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Era a carta de número 128 que escrevia para ele. Nas outras 127, todas numeradas, dizia mais ou menos a mesma coisa. Falava da saudade que sentia dele, apesar de nunca terem ficado juntos. Novidades, contava poucas. Reclamava da solidão e, principalmente, de si mesma.

Desta vez, escrevia na carta, teria a coragem que havia lhe faltado por 127 oportunidades. Aos 58 anos, tendo se passado trinta desde que escrevera a primeira vez, já não lhe sobrava muito tempo. Tampouco pudores. A verdade era que o amava, pronto. E que sempre o havia amado, desde a carta número 1. Ou, talvez, até mesmo antes disso. Por todo esse tempo, vivera para esperar uma resposta dele, um aceno que fosse.

Releu o que acabara de escrever. Depois, leu mais uma vez. Assinou “com amor, sua”. Dobrou o papel, lambeu o envelope, abriu a gaveta e pegou a caixa. Ali, guardou a carta 128 junto de todas as outras 127.

Não idênticas, mas iguais. Arrumadas numa fila amarelada de cartas que vinham sendo escritas há trinta anos.

A carta 129 ela enviaria. Talvez.

 

Comentários
Juliana Silva | 04/11/2009
Tomara que você escreva outros 129 textos tão bons. Parabéns.
Juliana Almeida | 07/11/2009
Apaixonante
Nile Tranjan | 09/11/2009
Ah, a solidão...
Marcio Rolla | 09/11/2009
Marcelo, há muito tempo não leio algo tão bom. Me fez dar mais valor ao amor
que tenho. Muito obrigado.
f | 10/11/2009
Condinho, toda essa emoção saiu de você?! Jesuis! Tá um dos mais lindoos.
bjubju
Muito Bom!
Ricardo | 12/11/2009
Gostei muito do texto. Interessante, conduz a gente até o final. curioso. leve.
muito massa. legal. parabéns!
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