Julio Xavier tem mais de quarenta anos de profissão. Começou no departamento de rádio e tevê de agência de propaganda, era o profissional encarregado de coordenar os trabalhos publicitários (spots e filmes) destinados à veiculação em rádio e televisão.
Daí, como representante da agência, mandava e desmandava na hora, por exemplo, de produzir um comercial para a tevê, ditando até os rumos da filmagem. Claro que era, de certa forma, odiado pelas produtoras da época, há quarenta anos, a maior era a Lynxfilm, de São Paulo. Era aquela figura nada esotérica do cliente presente no set.
Tornou-se, em seguida, o diretor de filmes publicitários da agência, quando a agência decidiu assumir a produção de seus próprios filmes. Daí, foi abrir sua produtora, assim que a agência decidiu que lugar de diretor era na produtora, mesmo.
Hoje, mais precisamente há 15 anos, Julio experimenta, no dia a dia como diretor de filmes publicitários, os mesmos contratempos dos diretores antigos, quando ele era o cliente. “Os vícios crônicos do mercado brasileiro continuam: você nunca tem prazo e dinheiro para fazer artesanato.”

Julio Xavier: Falta de planejamento persiste.
Diretor de um dos comerciais mais festejados da história da propaganda mundial, O primeiro sutiã a gente nunca esquece, para a Valisère, Julio diz ainda ter um sonho por realizar: o de filmar um comercial de varejo, desses que dominam o intervalo da tevê brasileira, mas com atores que apenas sussurrassem, bem baixinho.
Assista a O primeiro sutiã a gente nunca esquece, dirigido por Julio Xavier para a Valisère:
Segundo o sócio da BossaNovaFilms, na capital paulista, os comerciais gritados vão criando um “calo sensitivo no consumidor e ele se torna insensível a qualquer tipo de oferta”. Serão realmente eficientes?
Julio também defendeu a produção de filmes brasileiros na Argentina, dizendo ser questão de sobrevivência para as produtoras brasileiras: “Eles [os diretores argentinos] são muito bons, muito cultos e inteligentes e têm um jeito rápido e economicamente viável de trabalhar. São as regras do mercado”.
Conheça agora as ideias de Julio Xavier, em entrevista ao Jornalirismo na sede da BossaNovaFilms. Além de mim e de Julio, que está à minha esquerda, perto, estão também presentes as assessoras Luli, à minha direita, e Paula, à esquerda, ao fundo.
Vamos juntos:
Jornalirismo – Encontrei uma publicação antiga, a revista Portfólio [que circulava no mercado publicitário e já não existe mais], e, curiosamente, é sobre “a crise das produtoras”. Um número especial com gente do mercado da época, com entrevistas. Então, o mercado de produtoras estava ainda se consolidando, estou falando de quarenta anos atrás, e se falava de uma crise. Na sua avaliação, de quarenta anos para cá, o que mudou? O que avançou, ou regrediu?
Julio Xavier – As coisas, no Brasil, em certos setores, não avançam muito, elas se modificam, mas continuam incorporando os mesmos vícios. O mercado cresceu muito. Nessa época se tinha três, quatro produtoras, eram as grandes produtoras, Lynxfilm, J Filmes e mais uma ou duas. Hoje, não sei quantas temos, mas devemos ter mais de 200. Diretor, na época, você tinha três, quatro, cinco grandes diretores. Hoje, você tem 350 diretores. Quando aumenta a oferta de mão de obra e serviços, obviamente aumenta a concorrência, e cai o preço. E, caindo o preço, cai a qualidade. A nossa profissão, de fazer comerciais, é um trabalho artesanal, não é a mesma coisa que fabricar parafusos, biscoito, margarina. Você programa, tem máquinas e fabrica carro, robô, linha de montagem robotizada. Em filme, não. Você trabalha com talento, imprevisto, trabalha com ideias e criatividade, que resulta em artesanato puro. Não é arte pura, mas é arte aplicada, artesanato. Quando se começa a falar em Cannes [o Festival Internacional da Publicidade de Cannes, na França, o mais importante do mundo], em festivais, em prêmios, resultado para o cliente, quer dizer: quão mais eficiente é o comercial, se ele for mais bem-feito do que um comercial feito às pressas e sem aporte de dinheiro necessário? Essa época histórica que estamos vivendo tem dois lados. Um deles é o de ser obrigado a se tornar mais criativo a cada dia, por causa exatamente da convergência das várias mídias. A gente está vivendo uma época de explosão da criatividade como nunca. Por causa da Internet. Por outro lado, como tem excesso de oferta de mão de obra, de produtoras e diretores, é uma África, uma selva, com todo mundo se engalfinhando e competindo. E os vícios crônicos do mercado brasileiro continuam: você nunca tem prazo e dinheiro para fazer artesanato. E essa também é uma choradeira que já tem quarenta anos. E, daqui a quarenta anos, se você entrevistar na época um diretor, você vai estar aqui e eu não, ele vai se queixar do mesmo jeito. Não tem prazo. Você vara a noite, vara o dia, não tem feriado, não tem réveillon, não tem aniversário da mãe, não tem nada. E não existem festivais que deem prêmio para quem se organiza melhor, para o planejamento se organizar melhor. Então, o que acontece? O projeto fica semanas na gaveta, de forma burocrática, da agência, do cliente etc. e, na véspera da coisa entrar no ar, é que se dá o start e começa aquela loucura: você tem quinze dias, uma semana, dois dias, da noite para o dia para produzir. Problema do prazo, isso é uma coisa antiga, de quando começamos. O prazo e o orçamento são paraguaios, mas o nível de exigência continua a ser inglês e norte-americano. Não tem como, em nenhum lugar do mundo, produzir com qualidade uma boa ideia, se você não tiver recurso, não precisa ser uma fábula. Hoje, para produzir um comercial de 30 [segundos], você orça em 200, 300 mil reais, o que é pouco, porque, em qualquer lugar do mundo, um comercial desse, médio, não custa menos de 700 mil reais a 1 milhão de reais. O normal, hoje, é assim: “Temos 80 mil reais, 150 mil reais e é para estar segunda-feira no ar”. Isso é responsável pela queda da qualidade da produção brasileira.
Jornalirismo – Então os responsáveis são preço baixo e desorganização?
Julio Xavier – Exatamente.
Jornalirismo – Filmes do Washington [o publicitário Washington Olivetto, da W/Brasil], muitos deles, eram aprovados pelo telefone com o cliente. Então, anos atrás, a agência gozava de certo prestígio, o cliente confiava. Hoje, os clientes têm níveis de hierarquia e é difícil passar uma ideia no crivo de 300 pessoas querendo opinar. O que você pensa a respeito?
Julio Xavier – Naquela época, os grandes publicitários, como o Washington, eram considerados deuses e o cliente se resignava em trabalhar no seu próprio negócio. Houve uma profissionalização dos clientes; hoje, clientes e presidentes de companhias vão para Cannes, eles estão se informando cada vez mais.
Jornalirismo – O cliente melhorou, de modo geral?
Julio Xavier – Melhorou, porque, hoje, o cliente não enxerga o homem como mito, e seu trabalho como algo inatingível. Com esse negócio da interatividade e da convergência das mídias, eles se profissionalizaram no sentido de entenderem mais de criação, e não só de marketing, que era a área deles. Com a web 2.0, tudo é postado para que seja reautorado e recriado pelos usuários. Hoje, qualquer cliente tem sua câmera de vídeo, grava e edita seus próprios filmes, dos aniversários dos filhos, por exemplo. E, não por acaso, hoje, alguns comerciais de maior sucesso são feitos por gente inexperiente, com material postado na Internet. Então, dessacralizou esse negócio: “Oh, o diretor de criação é um gênio, um mito!”; “Julio Xavier, João Daniel, Dorian Taterka, Pedro Becker são gênios, só eles sabem fazer!”. “Não, se ele sabe fazer, eu também posso fazer”. Talvez não de forma tão brilhante, mas qualquer um pode fazer. Isso aconteceu não só na nossa profissão, foi em tudo. Em todos os setores da atividade humana, deixou de existir o especialista, hoje todos somos um pouco especialistas em tudo, inclusive o cliente. Mas a procura por excelência vai continuar. Seu filho, se ele precisa de uma consulta, tem uma doença grave, você vai deixar na mão de um moleque inexperiente, que acabou de se formar em medicina? Não, você vai procurar um especialista. Vai viajar, daqui para Cannes, entra um piloto de 25 anos de idade com um manual na mão. “Pô, quem vai me pilotar até lá?”, você pergunta. O comandante, você quer que, pelo menos, tenha as têmporas grisalhas. Na hora de escolher ator para fazer filme de companhia aérea, você não põe um moleque, lá. Comercial de companhia aérea do mundo inteiro tem um senhor, lá. Esse cara é experiente. Curiosamente, propaganda é uma das únicas atividades humanas em que experiência não conta muito. O que conta é como no mundinho da moda. Existem valores nesse mundo, supérfluos, que não têm muito a ver com eficiência do que está sendo feito e sim com algo muito mais de perfumaria e estética. Um exemplo: fiz um filme que é considerado um benchmark [referência, modelo exemplar] da marca no Brasil, historicamente. Fiz agora, dois, três anos atrás. O maior recorde de recall [lembrança pelo consumidor] que tem. O segundo filme dessa marca, o cliente falou: “Quero que o Julio Xavier faça”. Não se sabe por que, o filme foi desviado para outro diretor. Chamaram um diretor jovem argentino: deu refação total duas vezes. Por que, mesmo quando você acerta, por ter experiência, o segundo filme não é feito com a mesma pessoa? Porque existe todo um relacionamento, a pessoa decidiu dar um filme para um outro amigo, de sua própria geração etc. Gozado que o próprio diretor de criação da agência me falou: “Que coisa, nossa profissão é a única em que experiência não é valorizada, não tem muito valor”.
Jornalirismo – Vamos falar um pouquinho da Argentina. É aceito por todo mundo que ela desenvolveu uma boa indústria cinematográfica. Falam da forma de incentivo ao cinema de lá, que recebe porcentagem da bilheteria; falam também de uma boa escola de atores. Queria saber a sua avaliação do cinema publicitário argentino.
Julio Xavier – O que acontece é o seguinte: a Argentina tem hoje mão de obra barata. O cinema publicitário brasileiro, hoje, não é competitivo, porque nossa mão de obra está cara. A nossa moeda estava supervalorizada. Antigamente, nossa área internacional fazia muito filme, hoje, é caro para eles [os estrangeiros] virem aqui trabalhar. Por que eles vinham trabalhar aqui e não nos Estados Unidos etc. e tal? Por que os diretores brasileiros são melhores? Não, vinham para cá por questão econômica. E a Argentina está vivendo esse período.
Jornalirismo – O próprio Brasil está fazendo um monte de coisas, lá.
Julio Xavier – O Pedro Becker filma muito lá, nós filmamos muito lá, também. Por causa do orçamento. Quando você monta um orçamento aqui, o maquinista é mais caro, a hora do cenógrafo é mais cara, a hora da perua Kombi, o cattering [alimentação da equipe], tudo é mais caro. O Uruguai é ainda mais barato que a Argentina e está se filmando também no Uruguai.
Jornalirismo – Os filmes de Volkswagen estão sendo feitos lá, por uma produtora argentina [a Rebolucion, conheça aqui].
Julio Xavier – Uma coisa que também encanta, esse negócio da perfumaria publicitária, o casting [elenco]. Na Argentina, você tem caras maravilhosos, parecem atores europeus, olhos azuis, verdes, cabelo loiro etc. Não são aquelas caras que você vê em comerciais brasileiros. Aqui, são sempre as mesmas caras, o mesmo sujeito.
Jornalirismo – Mas são filmes que não podem ter som direto [risos].
Julio Xavier – Não pode, ou então você tem que dublar, muito bem dublado.
Jornalirismo – Mas fica bom?
Julio Xavier – Isso, acho outra frescura, porque, nos longas-metragens que você vê na TNT [canal de TV a cabo], por exemplo, você não diz que o cara não fale português, e é dublado. Todo mundo olha, acha maravilhoso, se emociona.
Jornalirismo – Vamos pensar assim: isso pode ser considerado uma deformação do mercado brasileiro? Ou o quê?
Julio Xavier – É um momento histórico, não é deformação. Tudo aqui está caro. São Paulo: você não consegue sair à noite para levar tua mulher para jantar, porque é tão cara quanto Moscou, que é a cidade mais cara do mundo. O custo disso aqui está afetando a indústria do mercado publicitário. Da mesma forma que grandes marcas estão fugindo para usar mão de obra chinesa, o pessoal no Brasil está fugindo para usar mão de obra do Mercosul. O dinheiro é esperto, ele foge, mas o lucro não diminui.
Jornalirismo – É para se manterem competitivos que vocês estão indo para outros mercados?
Julio Xavier – Exatamente. Nós estamos trabalhando pouco por lá, mas outros diretores, de outras produtoras, estão trabalhando muito. Mas nós queremos ser competitivos e vamos procurar mão de obra barata. Estamos orçando, lá.
Jornalirismo – Mas isso não é dar tiro no próprio pé?
Julio Xavier – Se você continuar mantendo qualidade... Os diretores argentinos são bons, historicamente. O Andres Bukowinski, por exemplo, que veio para cá, é um gênio. Eles são muito bons, muito cultos e inteligentes e têm um jeito rápido e economicamente viável de trabalhar. São as regras do mercado. E a gente, se quiser trabalhar aqui, tem que trabalhar igual ou mais barato.
Jornalirismo – Empresa de casting brasileira está em dificuldade?
Julio Xavier – Está em dificuldade.
Jornalirismo – Na Portfólio, li outro assunto que parece continuar até hoje. A produtora, inclusive a palavra em si, já trazia certo desprestígio, quer dizer, é o cara que vai apenas executar o que eu criei.
Julio Xavier – O fornecedor.
Jornalirismo – A produtora ainda é vista como a parte menor da história? Continua assim?
Julio Xavier – Continua. Quarenta anos atrás, na época das moviolas, a Lintas Propaganda comprou uma e pôs lá dentro [da agência]. Os diretores filmavam e forneciam as latas com o copião [o material bruto filmado] para ser montado na agência, pela equipe de criação. O diretor ia embora. Não tinha direito nem de dar a sua própria versão. Isso era a Lintas. Uma das saídas das agências foi contratar seu próprio diretor, para ter controle e qualidade. Eu não sou um cara de produtora, trabalhei minha vida inteira em agência, nasci em agência. Era diretor das agências.
Jornalirismo – Você era do [departamento de] rádio e tevê?
Julio Xavier – Comecei como rádio e tevê da Denison, Alcântara Machado, CIN, que é a atual Leo Burnett. Aí, cheguei a diretor de criação da Leo, com o Serginho Sousa, já falecido. Depois de lá, voltei para a Alcântara Machado, fui para a DPZ e só fui abrir minha produtora, a JX Filmes, há 15 anos, e eu tenho 45 anos de profissão. Aconteceu uma coisa interessante, aquela época: eu trabalhava, por exemplo, na DPZ ou na Almap, aí o cliente pegava o orçamento e falava: “Cachê de diretor, espera aí, mas eu já estou pagando cachê de agência, já existe a porcentagem sobre veiculação e eu ainda vou pagar cachê de diretor? Ele é funcionário da agência!”. Então, as agências mandaram embora seus diretores, dizendo: “Lugar de diretor é na produtora”. Foi aí que abri minha produtora. Na realidade, o filme é da agência e de quem o criou. E os criadores, desde aquela época, já queriam ter o poder de decisão sobre quem filmava, como filmava. Tanto é que, quando eu trabalhava na agência, no rádio e tevê, chegava na produtora e falava para os diretores, por exemplo, da Lynx: “Não, câmera mais baixa. Não, troca a lente”. E os diretores começaram a ficar putos da vida, com muita razão, e desprestigiados. Então, falaram: “Não dirijo mais, vem você e dirige”. Hoje, como há quarenta anos, o diretor é uma marionete. Eles esperam que você seja um bom sparing [no boxe, sparing é o lutador contratado para servir de treino para o lutador principal]. Querem que você discuta, que quebre o pau, que sugira e dê ideias, mas, na realidade, você está postando coisas na mão deles para que, em cima disso, decidam. A opinião final é deles. O David Lynch [cineasta consagrado norte-americano] esteve aqui na Faap [Faculdade Armando Álvares Penteado, em São Paulo] e eu gravei a entrevista dele. Ele falou: “Não existe autoria, o diretor não é autor em publicidade. Filmes são feitos para vender. E nenhum diretor de propaganda pode dizer que o filme é seu, se ele não tiver o final cut. E nenhum diretor tem o final cut”. O corte final, a minha versão. Não dá para dizer que o filme é meu, se o cara ficou comigo aqui, montou, levou o filme para a agência, remontou lá, porque todos eles têm computador, hoje.
Jornalirismo – E hoje ainda [o filme] sai daqui e vai para lá?
Julio Xavier – Vai, e eles remontam. Mas, dependendo da pessoa, têm um respeito muito grande, querem ver a tua versão. Mas, em noventa por cento das vezes, é essa colcha de retalhos; é criação coletiva, diretor 2.0.
Jornalirismo – A gente está falando de uma pressão de quem patrocina, não é? O autor, o artista contra o mercado.
Julio Xavier – Tinha um filme, chamado Agonia e Êxtase, com Charlton Heston, que era a história do Michelangelo. E tinha uma cena que nunca mais vou esquecer. O Michelangelo estava pintando o teto da Capela Sistina, estava num andaime, pintava deitado, e chegava o papa, lá embaixo: “[Julio faz sotaque italiano para falar] Ei, Michelangelo, e tá pronto?”. E o Michelangelo: “Não, não está pronto”. “Per que? Quando vai estar pronto, afinal?”. “[Julio baixa a voz] Vai estar pronto quando estiver pronto.” E o papa vinha, na semana seguinte: “Ei, Michelangelo, está pronto?”. Um dia Michelangelo fica doente e, quando volta e entra na Capela Sistina, tem um homem lá em cima pintando. E já estava terminando aquilo que ele tinha demorado seis meses para fazer. E o papa chega e diz: “Ele fez a mesma coisa que você, e em uma semana. Você demorou seis meses”. É histórica essa briga com o mecenas, quem patrocina, o cara do marketing. Mas o artesanato, que é publicidade, por exemplo, pode ser eternamente aprimorado. Quanto mais você domina a pontaria, mais você acerta. Mas há poucos clientes e agências que entendem isso e se planejam para, na fase final do processo, dar um prazo que vá garantir que você dê mais qualidade. Então, o que é o profissional? A diferença entre o profissional e o amador? Foi o Olivier Perroy [diretor de cinema publicitário] que me contou, ele tinha trabalhado seis anos em Tóquio, com um mestre japonês de fotografia. O mestre falou assim para o Olivier: “A diferença entre o amador e o profissional é a seguinte: o profissional consegue te dar a maior qualidade possível quando comissionado e pressionado por problemas de dinheiro e prazo. Já o amador não. Ele só te dá qualidade, se tiver condições ideais de preço e dinheiro”. Eu me lembro que o Dodi [Dorian Taterka, o Dodi, um dos grandes diretores da história do cinema publicitário brasileiro] falava assim. Os caras da agência ligavam: “Porra, tem que entrar no ar segunda!”. E ele: “Não vai entrar no ar. Você só compra mídia quando eu disser que está pronto”. Tanto é que ele foi obrigado a abrir uma agência, porque não tinha ninguém mais que quisesse trabalhar com ele como produtora. Hoje, ele faz parte do board internacional do McDonald´s, fez, historicamente, as coisas mais importantes [Dodi foi, durante anos, o diretor de todos os filmes do McDonald´s no Brasil]. E ele tem a conta até hoje. Como é o dono da agência, pode dizer: “Só vou comprar mídia quando [o filme] estiver bom”.
Jornalirismo – A propaganda tem tendido a virar mais entretenimento. E também vivemos a era da geração de novos conteúdos para marcas, abertura proporcionada pelas novas mídias. Isso não traria mais liberdade para as produtoras apresentarem projetos especiais?
Julio Xavier – Sem dúvida. Agora, a gente entra naquela segunda fase, até agora falamos dos defeitos que são crônicos. A grande boa notícia é a seguinte: em Cannes de dois anos atrás, uma agência norte-americana, chamada Go Viral, especializada em [propaganda] viral, fez uma palestra muito legal. Com a convergência de mídias, Internet, como a mídia é gratuita, o mídia, na realidade, é o usuário da Internet. A quem chamam de seeders. Somos, então, semeadores. Quando você recebe uma ideia ou alguma notícia que acha legal, quer repassar isso para os pobres coitados que jamais teriam contato com isso, se não fosse você ter descoberto. Todo ser humano tem essa vaidade. Você é formador de opinião, também. Você semeia e você, semeando, manda para o teu mailing pessoal, que são 50 ou 100 pessoas, e cada um deles vai agir exatamente como você. Vão apagar tudo que você escreveu, pôr o seu comentário e mandar como se fosse deles. Com isso, jamais, nunca ninguém manda em frente algo que seja medíocre ou de mau gosto. Um viral, para ser eficiente e instantaneamente atingir bilhões de pessoas, tem de ser no mínimo brilhante e criativo. A gente tem o zap desde o advento do controle remoto. Então, a hora do comercial é a hora em que o cara vai ao banheiro, vai pegar uma cerveja na geladeira ou fala com os filhos, zapeia para ver o que tem em outro canal. Comercial é a hora mais chata. Por que a Globo inventou o Profissionais do Ano [um dos principais prêmios nacionais de propaganda], há 30 anos? Porque era hora de dar o zap e, se o cara encontrasse algo interessante em outro canal, não voltava mais para a Globo. Isso foi o Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, um dos grandes artífices da produção audiovisual da Rede Globo, a partir de meados da década de 1960], quando chegou à conclusão de que, para “a gente se ver por aqui”, ficar por aqui, precisava de comerciais de qualidade para prender o cara, que fossem divertidos, inteligentes e criativos. Daí, o prêmio.
Jornalirismo – Você está dizendo que a Globo passou a exigir um padrão de qualidade de comercial?
Julio Xavier – Sim. Foi a primeira que sacou isso aí.
Jornalirismo – Estimula a qualidade, mas, mesmo assim, se o cara tiver uma grana e quiser colocar um comercial ruim, vai para o ar do mesmo jeito, não vai?
Julio Xavier – Sem dúvida. Os varejos todos, Extra, Marisa, Casas Bahia, parã, parã, parã, tudo, aquela gritaria, aquela loucura.
Jornalirismo – Você é obrigado a fazer isso, também, não?
Julio Xavier – Eu faço, tenho feito muito. Estou fazendo Casas Bahia, Magazine Luiza. Varejo é um outro ponto, que adoro fazer e gostaria de mexer nisso de uma forma radical.
Jornalirismo – Fala como seria. O que você queria introduzir no varejo de novidade?
Julio Xavier – Na realidade, a grande função da propaganda é criar imagem para uma marca. Não adianta falar para você, “[Julio eleva o tom de voz] COMPRE AÇÚCAR UNIÃO, A 25 QUE TÃO VENDENDO, EU VENDO POR 15”, se não tiver uma marca. Açúcar União? Isso aqui é igual ao Chivas Reagal. É uma marca que, mesmo sendo mais cara, eu quero. Tem um conceito, uma imagem de qualidade. A gente trabalha uma vida inteira para ter imagem, e não só de produto. Tenho minha imagem, hoje. Cada diretor tem a sua. O cara diz assim: “Ah, esse filme é de criança, é com o Julinho”. Foi criada uma imagem. Antigamente, era filme de caipira: “Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?”. Sempre varia um pouco, caipira, jovem, agora é criança. Então a gente trabalha criando imagens para o cliente. Esse é o primeiro ponto importante. Outro ponto importante é competição de comunicação. Se aparece todo mundo gritando ao mesmo tempo na televisão, emenda um comercial no outro, todo mundo grita, é a mesma coisa. Isso vai criando um calo sensitivo no consumidor e ele se torna insensível a qualquer tipo de oferta. Porque todo mundo grita, todo mundo faz do mesmo jeito. Então eu tinha muita vontade de fazer um filme de varejo em que as pessoas sussurrassem. “[Julio sussurra] A gente tem muito respeito pelo seu ouvido, você não é surdo. Eles estão gritando porque vai ver que não é verdade. Olha lá: eles estão cobrando isso, mas a gente está cobrando isso”. Simplesmente para você ser diferente. E o pessoal não está percebendo esse tipo de coisa. Você chega para os caras e vai fazer, tanto faz o diretor que puser, pois já existe um padrão e você tem que fazer, senão, não faz. E você pega, às vezes, são atores... Eu fiz Casas Bahia e o ator que faz Casas Bahia é um puta ator. Nos intervalos, ele dá shows de interpretação. Aquela menina que trabalha com ele, eles fazem Shakespeare, tudo, são uns caras tão bons quanto o Carlinhos Moreno [ator consagrado no teatro e o intérprete de Garoto Bombril, ao longo dos anos]. E ninguém usa esse talento. O cara está fazendo assim: “PORQUE NÃO SEI O QUE LÁ...”. E está o cara da agência atrás fazendo assim [Julio aponta o indicador para cima], para ele gritar mais. Faço, sou um profissional, tenho que fazer o que querem que eu faça, e faço com o maior prazer. E, dentro disso, procuro botar minhas coisinhas, um macetezinho, sempre sai um pouco da tua contribuição. Mas eles não percebem que estão jogando dinheiro fora. A eficiência é menor.
Leia também:
