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No meu tempo de moleque, ninguém tinha uma profissão em mente para se apegar no futuro, e todos, sem exceção, queriam ser jogadores de futebol. E olha que, naquela época, nem dava tanto dinheiro assim. Mas não sei se pelo romantismo, se pela magia ou se simplesmente pela falta de perspectiva... Sei lá, só sei que todos nós queríamos ser jogadores de futebol. Eu, apesar da idade, confesso que ainda quero.

Mas o tempo passou, o Morumbi e o Maracanã envelheceram em mim e a memória, esse estádio vazio, toma dribles maravilhosos da lembrança, e tudo que lembro são os gols perdidos. Perdi muitos gols cara a cara com o goleiro, por isso não sou jogador, por isso não sou doutor. Tomei muita vaia do destino.

Não lembro de nenhum amigo desta época que tenha sequer passado na peneira de algum time profissional, poucos viraram doutores e uns tantos não “lerão” este artigo, se é que você me entende.

A violência sempre fez muitas faltas no nosso jogo, e quase todas por trás. Dói só de lembrar.

Apesar dos intervalos, lembro-me de partidas inesquecíveis, dessas que começavam pela manhã e seguiam tortuosas pela tarde, interrompidas apenas pelo almoço e o café das três.

São momentos inenarráveis, passados com esses parceiros de time, esses meninos sábios e imortais, sem presente e sem futuro deslizando os pés descalços pelo chão.

Corpos quase nus, riscávamos a paisagem com nossas peles cravejadas de ossos e temperadas de suor. Eram os melhores momentos de um tempo em que o destino entrava de sola em nossas vidas.

Hoje, aquele campinho de terra, que esculpimos com as nossas próprias mãos, é um grande cemitério, e muitos deles, craques interrompidos, estão ali, enterrados com seus sonhos, antes mesmo de o jogo acabar.

Outros, por desrespeitarem as regras, cometeram pênaltis desnecessários (?), e, por ordem dos juízes, foram mais cedo para o chuveiro.

Para minha tristeza, muitos ainda continuam cometendo faltas, sem medo de tomar cartões vermelhos ou amarelos, sem se importar com a força do adversário, sem se importar com a cor da camisa, sem se importar com os derrotados, se importando apenas em vencer, e vencer a qualquer preço.

Às vezes, muitos são substituídos com o jogo em andamento, alguns, antes mesmo de tocarem na bola.

Quando se fecham as cortinas, perder sem jogar é uma derrota difícil de aceitar.

Por isso, quando a dor sai do vestiário e a saudade entra em campo, faço um minuto de silêncio, deixo uma lágrima rolar e jogo por eles a prorrogação.

Comentários
Germano Gonçalves | 02/07/2009
Caro colega Sergio Vaz, que texto.
Até hoje fico a pensar se aquela bola
entrasse, até hoje estou à procura do meu gol, o gol que vai fazer de minha
pessoa um verdadeiro campeão. E quantos terrenos baldios nós não carpimos
para fazer campinho de futebol, depois o dono do terreno chegava e nos expulsava
e, lá estava seu terreno todo carpidinho, quase que feito uma terraplenagem,
mas tudo bem pela magia do futebol de rua, pelada e coisas a mais valia a
pena.
Sei que vou marcar meu gol que vai fazer com que me esqueça dos gols
perdidos.
Valeu mesmo cara.
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