A polêmica iniciada pela publicação de editorial da Folha de S.Paulo em 17 de fevereiro, em que qualificou a ditadura brasileira de “ditabranda”, no texto intitulado “Limites a Chávez”, mostra como é difícil para um jornal reconhecer simplesmente um erro e, de alguma forma, repará-lo.
A publicação do editorial provocou a reação de amigos e familiares de perseguidos pelo regime militar no Brasil (1964-1985), de leitores e intelectuais, que lançaram um abaixo-assinado de repúdio e solidariedade, que teve a adesão de milhares de pessoas, entra elas, o compositor Chico Buarque e o arquiteto Oscar Niemeyer.
A “ditabranda” da Folha também mobilizou cerca de 300 pessoas, que realizaram um protesto na porta do jornal, no dia 7 de março, sob a coordenação do Movimento dos Sem-Mídia, do jornalista-cidadão Eduardo Guimarães, autor do blog Cidadania (veja aqui).
Não faltaram oportunidades para que a direção da Folha assumisse, se não prontamente, pelo menos veementemente seu erro. O que, na verdade, não aconteceria.
No dia 19 de fevereiro, em nota, respondeu a leitores no "Painel do Leitor", novamente reafirmando a tese da “ditabranda: “Nota da Redação - Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.
No dia seguinte, em resposta a cartas de protesto publicadas dos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, em vez de se redimir formalmente, atacou: “Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa”.
A mentira, na verdade, era da própria Folha, reconhecida na coluna semanal do ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva, publicada no dia 15 de março: “A propósito, leitores registram que a “Nota da Redação” em resposta a carta de Fábio Konder Comparato em 20 de fevereiro continha erro factual.
É verdade: ela dizia que Comparato não havia “até hoje” manifestado repúdio a ditaduras de esquerda como a de Cuba. Em 1º de junho de 2004, o “Painel do Leitor” publicou carta dele com críticas ao regime cubano".
No dia seguinte ao protesto na porta da Folha, o jornal publicou matéria sobre o fato e também uma resposta formal do diretor de redação e dono da publicação, Otavio Frias Filho, que finalmente assumiu o erro, mas reafirmou, outra vez, a tese da ditadura supostamente moderada no Brasil e fez novos ataques:
“O uso da expressão “ditabranda” em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.
A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública.
Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam”.
O ombudsman da Folha comemorou a nota da Folha como avanço democrático: “Faz muito pouco tempo, veículos de comunicação nunca reconheciam seus erros. A Folha foi o primeiro no Brasil a ter seção fixa para eles.
No domingo, pela primeira vez que eu tenha memória, um jornal admitiu erro de opinião. Foi a Folha, neste episódio.
Isso demonstra como avançou a relação entre imprensa e sociedade neste país”.
Parece ser exatamente o oposto. O episódio revela a soberba e a arrogância de um jornal e sua incapacidade de assumir sinceramente um erro. O que aconteceu, na verdade, é que os leitores/cidadãos ganharam ferramentas para se articular e reagir, com a revolução digital em curso.
Com um computador com acesso à Internet, a gente dialoga e se articula. Independentemente da grande mídia. Da opinião expressa no jornal.
Tempos atrás, a “ditabranda” seria mais uma afirmação onipotente de um jornal, de seus donos, gente que considera “o jornalismo como uma atividade menor”, segundo palavras do próprio Otavio. Isso sem falar no passado muito obscuro de relações cordiais da Folha com o regime militar.
A opinião pública é do povo, de seus cidadãos, e não aquela que dois ou três sujeitos pseudopensantes dizem ser a realidade dos fatos.
Um jornal com um espírito tão antiquado e excludente assim, tão avesso ao novo modelo de jornalismo exigido, com a voz para o leitor, comprometido de fato com o cidadão, terá vida longa?
Abaixo uma coletânea dos textos do episódio da “ditabranda”:
DIA 17 DE FEVEREIRO, EDITORIAL DA FOLHA
Limites a Chávez
Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder
O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.
ABAIXO-ASSINADO DE INTELECTUAIS
Repúdio e solidariedade
Ante a viva lembranca da dura e permanente violencia desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio à arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime politico vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.
Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de Redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta às cartas enviadas ao Painel do Leitor pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.
Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.
24 DE FEVEREIRO, EDITOR DE “BRASIL” DA FOLHA REAGE À “DITABRANDA”, EM ARTIGO NO JORNAL
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Ditadura, por favor
CERTAMENTE não é a primeira vez que um colunista da casa diverge de uma posição expressa pelo jornal em editorial.
Mas é a primeira vez que este colunista se sente compelido a tornar pública sua discordância, inclusive em nome do que aprendeu durante 20 anos nesta Folha.
O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais.
O argumento de que, comparada a outras instaladas na América Latina, a ditadura brasileira apresentou "níveis baixos de violência política e institucional" parece servir, hoje, para atenuar a percepção dos danos daquele regime de exceção, e não para compreendê-lo melhor.
O que pretende ser um avanço analítico parece, mais do que um erro, um sintoma de regressão.
Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?
Por essa lógica, chega-se à conclusão absurda de que o holocausto nazista não passou de um "genolight" perto do extermínio de 20 milhões promovido por Stálin.
Ora, se é verdade que o aparelho repressivo brasileiro produziu menos vítimas do que o chileno ou o argentino, isso se deu porque a esquerda armada daqui era menos organizada e foi mais facilmente dizimada, não porque nossos militares tenham sido "brandos".
Quando a tortura se transforma em política de Estado, como de fato ocorreu após o AI-5, o que se tem é a "ditadura escancarada", para falar como Elio Gaspari. Seria um equívoco de mau gosto associar qualquer tipo de "brandura" até mesmo ao que Gaspari chamou de "ditadura envergonhada", quando o regime, entre 64 e 68, ainda convivia com clarões de liberdade, circunscritos à cultura.
Brandos ou duros, o fato é que os regimes autoritários só mobilizam a indignação de grande parte da esquerda quando não vêm acompanhados da retórica igualitarista.
Muitos intelectuais se assanham agora com a tirania por etapas que Chávez vai impondo à Venezuela sob a gosma ideológica da revolução bolivariana. Isso para não lembrar o fascínio que o regime moribundo mas terrível de Fidel Castro ainda exerce sobre figurões e figurinhas da esquerda nativa.
É bem sintomático, aliás, que, ao protestar contra a "ditabranda" em carta à Folha, o professor Fábio Konder Comparato, guardião do "devido respeito à pessoa humana", tenha condenado os autores do neologismo a ficar "de joelhos em praça pública" para "pedir perdão ao povo brasileiro".
Que coisa. Era assim, obrigando suas vítimas a ajoelhar em praça pública, submetendo-as à autêntica "tortura chinesa", que a polícia política maoísta punia desvios ideológicos durante a Revolução Cultural. Quem sabe, como a "ditabranda", seja só um palpite infeliz.
FERNANDO DE BARROS E SILVA é editor de Brasil.
8 DE MARÇO, NOTA DE OTAVIO FRIAS FILHO
Folha avalia que errou, mas reitera críticas
DA REDAÇÃO
O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, divulgou ontem as seguintes declarações:
"O uso da expressão "ditabranda" em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.
A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, "de joelhos", a uma autocrítica em praça pública.
Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam."
Otavio Frias
15 DE MARÇO, OMBUDSMAN DA FOLHA
De empastelamentos a reconhecimento de erros
Não faz muito tempo, alguém que discordasse das opiniões expressas por um jornal podia juntar uma turba e destruí-lo fisicamente.
A isso se chamava "empastelamento". Este jornal, quando era Folha da Manhã e Folha da Noite, foi vítima de tal agressão em 1930.
No sábado, dia 7 passado, um grupo de 300 pessoas (segundo o jornal) ou pelo menos 450 (de acordo com os organizadores) realizaram manifestação de protesto em frente à Folha.
Elas se diziam indignadas com editorial publicado em 17 de fevereiro com menção à ditadura brasileira (1964-1985), chamada de "ditabranda".
O ato, com número de participantes que evidencia tanto o poder de convocação dos promotores do evento quando a importância do jornal, foi pacífico. A Folha o noticiou no domingo e deu na íntegra manifesto lido ali.
Faz muito pouco tempo, veículos de comunicação nunca reconheciam seus erros. A Folha foi o primeiro no Brasil a ter seção fixa para eles.
No domingo, pela primeira vez que eu tenha memória, um jornal admitiu erro de opinião. Foi a Folha, neste episódio.
Isso demonstra como avançou a relação entre imprensa e sociedade neste país.
A propósito, leitores registram que a "Nota da Redação" em resposta a carta de Fábio Konder Comparato em 20 de fevereiro continha erro factual.
É verdade: ela dizia que Comparato não havia "até hoje" manifestado repúdio a ditaduras de esquerda como a de Cuba. Em 1º de junho de 2004, o "Painel do Leitor" publicou carta dele com críticas ao regime cubano.
