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Editora

Ser escritor é algo estúpido. Muitos acham que ser produtor de histórias é algo inteiramente bom. Não é assim, infelizmente. Primeiro que escritor não é considerado profissão, já tentei e argumentei em vários lugares, mas não adianta, não está na lei.

Certa vez, recitava um poema em frente ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, para ver se conseguia chamar a atenção do público para meus livros e, quem sabe, vendê-los. Sabe o que ouvi?

Uma mulher passou por mim e disse, quase num resmungo: “Vai trabalhar, vagabundo”.

Outra vez cheguei a Fortaleza, onde participaria de um debate sobre cultura. Na recepção do hotel, tive que preencher uma ficha. Num espaço, pediam a minha profissão, e lá coloquei todo orgulhoso: escritor.

Após entregar a ficha ao funcionário, aguardava ansioso pela chave do meu quarto, precisava de um banho. Mas o atendente examinava a ficha e olhava para mim com cara de desconfiado. Perguntei se tinha algo de errado e ele disse: “O senhor não tem profissão?”.

Por isso, quando, muitas vezes, alguém diz para mim que é escritor, digo em pensamento: “Grande coisa”.

A firma em que o escritor trabalha é conhecida pelo nome de editora. Geralmente, essa firma recebe a produção de um escritor, analisa e, se for boa e propícia para aquele momento, paga uma pequena porcentagem ao autor. Isso, se o produto der certo no mercado.

Mas o produtor de histórias não tem os benefícios de um trabalhador. Queria eu que as editoras funcionassem de fato como empresa que tem compromissos trabalhistas com seu funcionário. Ah, como seria bom ter um salário mensal, férias, décimo terceiro, FGTS, aposentadoria, cesta básica, folga e ser considerado um verdadeiro trabalhador. Acho que, pelo menos assim, seríamos gente com profissão.

Personagem

Até hoje, de todas as personagens que criei em minhas histórias, não gostaria de ser nenhuma. Tudo porque sempre coloco raiva quando invento uma personagem. Meus conflitos viram pessoas literárias e sinto-me aliviado quando vejo uma criação andar sem mim. Isso, porque, às vezes, o ódio é tanto, que a ficção aprende a andar sozinha. Em alguns momentos, chego a ter dó das minhas personagens pela vida que levam. São tantos “nãos” e “tropeços”, tantos pensamentos medíocres e ideias estranhas, que tenho medo de que isso tudo seja do meu inconsciente.

Afirmo o tempo todo que não é, para eu mesmo tentar acreditar. Falo que isso é criação mentirosa e que todo escritor é um bom mentiroso. Mente tão bem, que faz o leitor chorar, rir, se corroer por dentro, sentir dor, ir para a frente ou voltar para trás.

Acho que sempre judiei dos meus leitores quando se fala em personagem. Mas ainda busco uma personagem diferente, uma apenas, mas que essa faça um grande estrago em quem conhecê-la. Uma personagem que arranque do leitor lágrimas de sangue, que acelere o seu coração, que perturbe os pensamentos, que faça guerra na paz, que faça um furacão por dentro, enfim, que traga tudo de ruim para o leitor, mas que, ao fechar o livro, esse leitor seja e esteja uma pessoa melhor do que no início da leitura.

Ainda sonho com essa personagem e só quando conseguir criá-la é que estarei em paz comigo mesmo.

Circulação de livros

Tenho cá comigo que o livro deveria ser de todos. Não adianta vir com o discurso demagógico de que todos têm acesso a esse objeto. Mentira. Os livros ainda não chegaram aonde têm que chegar. Isso é mérito somente da Coca-Cola e da televisão. Penso, sou a favor e mexo-me para que os livros de literatura cheguem aos bares, igrejas, hospitais, bairros, favelas e zonas rurais. Todos têm direito a ler livros, emprestados, comprados ou até roubados. Sim, seria tão divertido ter pessoas que roubassem livros para benefício próprio, de enriquecimento mental. Na verdade, não seria roubo, apenas desvio.

Dessa forma, os livros realmente circulariam. Mas isso ainda está longe de acontecer, é só perguntar: se, numa mesma rua, tombam dois caminhões, um de cerveja e outro de livro, de qual caminhão será que irão atrás?

 

Comentários
Katiany Pinho | 04/11/2009
É. Dentro de mim vive uma escritora. E ela morre de inveja da publicitária que
paga as suas contas.
No empate...
Fernanda de Aragão | 05/11/2009 |  
Como eu empatei, e cansei de ouvir na própria sala de aula: professora, além
de dar aula você trabalha?, resolvi virar o jogo e ser escritora, de
profissão, com mestrado, doutorado e pós-doutorado sei lá bem pra quê. E
provavelmente o dinheiro vai ser o mesmo, devido ao empate do não
reconhecimento de ambas as profissões no país. Existem outras, não é nenhum
privilégio. E em todas as profissões deve-se ter a coragem para furar o cerco.
Existem muitos que vivem de literatura no país hoje. Existem muitos que ganham
boa grana sendo professores, principalmente os universitários. E existe uma
maioria na outra ponta. Resta saber definir onde se quer chegar. Sei que é
preciso dedicação e muito, mas muito trabalho. Em qualquer lugar que se vá.
Daí os livros circulam.
É dose mesmo
Fabio Rocha | 05/11/2009 |  
Quando o escritor é poeta, pior ainda... Um poema, aliás, que vem a
calhar:

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O QUE AS MULHERES QUEREM


Namorar o caos
e casar com a
certeza...

Namorar o poeta
e casar com o administrador de empresas...

(Fabio
Rocha)
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