– Você não vai vê-lo na tevê?
– Caso coincida...
– Como assim?
– Se eu não tiver coisa melhor para fazer.
– E isso não é fazer pouco caso?
– Seria para você?
– Acharia que você não gosta de mim.
– Só por não vê-lo num programa de tevê?
– É que você me faltaria em apoio.
– Eu prefiro o homem ao artista.
– E isso faz diferença?
– Não deveria.
– Não entendo, você não gosta dele?
– Depois de mim, sim.
– Não fica com ciúmes do palco?
– Lá é fingimento.
– Na tevê também?
– É exposição. O que é de dentro, para dentro fica.
– A essência?
– O homem. Aquele a quem conheci.
– E o homem não é o artista?
– Na alma; não na tevê.
– No palco?
– É script.
– Quando, então?
- Na criação. E por aquilo que o faz criar.
– O sofrimento de todo artista?
– Ou a alegria.
– Vida?
– Homem!
Eu estava sentada num dos meus botecos preferidos, degustando meu amigo de esquerda, quando ele veio com este papo de homem e mulher, que eu deveria isso porque o homem é aquilo outro. Tivemos um relacionamento tempos atrás, quando ele, muito adventista, guardava o sábado. Minha criancice foi fazê-lo escolher entre mim e o que ele religiosamente acreditava. Deu certo, mas as coisas mudaram. Um mês depois seguimos rumos diferentes, de uma separação previsível. A lição veio de chofre, com palavras dele escolhidas a dedo, pura diplomacia, quando passei a vê-lo como homem, e admirá-lo em sua essência.
“É, o que é de dentro, para dentro fica”, ele me repetiu sonoramente, sem esconder a risada que lhe escapava com as lembranças de nós dois, nos tempos idos. E continuou: “Ainda me lembro de quando você corria atrás de minha tevê a cabo, sentava no meu sofá e já não tínhamos mais nada, tomava o controle-remoto das minhas mãos e saía loucamente mudando os canais em busca dele, nos programas de esporte. Estava deslumbrada por ele ser famoso, um ex-jogador da seleção brasileira de futebol, técnico de uma grande equipe e, hoje, empresário. Aliás, vi, numa reportagem no Canal Rural, que ele está exportando para o Japão. Deveria ter se casado com ele, 20 anos mais velho, fez de você uma mulher, coisa que eu não consegui. Hoje você é esta alegria madura, permite que os homens sejam quem são e dá uma forcinha praqueles que se desperdiçam...”
Enquanto ele ia falando, eu ia me lembrando das coisas sem nada dizer. Eram apenas meus pensamentos feitos no esforço de me revelar existir uma inocência que se fez madura antes que eu me desse por conta, ou pudesse suportá-la. Antes dos vinte eu já era mulher. Nada de cúti-cútis, nhém-nhém-nhéns, meu docinho de coco. E eu me achava perfeitamente capaz de abrir a porta do carro sozinha, seguir com minhas próprias pernas para a cama dele e de lá sair dois dias depois, na segunda-feira antes do amanhecer, apenas para cumprir os horários na vida, duzentos quilômetros adiante.
Meu amigo de esquerda foi categórico em sua diplomacia: “Você gastou sua meninice com o tempo de tevê a cabo que lhe dei de empréstimo, e gastou tanto que não lhe sobrou nada para aqueles que lhe vieram depois: o jornalista queria mais do que sua tietagem, sabia? O roteirista de cinema, também. E nessa de você sempre se voltar para os melhores, aquele italiano apaixonado, mestre falcoeiro e diretor do museu nacional, também. Você deveria ter pegado o avião sem titubear, mulher. Ao contrário, caiu nas garras de um PhD respeitado, igualmente televisivo como todos os outros, trinta anos mais velho, o que lhe rendeu quase dez de relacionamento. Ele lhe exigiu mulher, e não uma qualquer, é por isso que hoje você é assim, querida...”
“... mais mulher do que criança”, pensei depois de ter optado por fechar os ouvidos daí por diante. O fato é que eu não queria saber o que eu era, ou deixava de ser. Havia passado os últimos tempos recuperando parte desta menina que nem sequer existiu, e só consegui trocar os pés pelas mãos. Além de ter descoberto, em mim, uma falta de paciência para os homens com menos de dez anos a mais do que eu. Falta de habilidade mesmo, por conta de um vai-num-vai sem tamanho, destinado às meninices que tanto me desacostumei. E beirando os 40, lá vai o artista se engraçar na tevê. E depois dos 40, lá vai o empresário fazer consultorias na tevê. Como os que me vieram antes: o jogador de futebol, o jornalista internacional, o diretor de cinema, o mestre falcoeiro e o PhD. Nada disso importava. Eu só sabia de mim, ali, sentada no meu boteco preferido, olhando meu amigo de esquerda, primeiro ex-namorado, e pensando que talvez tivesse sido melhor se eu tivesse guardado os sábados, lá nos tempos idos.
Mas então eu estava lá, sentada, degustando meu amigo de esquerda e pensando nos sábados que não guardamos, quando ele me noticiou ter feito a prova do Rio Branco, que dali para adiante seria um diplomata e que também teria a televisão como destino, “o que não poderia ser diferente, minha querida, já que você vive entre os melhores...”. Nas entrefrases me contou seus planos, seus projetos e falou da sociedade, do país e do mundo. Pensou Angola, Dublin, Irã, Iraque e Vaticano, todos os países com o mesmo cabimento. Falou do Obama, do mercado de capitais, da crise provocada pelos Estados Unidos, do homem que caçava pipas, da menina que roubava livros, dos irmãos Castro, Raúl e Fidel. Do ministro da França e da rainha da Inglaterra. E bem no meio de tantas reflexões socialistas, democratas, capitalistas e protestantes, ele me abriu o jogo, disse que marcou o almoço só para me agradecer por eu tê-lo feito desistir de guardar os sábados.
vermos seus livros?
Beijos,
Livro a caminho, beijao.
Um abraços, Esther, vamos que vamos!
