei a cidade no domingo à noite. Olhei para trás e pensei: “Tchau, São Francisco... Até o ano que vem!”.
*Fotos de Fernanda de Aragão.
