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Gabriel Beautrace, o naturalista, saiu de sua cabine e a enxurrada lhe cuspiu a cara. O aguaceiro escorria excessivo e sem controle do céu, como a cachoeira das calhas do grande veleiro.

Foram os seus espécimes. Os potes de insetos que, no balanço de labirintite da embarcação, caíram e agora rolavam pelo convés feito crianças levadas. Beautrace correu atrás, apavorado, para manter suas incríveis descobertas em segurança.

No céu escuro, violento, os trovões estouravam sem se saber de onde. As velas soltas e livres, felizes pelo descanso das cordas frouxas, bailavam sua dança no vendaval. A tripulação concentrava-se, aguerrida, a amarrar os barris e trancar os víveres, recolher as velas fujonas.

O capitão não largou do timão, bêbado e gargalhando, atado, sob suas próprias ordens, às madeiras do tombadilho com a corda-serpente. Senhor, se era a hora de seu navio, de sua menina, também seria a sua.

Os marujos de barbas valentes tornavam-se visíveis sob o brilho estroboscópico dos relâmpagos, um instante apertando um nó em desespero, um instante lutando para se manterem de pé, um instante rezando a uma garrafa de aguardente.

Beautrace penava para retornar à cabine, uma mão ocupada em empilhar três jarros de borboletas, a outra a segurar o equilíbrio, apoiando-se, dos mastros aos canhões, e se aproveitando do sobe e desce do barco para chegar finalmente à porta.

Viu, desesperado, o jarro com os besouros passar girando na direção de cair ao mar. O moleque Mirandinha, agarrado a um parapeito próximo ao capitão, também. Se conseguisse recuperar esses espécimes, seria sua chance de Beautrace o adotar como aprendiz.

O vidro mergulhou na água, o menino se desprendeu da embarcação e pulou junto. No caos das ondas famintas, conseguiu, por milagre, nadar até a ele e agarrá-lo como a uma boia. Os besouros, ainda vivos, espalhados de cabeça para baixo, com as patinhas se movendo lentamente, tensas.

O moleque Mirandinha gritou para o vulto distante do barco, a água salgada e remexida gargarejando a sua voz, iludindo-se da ideia de que era imprescindível. A menina já ia dar a volta, já iam lhe jogar uma corda. Já iam, já.

 

Comentários
João Vereza | 14/10/2009
Gostaria de agradecer ao irmão Fábio Vieira, pelo breve bate bola sobre termos
náuticos. Não que ele entenda alguma coisa, mas, como diriam os escritores de
verdade, os méritos dos acertos são dele, as culpas pelos erros são minhas.
Fabinho Vieira | 14/10/2009
Não fez, nem faz, nenhum sentido o que conversamos.
Mas virou um belo texto.
Ahh virou...
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