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Festival atraiu nomes de destaque, como os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2008.
 

Pode-se dizer que a segunda edição do Festival da Mantiqueira – Diálogos com Literatura, realizado no último fim de semana de maio, em São Francisco Xavier, distrito encarapitado na Serra da Mantiqueira, tenha sido marcada pelo estreitamento entre a psicanálise e a literatura.

A mesa mais disputada de todo o festival, sobre “Literatura Policial”, em homenagem ao bicentenário de nascimento do escritor Edgar Allan Poe, levantou a questão, principalmente na voz do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, que já publicou oito livros sobre filosofia e psicanálise.

Garcia-Roza lembrou o público de que o crime ultrapassa a mera descoberta de quem deu o tiro, vai além do behaviorismo (estudo do comportamento), já que se trata de uma significação. Para o autor, o crime opera com os signos, que são sempre ambíguos.

Os laços que estreitam a psicanálise e a literatura também foram apertados na mesa com os autores finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura do ano passado, na categoria Melhor Livro de Autor Estreante. Dois dos quatro finalistas, Tiago Novaes e Wesley Peres, como bem lembrou o mediador da mesa, o escritor e crítico Manuel da Costa Pinto, são psicanalistas.

Sigmund Freud também retornou à cena com Sérgio Paulo Rouanet, que, na mesa sobre “Paixão”, fez um paralelo entre o tema e a literatura, evocando o conceito do princípio do prazer.

Segundo Rouanet, se o leitor é mais ou menos um tarado por literatura, o autor mergulha no inconsciente em busca de verdades que só poderiam ser aproveitadas através de uma ciência mais profunda.

Também não descartou as formas de materialização envolvidas, dos desejos e das angústias que a literatura pode evocar, seja por meio da paixão de ler, seja por meio da paixão de escrever.

Literatura e difusão

Na mesa que reuniu os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, o escritor Wilson Bueno, autor de Meu Tio Roseno, a cavalo, lançou o tema das fronteiras da literatura, ao declarar que hoje não existe mais a província, uma vez que, com a interconexão de pessoas em rede, via web, tudo ficou muito perto.

Segundo Bueno, a revista eletrônica Trópico, de literatura e arte (veja aqui), em que assina coluna, obtém de 60 mil a 200 mil acessos diários. Mesmo que poucos destes leitores tenham chegado lá por um interesse literário específico, explica Bueno, a percepção é a de que o autor, hoje, é muito mais lido do que antes; dispõe de um público bem maior do que aquele formado pelos três mil exemplares que levam quatro anos para serem vendidos.

Também participantes da mesa, os escritores Cristovão Tezza e Menalton Braff elogiaram o papel multiplicador da Internet, que favoreceu a divulgação do livro e deu à palavra um alcance jamais visto.

Tezza também falou da surpresa que foi ver seu livro O Filho Eterno ganhar os principais prêmios da literatura nacional e ainda virar best-seller. O autor afirmou que o romance, que aborda sua experiência real com o filho portador de Síndrome de Down, foi um dos mais difíceis que escreveu. E que só pôde fazê-lo quando a história do filho deixou de ser um problema pessoal, íntimo e se transformou num problema literário.

Menalton Braff, autor de À Sombra do Cipreste, concordou com Tezza, dizendo que foi preciso, emocionalmente, que ele derrubasse impérios para escrever.

O brilho além-mar

O autor internacional convidado para essa edição do Festival da Mantiqueira foi o português Miguel de Sousa Tavares.

Ao comentar seu romance Equador, o autor disse escrever para o leitor e não para ele. Sobre seu processo de criação e trabalho, Sousa Tavares afirmou que não sabe se é um escritor, mas que sabe que é um contador de histórias.

O escritor português também analisou as fronteiras entre as literaturas brasileira e portuguesa. Para ele, seu vocabulário seria mais pobre se não conhecesse os grandes nomes da literatura brasileira, empobrecimento esse de que também sofreria o escritor brasileiro que ignorasse os clássicos portugueses. Para Sousa Tavares, as duas literaturas se enriquecem mutuamente.

 


Miguel de Sousa Tavares: “Sou um contador de histórias”.

 

Literatura e música

Neste segundo Festival da Mantiqueira, mais uma vez se evidenciou o que a música e a literatura têm em comum: palavras.

Maxixe Machine, grupo curitibano, foi o primeiro a subir ao palco da tenda principal, destilando sambas antigos, atuais e muita personalidade.

Depois, no espaço Photozofia Arte & Cozinha, tradicional ponto de encontro da música brasileira independente em São Francisco Xavier, foi a vez de o grupo Rádio Comida dar um tempero especial ao festival, com “A volta ao mundo em 80 mordidas”.

Trata-se de uma paródia bem-humorada de letras, canções e músicos de diversos estilos e países: Tutu Santos, Roberto Cravos, Zezé de Aspargos, Café Ramalho, Elis Tangerina. Deu pra imaginar?

 


O grupo Rádio Comida bota no tacho música e escracho: prato bom de comer.

 

Já na onda dos escritores que são músicos e dos músicos que são escritores, numa prova de que a arte é plural, Luis Fernando Verissimo acabou por fazer, também no Photozofia, dois shows seguidos com sua banda Jazz 6, que virou um quinteto com a saída de um dos integrantes.

Quem se apresentou no coreto da praça foi a banda Rádio FeNeMê e seu repertório dos anos cinquenta. Auro e Chicão, integrantes do grupo e adeptos do cordel, conquistaram a plateia ao tocarem Motosserra Blues, uma denúncia ao desmatamento da região.

Também subiram ao palco Marina de La Riva e a Orquestra Sinfônica de São José dos Campos, município ao qual São Francisco Xavier pertence. A ausência ficou por conta da cantora, compositora e atriz Fortuna, que cancelou a apresentação que fecharia o festival.

 


Conheça os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2009

Por Fernanda Aragão

O segundo Festival da Mantiqueira – Diálogos com Literatura também marcou o anúncio oficial dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2009, que é promovido pelo governo de São Paulo.

Para Melhor Livro do Ano, os indicados foram: Flores Azuis (Carola Saavedra); Acenos e Afagos (João Gilberto Noll); A Viagem do Elefante (José Saramago); Milarmor (Lívia Garcia-Roza); O Livro dos Nomes (Maria Esther Maciel); Órfãos do Eldorado (Milton Hatoum); Manual da Paixão Solitária (Moacyr Scliar); Galiléia (Ronaldo Correia de Brito); Heranças (Silviano Santiago); e O Ciclista (Walther Moreira Santos).

Na categoria Autor Estreante, os finalistas são os seguintes: Altair Martins (A Parede no Escuro); Contardo Calligaris (O Conto do Amor); Estevão Azevedo (Nunca o Nome do Menino); Francisco Azevedo (O Arroz de Palma); Javier Arancibia Contreras (Imóbile); Marcus Vinícius de Freitas (Peixe Morto); Maria Cecília Gomes dos Reis (O Mundo Segundo Laura Ni); Rinaldo Fernandes (Rita no Pomar); Sérgio Guimarães (Zé, Mizé, Camarada André); Vanessa Barbara e Emílio Frais (O Verão do Chibo).

No ano passado, Cristovão Tezza vencera o prêmio de melhor livro, com O Filho Eterno; e Tatiana Salem Levy, o de autor estreante, com A Chave de Casa.

O Prêmio São Paulo de Literatura paga R$ 200 mil ao vencedor de cada categoria.

Veja também como foram as oficinas literárias do festival, no relato de Letícia Mendonça, clicando aqui.

 

*Fotos de Fernanda de Aragão.

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