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Stan Lee e Walt Disney. Assim, na lata. Sem delongas nem ladainhas. Agatha Christie de trás para frente. A melhor dupla de criação do mundo seria composta de Walt Disney na prancheta e Stan Lee na máquina de escrever. Mesmo sem nunca terem atuado efetivamente em agências de propaganda (perdão: Disney teve passagens por agências, sim), imagine o trabalho que esses dois artesãos de mitos seriam capazes de fazer. Mas, antes que a agulha do artigo pule ainda mais para o final, viajemos pelo porquê dos dois.

Como toda Introdução à Publicidade ensina, a criação é dividida em diretor de arte e redator, seguindo um modelo importado das agências norte-americanas. E lá eles assim fizeram por julgar mais prudente e producente unir quem escreve e quem “layouta” na mesma mesa. Antes que algum contemporâneo venha dizer, com toda a razão, que é balela o redator e o diretor de arte criarem separadamente, não é à toa que chega uma hora em que cada um coloca o seu fone e se fecha na sua especialidade.

O diretor de arte corre para a imagem, o redator corre para a palavra. Nunca vi, mas também nunca pesquisei o motivo disso. Acho, eu disse acho, que é por causa dos nossos dois maiores sentidos: visão e audição. É vendo e ouvindo que somos mais impactados pelo mundo. Assim, texto, mesmo escrito, é som. Segue o ritmo do início, meio e fim. É linear, sugere imagens na cabeça de cada um e assim acaba mexendo mais com a imaginação. Conta uma história.

A imagem, diferentemente do slogan, não é tudo, mas é quase. É estática, indiscutível, de compreensão e sensações instantâneas. É um retrato da história. Imagem não sugere, mostra. Isso é pensamento de quem ou dormiu ou matou toda a faculdade, não nego. Mas por que tudo isso, mesmo? Ah, sim: Walt Disney e Stan Lee.

Do pentelho do Mickey Mouse ao maravilhosamente alucinado Pateta, Walt Disney criou personagens que estarão presentes enquanto houver humanidade. Mickey, o filho pródigo, é a Capela Sistina do desenho animado, amostra de brilhantismo simples e absoluto: seu traço que nasce de círculos, além da gestalt perfeita, era também ideal para animação. O resultado, hoje, é Mickey até em capa de livro em braile.

Mas foi nos longas-metragens que Disney se superou e extrapolou. Mesmo com a lenda urbana de que ele está congelado em algum laboratório, os filmes com sua assinatura são blockbusters até hoje. Aí é que está: a ideia dos filmes, quando Disney era vivo e em temperatura ambiente, não era dele.

O que ele tinha era o talento incomparável do desenho singelo, inesquecível, emocionante. Além do traço, sua sensibilidade também foi a de pinçar fábulas e contos de fadas que estavam quicando havia séculos e dar a elas sua cara única. Não, não foi Disney que criou Branca de Neve, Pinóquio, Peter Pan, Alice e mais uma infinidade dos bichos de pelúcia que lotam as camas das meninas.

Essas histórias já eram livros e peças de teatro conhecidos muito antes de Disney sonhar em ser ganha-pão da Tia Augusta. O que ele teve foi a percepção grandiosa de transferir esses argumentos para o cinema e, assim, construir seu fabuloso mundo de cores que, como o próprio nome denuncia, não é o das palavras. O layout que Disney fez de cada personagem é tão poderoso, que qualquer livreco da Cinderela, por exemplo, tem desenhos feitos em cima das referências dele.

Princesas, bruxas, príncipes encantados, fadas-madrinha sempre existiram na imaginação de quem conta e quem ouve histórias na hora de dormir. Disney chegou com um golpe de sopetão e revelou, para a própria imaginação, o que ela estava imaginando. Pode falar: é ou não é um grandessíssimo diretor de arte?

Como não é tão conhecido como Disney, Stan Lee pede duas linhas de apresentação: é ele o criador do Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Incrível Hulk, Homem de Ferro, Demolidor e mais uma penca de outros super-heróis, supervilões e coadjuvantes. Apenas um detalhe: Stan Lee é escritor, não é desenhista. O trabalho que fez durante toda a década de 1960 se tornou os evangelhos de toda a indústria dos super-heróis.

Diferentemente dos distintos criadores do Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha, o que Stan Lee tem de espetacular é que deu origem, sozinho, a um universo inteiro. Seus personagens possuem o lado humano muito mais interessante que o super e assim são muito mais bem construídos e cativantes.

Os X-Men sofrem tanto preconceito social que por pouco também não fazem uma parada gay. Os membros do Quarteto Fantástico têm brigas, como as de qualquer família, de enriquecer analista. O Hulk é uma releitura do monstro ensandecido que qualquer chefe ou engarrafamento desperta em todos nós. Tem vezes que o pobrezinho do Homem-Aranha nem sequer tem o do aluguel. Ou seja: Stan Lee criou um argumento tão sólido, que é sucesso em qualquer apresentação, ideias que funcionam em qualquer layout.

Quem não se lembra da série do Hulk, de “Sessão da Tarde”? E aquela tosca do Homem-Aranha? Tem o desenho do Quarteto Fantástico da Hanna-Barbera e aqueles mais toscos ainda, em que só mexia a boca dos heróis. Tem a série de desenhos do X-Men que passava na “Xuxa” ou “TV Colosso”, não lembro.

Se inventarem trio elétrico do Stan Lee, não me chamem, mas vai dar certo. E os filmes são o clímax. Finalmente, Hollywood teve a tecnologia para os efeitos especiais e os profissionais certos para levar para a mídia absoluta as ideias de Stan Lee na sua mais pura essência. Por toda sua imaginação, referências, mira precisa de acertar o que é bom e texto impecável, escrever quadrinhos é identidade secreta. Embaixo da camisa de Stan Lee, com certeza tem um enorme R de redator.

Agora, sim: imagine esses dois trabalhando juntos. Imagine as duas cabeças mais criativas e hipnotizadoras da cultura pop criando e produzindo em conjunto. Sozinhos, Disney e Stan Lee já conquistaram o mundo. Suas assinaturas estão em absolutamente tudo. De cuecas e lancheiras do Homem-Aranha a quem se mata (todos) a vida inteira por dez dias na Disney World.

Disney tem a imagem. Stan Lee tem o texto. Cada um, com seu ofício e especialidade, pegou os sonhos e os devolveu com a embalagem que todos já conheciam, mas de que nunca haviam se dado conta. Os dois juntos não seria o Hulk na Terra do Nunca, muito menos o Pato Donald de capa e soltando rajadas para cima de Tico e Teco. Seria algo novo, extraordinário, infinitamente poderoso. Histórias e personagens que durariam mais do que o próprio planeta. Os argumentos mais contundentes com o visual mais inesquecível.

Danou-se. Danou-se principalmente por causa de uma última pergunta: se Walt Disney e Stan Lee fossem uma dupla, quem seria o diretor de criação?

Comentários
O diretor de Criação
Mateus Prado | 24/06/2009
Steve Jobs poderia ser um bom diretor de criacão para a dupla, Diferente de
Bill Gates, Steve Jobs não deixou seu lado nerd nos idos de 70, se manteve na
crista da onda e criou uma empresa que antes de qualquer coisa é um centro de
inovação, um lugar cheio de idéias, talento e dinheiro que mesmo assim não
vomita idéias a todo mês, possui pragmatismo e sabe que boas idéias precisam
de estratégia senão morrem soterradas pelo próprio indeditismo. E de mais a
mais na hora de apresentar para o cliente eu prefiro o Steve apresentando.
Publicitários?
Fernando Luz | 01/09/2009 |  
Se Lee e Disney fossem apenas dois publicitários, eu seria bem menos feliz, e
bem mais consumista.
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