Jornalirismo

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Certamente um dos principais observadores e analistas do novo momento do jornalismo mundial, colaborativo, digital, em rede, é o jornalista Carlos Castilho, autor do blog Código Aberto (conheça o blog aqui), que faz parte do portal de comunicação Observatório da Imprensa.

E, curiosamente, é um daqueles jornalistas “das antigas”, de carapinha branca, egresso, naturalmente, do jornalismo impresso. Já trabalhou nas principais publicações brasileiras, entre elas, o Jornal do Brasil, em seus áureos tempos, de vanguarda. Foi também correspondente internacional da TV Globo e editor de telejornais da emissora, entre muitos outros empregos.

Hoje, Castilho, como é chamado, vive em Florianópolis, polo de atração de jornalistas experientes (como Mylton Severiano, ex-Realidade e Caros Amigos) em busca de qualidade de vida. Mas, a bem da verdade, é um retorno, porque Castilho é natural de lá. Na capital catarinense, arrasta o peixe como consultor e professor de jornalismo online e de projetos multimídias.

O que tem chamado a atenção no trabalho de Castilho é a capacidade de analisar os rumos do jornalismo brasileiro e mundial em tempos de revolução da informação, com a disseminação das tecnologias digitais e interativas, principalmente da Internet.

Enquanto muitos ainda duvidavam – e, na verdade, ainda duvidam, muitos jornalistas da grande mídia, inclusive – do potencial do cidadão interconectado, ativo, produtor de conteúdo, Castilho já mostrava o potencial revolucionário e transformador desse fato novo e sua influência sobre o trabalho do jornalista profissional.

A notícia, a informação, já notara Castilho, não era, nem deveria ser exclusividade de jornalista. E que o jornalista-cidadão poderia, sim, ser mais relevante que o profissional em muitos casos, devido à sua proximidade, às vezes maior, de determinado fato.

Castilho foi também um dos primeiros a observar e apontar uma a uma as implicações das ferramentas de publicação de notícias ofertadas na Internet sobre o jornalismo formalmente constituído, nas redações de jornais e revistas como as conhecemos.

Notava que o jornalismo online tendia a ser mais horizontal, mais próximo que o jornalismo impresso, por exemplo, marcado essencialmente por longa hierarquia e distanciamento do leitor. Percebeu a capacidade de interatividade e rápida propagação da notícia em rede, diferentemente do meio impresso.

Percebeu que, se algo na postura do jornalista formalmente constituído, postado em sua mesa, telefone à mão, não mudasse, se distanciaria cada vez mais do público, que queria ser ouvido e dialogar.

Fim do diploma

Por isso tudo e um tanto mais, quando Castilho diz que o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercer o jornalismo profissionalmente, determinado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) dia 17 de junho, não significa o fim do jornalismo, muito pelo contrário, e bota o dedo na ferida da formação acadêmica do jornalista, a tendência é concordar com ele.

Escreve Castilho, em artigo publicado dia 21 de junho: “Os cenários catastróficos esboçados por alguns defensores da obrigatoriedade do diploma para o exercício da função de jornalista não devem se concretizar pela simples razão de que a produção, processamento e publicação de informações é hoje a atividade mais importante dentro da chamada nova economia digital”.

O autor de Código Aberto diz que a preocupação de profissionais, estudantes e professores de jornalismo deveria ser com os desafios da nova época, na transição da era analógica para a digital. E garante que “o jornalismo vai continuar a existir, mas seguramente será um bocado diferente do praticado atualmente”.

Num artigo anterior, de 18 de junho, Castilho questionava a formação do jornalista propriamente dita: “As escolas de jornalismo no país dão aos seus alunos a capacitação necessária para ingressar num mercado de trabalho caracterizado por transformações radicais na área da comunicação e do processamento da informação?” E ele mesmo respondia: “Com raras exceções, a resposta será não”.

De acordo com Castilho, a maioria das escolas de jornalismo ainda não transitou para a era digital e se apega a práticas superadas de ensino, ignorando “mudanças ocorridas pela ampliação do uso da internet, pela desvalorização do produto notícia por causa da avalancha informativa, pela emergência do cidadão como produtor de informações, pelo surgimento de redes informativas baseadas na colaboração entre usuários, pela convergência de canais de comunicação e pelo desafio da multimídia como plataforma para a imersão informativa”.

Abaixo você encontrará os dois artigos de Carlos Castilho, publicados na íntegra. Vale conhecer suas ideias e propostas.

Artigo 1

O fim da obrigatoriedade do diploma não significa o fim do jornalismo
(21 de junho de 2009)

Por Carlos Castilho

Muito pelo contrário. Pode até representar um avanço, embora muitos profissionais, estudantes e recém-formados em jornalismo tenham se deixado contaminar pelo pessimismo e negativismo. A decisão do STF, cujas premissas são discutíveis, representou apenas o fim de uma reserva de mercado sem que isto signifique que a atividade esteja ameaçada de desaparecimento.

Os cenários catastróficos esboçados por alguns defensores da obrigatoriedade do diploma para o exercício da função de jornalista não devem se concretizar pela simples razão de que a produção, processamento e publicação de informações é hoje a atividade mais importante dentro da chamada nova economia digital.

Não vale a pena discutir as explicações dadas pelos juízes do STF porque elas estão todas vinculadas a uma realidade informativa em rápida extinção. Eles estão desatualizados demais para poderem entender como a informação está mudando a sociedade contemporânea.

O que os estudantes, recém-formados, profissionais e professores de jornalismo devem preocupar-se é com os desafios que a atividade está enfrentando nesta transição da era analógica para a digital. O jornalismo vai continuar a existir, mas seguramente será um bocado diferente do praticado atualmente.

A primeira constatação é a de que temos hoje uma avalancha informativa gerada pela internet. Isto não significa que recebemos toda a informação que desejamos ou necessitamos, mas não há a menor dúvida de que ela é muitíssimo mais numerosa, frequente e indispensável do que na época em que Gutenberg inventou os tipos móveis e a impressão de documentos, no século XV.

Quando a informação era escassa e tinha que passar pelo gargalo das gráficas e dos redatores, era inevitável que a atividade acabasse concentrada nas mãos de grupos de profissionais que trataram de proteger o seu emprego com uma série de garantias. Mas no momento em que a informação passou a ser onipresente graças à digitalização e à internet, tornou-se impossível impedir que ela seja usada e transmitida por pessoas comuns.
 
As salvaguardas criadas pelos jornalistas, entre elas a obrigatoriedade do diploma, para coletar, processar e publicar informações tornaram-se simplesmente inócuas. Criou-se uma nova situação onde tarefas, que nos cinco séculos posteriores a Gutenberg eram essenciais à informação pública, passaram a ser corriqueiras e de domínio cada vez mais comum. Em compensação surgiram novas demandas por informações com maior valor agregado e por novas competências no terreno da manipulação digital de narrativas em plataforma multimídia.

O jornalista deveria ocupar naturalmente estas novas funções porque sua matéria-prima é a informação. Mas acontece que a maioria esmagadora dos que exercem o ofício não tem a preparação necessária porque não foram reciclados pelas empresas e porque as faculdades de jornalismo, com raras exceções, também estão defasadas.

Sobram condições para que o jornalismo não só sobreviva mas principalmente passe a ter uma função social e pública mais relevante e criativa do que a de peça de engrenagem na produção de notícias em redações que se tornaram quase cópias do chão de fábrica.

A apaixonada polêmica surgida após a decisão do STF pode dar origem a uma profunda revisão das práticas atuais do jornalismo, principalmente a sua inserção no sistema de produção informativa digital. Assunto não falta e motivação, idem. O desemprego de profissionais e as dificuldades financeiras dos jornais começaram antes do voto dos juízes e já vinham provocando efeitos devastadores na categoria.

Não adianta jogar toda culpa no STF porque o órgão é quase irrelevante na crise por que passa o jornalismo. O único mérito dos juízes foi o de, involuntariamente, provocar um choque de realismo nas redações e faculdades. Se não fosse a abolição da obrigatoriedade do diploma, a categoria provavelmente continuaria indiferente às transformações em curso na sua área de trabalho.

O debate pode estar sendo passional e muitas vezes até agressivo, mas não pode ser descartado. Ele é absolutamente necessário, gostemos ou não da forma como está sendo travado, ou dos argumentos que estão sendo esgrimidos. É impossível prever como ele se desenrolará e só resta torcer para que os jornalistas abram os olhos para o novo contexto da atividade.


Artigo 2

O problema não está no diploma mas nas escolas de jornalismo
(18 de junho de 2009)

Por Carlos Castilho

O debate em torno da revogação da exigência de diploma de jornalista mais uma vez envereda pelo rumo equivocado e, se continuar assim, vai novamente chegar a um beco sem saída. Isto acontece porque os protagonistas não levam em conta que o problema não está num pedaço de papel mas em quem o assina.

O diploma é uma certificação da qualificação de um candidato ao exercício do ofício de jornalista. Quem emite o diploma é uma instituição de ensino superior, portanto é ela quem assume a responsabilidade pela qualificação de um jornalista. Este é o diploma legal, pois os certificados emitidos por cursinhos criados por empresas jornalísticas servem apenas como referência curricular.

Agora vem a grande pergunta: As escolas de jornalismo no país dão aos seus alunos a capacitação necessária para ingressar num mercado de trabalho caracterizado por transformações radicais na área da comunicação e do processamento da informação?

Com raras exceções, a resposta será não. A maioria das escolas de jornalismo no país ainda não completou a sua transição da comunicação analógica para a digital. Ainda lidam com práticas superadas, sem levar em conta todas as mudanças ocorridas pela ampliação do uso da internet, pela desvalorização do produto notícia por causa da avalancha informativa, pela emergência do cidadão como produtor de informações, pelo surgimento de redes informativas baseadas na colaboração entre usuários, pela convergência de canais de comunicação e pelo desafio da multimídia como plataforma para a imersão informativa.

As escolas de jornalismo, em sua maioria, também falham num aspecto essencial ao não valorizar a experimentação já que a internet é sabidamente uma área em construção onde quase tudo precisa ser testado e avaliado. As empresas experimentaram quando o que estava em jogo eram produtos tecnológicos para o mercado consumidor.

Mas agora que a Web passa a ser um terreno predominado pela preocupação com a aplicação social da tecnologia, é que se vê como a falta de pesquisa começa a ser um fator limitador do desenvolvimento econômico. Só resta a universidade para preencher este espaço, mas ela se mostra lenta e vacilante neste aspecto por conta da necessidade de ter que rever estruturas e práticas de ensino vigentes há décadas.

Resultado, o recém-formado em jornalismo vai para o mercado dominado pela internet e pela digitalização, tendo como principais ferramentas aquilo que ele aprendeu fora da escola. Assim, o diploma que ele ganhou não tem grande significado para as empresas e nem para o próprio jovem, porque o empreendedorismo jornalístico online não faz parte da maioria dos currículos.

Isto mostra que não adianta polemizar sobre a obrigatoriedade ou não do diploma, se não discutimos a qualificação do jornalista, ou seja, a capacidade das escolas de jornalismo produzir o profissional que a nova realidade informativa está exigindo.

Mais do que o manejo de softwares e equipamentos digitais, o que a informação contemporânea exige são profissionais capazes de interagir com o público, de orientar as pessoas na aplicação da ética na comunicação, de contar histórias usando a multimídia, de contextualizar notícias e por aí vai. Quase todas estas preocupações são vistas como algo extraterrestre por boa parcela do corpo docente de nossas faculdades.

Por isto sou contra este bate-boca estéril em torno de um diploma, que mais do que um documento cartorial tem que ser um símbolo da certificação de qualidade validado pelas demandas sociais contemporâneas. Nem mesmo os nossos doutos magistrados do STF levaram estes argumentos em conta. Por isto, a decisão que tomaram é tão pouco consistente quanto o diploma que eles desqualificaram.

A indústria dos jornais já entrou em crise por conta das mudanças ocorridas na informação e na comunicação, depois da internet. A busca de alternativas para as empresas está sendo dificultada, também, pela impossibilidade das universidades participarem deste esforço com contribuições atualizadas. Será que a gente vai ter que esperar pela crise nas universidades, para que alguma mudança aconteça?

 

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